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Os Primeiros Cristãos Pregavam de Casa em Casa?

Carlos M. Silva, 22/6/2007

"DENTRE todos os que afirmam ser cristãos, apenas as Testemunhas de Jeová levam a sério a pregação das boas novas." - A Sentinela de 1º de janeiro, 1988, página 20, parágrafo 1.

"O apóstolo Paulo disse aos anciãos de Éfeso: 'Não me refreei de vos falar coisa alguma que fosse proveitosa, nem de vos ensinar publicamente e de casa em casa.' (Atos 20:20) As Testemunhas de Jeová imitam hoje o exemplo de Paulo e pregam zelosamente as boas novas de casa em casa." - A Sentinela, de 1º de janeiro de 1998, página 14, parágrafo 9.

"Negam que a pregação de casa em casa era a marca dos cristãos no primeiro século? Falar com as pessoas nas ruas, nas casas, nas feiras, nos templos... E o mais importante é o tipo de mensagem que 'cristianizava' ainda mais este método de pregação." - Manuel de Castro, uma Testemunha de Jeová ativa. (O nome foi trocado).

Conforme se vê nas citações acima, as Testemunhas de Jeová são ensinadas a pregarem sistematicamente de casa em casa porque os primeiros cristãos teriam feito esse mesmíssimo trabalho. Em que se baseia esta afirmação? Há margem para um outro entendimento?

Os textos a seguir são exemplos de quais passagens das Escrituras as Testemunhas de Jeová costumam citar para corroborar a opinião delas neste assunto:

"Em qualquer cidade ou aldeia em que entrardes, procurai saber quem nela é digno, e hospedai-vos aí até que vos retireis. E, ao entrardes na casa, saudai-a; se a casa for digna, desça sobre ela a vossa paz; mas, se não for digna, torne para vós a vossa paz." – Mateus 10:11-13.

"Deste modo esforçando-me por anunciar o evangelho, não onde Cristo houvera sido nomeado, para não edificar sobre fundamento alheio; antes como está escrito: Aqueles a quem não foi anunciado, o verão; e os que não ouviram, entenderão." - Romanos 15:20, 21.

"E todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar, e de anunciar a Jesus, o Cristo." – Atos 5:42.

Quem ler com atenção o primeiro texto citado (de Mateus), notará que a casa mencionada é onde o pregador se hospedaria, e não a casa, dentre várias, que ele supostamente visitaria numa campanha sistemática de pregação domiciliar. Tal texto em si não é prova incontestável para apoiar o entendimento atual da Torre de Vigia sobre este assunto.

Já no texto de Romanos, não está especificado o método pelo qual o cristão alcançaria um descrente em Cristo. Ele apenas diz que o pregador anuncia as Boas Novas sobre o Cristo a quem nunca tenha ouvido falar nelas. Portanto, é um texto que também não é decisivo para determinar o método utilizado e nem tampouco para abonar o tipo de mensagem pregada hoje pelas Testemunhas de Jeová.

Mas o que dizer do texto acima de Atos? Não estaria ele mostrando claramente que os antigos cristãos pregavam de casa em casa, à maneira dos seguidores da Torre de Vigia?

Há um fator importante que muitas Testemunhas de Jeová desconhecem: a expressão “de casa em casa” vem do grego kat’oikon. Esta palavra significa também “nas casas”. É por isso que a maioria das traduções da Bíblia não verte por “de casa em casa”. O sentido básico de kat’oikon é mencionado até pela Torre de Vigia, nas notas ao pé de página de Atos 5:42 e de Atos 20:20, na Tradução do Novo Mundo com Referências e Notas (TNM). 

Em Atos 20:20 lemos o seguinte na TNM (inclusive a nota):

“Ao passo que não me refreei de vos falar coisa alguma que fosse proveitosa, nem de vos ensinar publicamente e de casa em casa.*”

“* Ou ‘e em casas particulares’.”

Portanto, a própria TNM permite que o texto acima seja traduzido da seguinte maneira:

“Ao passo que não me refreei de vos falar coisa alguma que fosse proveitosa, nem de vos ensinar publicamente e em casas particulares.”

E como será visto mais adiante, “em casas particulares” é o verdadeiro sentido dos dois textos acima.

A nota referente a Atos 5:42 chega a citar um comentarista bíblico chamado R. C. H. Lenski em apoio ao entendimento que a Torre de Vigia diz ter deste versículo de Atos. Dentre outras coisas, Lenski comentou: “Naturalmente, também kat’oikon, que é distributivo, ‘de casa em casa’, e não meramente adverbial, ‘em casa’.”

Mas em que sentido kat’oikon é distributivo? E ser distributivo significa necessariamente que tem que ser consecutivo? Repousando a poucos versículos antes, para o qual a TNM não remete em momento algum em suas notas, existe um versículo no próprio livro de Atos que responde de uma vez por todas esta questão. Trata-se de Atos 2:46, o qual, segundo a mesmíssima Tradução do Novo Mundo, diz:

“E dia após dia assistiam constantemente no templo, de comum acordo, tomando as suas refeições em lares particulares e participando do alimento com grande júbilo e sinceridade de coração, louvando a Deus.” – Atos 2:46, 47.

O grifado acima vem exatamente da mesma expressão kat’oikon sobre a qual Lenski fez o seu comentário. Mas por qual motivo a TNM traduziu “em lares particulares” ao invés da expressão “de casa em casa”? Ora! Não é o mesmo acusativo singular distributivo?

Não é preciso ser nenhum especialista em grego para entender o motivo da escolha, quase escondida, feita pela Torre de Vigia. Se o texto rezasse como a Torre de Vigia normalmente preferiria, ele seria assim:

“E dia após dia assistiam constantemente no templo, de comum acordo, tomando as suas refeições de casa em casa e participando do alimento com grande júbilo e sinceridade de coração, louvando a Deus.” – Atos 2:46, 47.

Consegue imaginar um cristão primitivo comendo em uma casa e depois sair para comer em outra residência, logo após ir comer na casa seguinte, e depois percorrer todos os lares do seu “território”, comendo e comendo até não aguentar mais? Certamente, ele não sentiria nenhum júbilo depois de tanta comilança...

É óbvio que kat’oikon tem sentido distributivo, mas não necessariamente tem que ser consecutivo. No texto acima, se em certo dia o cristão fosse comer  na casa de um irmão, e só no dia seguinte fosse comer na casa de outro e dois dias depois fosse para uma refeição na casa de uma terceira pessoa, ele estaria comendo de casa em casa, mas sem necessariamente ir a todos os lares cristãos numa só manhã de domingo.

A análise gramatical do texto original por si só já é suficiente para notar que Atos 5:42 e 20:20 não são determinantes para abonar o tipo de pregação adotado pelas Testemunhas de Jeová. No entanto, há outros fatores a serem considerados, os quais dão maior peso ao entendimento correto.

O contexto histórico do Cristianismo antigo

Quando o livro de Atos foi escrito, o Cristianismo estava em sua fase inicial, quando praticamente todos os cristãos eram judeus e tinham plena liberdade de pregar em sua nação. É tanto que havia muitas seitas que se proliferaram entre os judeus, com as mais variadas motivações, tais como os essênios e os zelotes. No entanto, com o passar das décadas e com o fim da nação judaica, o contexto mudou completamente, pois os cristãos não eram somente aquele punhado de judeus, mas sim pessoas de todas as nações que se confrontavam com o desafio de expor sua fé diante do grande intolerante religioso que era o Império Romano. Os livros sobre a História do Cristianismo estão aí para mostrar isso.

É praticamente certo que os antigos cristãos (do primeiro século em diante) nunca pregaram de casa em casa no vasto Império Romano, pelo menos não da maneira que uma Testemunha de Jeová hoje esperaria. Isso já foi parcialmente admitido até pelo próprio Corpo Governante das Testemunhas de Jeová! (Em suas reuniões secretas). Tal admissão foi relatada por Raymond Franz, ex-membro do Corpo Governante, em seu livro “Em Busca da Liberdade Cristã”. Mas as Testemunhas de Jeová não sabem disso, uma vez que são proibidas pelo mesmo Corpo Governante de ler livros publicados por ex-membros da Torre de Vigia...

Os primeiros cristãos eram, em sua maioria, pessoas de pouca influência, muitas vezes escravos. Eles não tinham liberdade para serem "pioneiros" * ou meros "publicadores" *. O crescimento inicial do Cristianismo se deu principalmente pelo que as Testemunhas de Jeová chamam hoje de “testemunho informal”. O Império Romano não permitiria que grupos e mais grupos cristãos ficassem visitando persistentemente as casas de cidadãos romanos, tentando convertê-los ao monoteísmo e incentivá-los a deixar a adoração dos “deuses”. Uma atividade assim certamente chamaria a atenção das autoridades e dos escritores daquele tempo.

A título de comparação, note um caso que ocorreu na Grécia antiga. Houve uma seita politeísta, cujos membros eram chamados de Órficos, que incentivava seus adeptos a visitarem as pessoas em seus lares, com o objetivo de conseguir mais aderentes para o seu movimento. Sobre esta seita, lemos o seguinte:

"Platão menciona tractos órficos que eram distribuídos por membros dessa seita, que andavam de casa em casa, e Plutarco, nos seus Preceitos sobre o Casamento, aconselha a parte feminina a não permitir a entrada pela porta das traseiras a estranhos que tentam introduzir os seus tractos em casa fazendo reclamo de uma religião estrangeira, uma vez que isso pode provocar desavenças com o marido.... Platão, Rep., II.364e, fala de um 'monte de tratados' oferecidos pelos 'profetas errantes' de Museu e Orfeu, em que ensinavam uma religião catártica e os seus rituais chamados teletai (i.e., iniciações). " – Cristianismo Primitivo e Paideia Grega, edição de 1991, Portugal, de Werner Jaeger, p. 20, inclusive nota.

Certamente tais pregadores não tinham o zelo cristão nem o Espírito de Deus, mesmo assim o que fizeram foi registrado e chegou aos dias de hoje. Mas no caso dos cristãos, os quais desenvolveram uma pregação muito mais extensa e duradoura, não há um único registro histórico sobre visitas costumeiras aos lares pagãos. E lembre-se que a pregação que as Testemunhas de Jeová imaginam que houve no primeiro século não se resumia a visitas discretas, e sim a uma campanha ostensiva e periódica com o objetivo de alcançar todas as casas de todas as cidades do Império, uma a uma, não deixando ninguém de fora. Isso durante dias, meses e anos seguidos. Será que um empreendimento desta magnitude e abrangência não receberia algum destaque dos escritores daquele tempo? Seria de se esperar que houvesse um número enorme de referências sobre o pregar de casa em casa dos cristãos antigos, caso eles tivessem realmente se empenhado numa campanha semelhante a que feita hoje pelos seguidores da Torre de Vigia fazem hoje em dia. Tais menções históricas, porém, não são encontradas.

É verdade que os registros antigos mencionam frequentemente o zelo dos primeiros cristãos ao pregarem sua fé. Não se pode negar isso. No entanto, tais escritos não destacam o método de casa em casa como o principal meio de divulgação.

Mesmo alguns ricos tendo se convertido ao Cristianismo, o método de pregar periódica e consecutivamente nas casas de estranhos não era o principal porque o Cristianismo cresceu especialmente dentro da humilde classe escravista e proletária, como mencionam os autores a seguir:

"O problema das fontes do cristianismo distingue-se pela sua extrema complexidade. A cristandade surgiu no seguimento das relações políticas e sociais existentes sob o regime escravista." – A Origem do Cristianismo, de Iakov Lentsman, edição de 1985, editora Caminho, Portugal, p. 33.

"O filósofo grego Celso escarnece da nova religião porque seu fundador teve como mãe uma trabalhadora e como primeiros missionários alguns pescadores da Galiléia. Pela mesma época, os pagãos zombam das comunidades cristãs porque [são] formadas principalmente por pessoas de condição humilde. O Evangelho, ironizam eles, exerce sua sedução somente sobre 'os simples, os humildes, os escravos, as mulheres e as crianças". Taciano traça o retrato do cristão de seu tempo: ele foge do poder e da riqueza e é, antes de tudo, 'pobre e sem exigências'. " – A Vida Cotidiana dos Primeiros Cristãos (95-197), editora Paulus, 1997, de A. G. Hamman, p.41.

Os escritores da Antiguidade não mencionaram uma sistemática pregação de casa em casa dos primeiros cristãos porque ela simplesmente nunca existiu. Um dos motivos é porque os cristãos eram, na maior parte, escravos e desvalidos, não tendo a liberdade necessária para pregarem periodicamente de casa em casa. E não somente devido à sua condição social, mas também por causa do rígido sistema de governo romano, que dificilmente permitiria essa atividade.

Como já foi dito, sem dúvida o principal meio de evangelização naquele tempo era o que a Torre de Vigia chama hoje de "testemunho informal", dado a amigos, parentes, vizinhos, amos, escravos, empregadores e empregados. Mas é claro que isso não significa que os cristãos antigos não pregavam de maneira alguma na casa de algum estranho. Não é desarrazoado achar que eles também faziam isso, se a circunstância assim o permitisse. No entanto, dificilmente faziam dessa modalidade a principal. Não só pelo que foi mencionado até aqui, mas também devido à hostilidade natural das pessoas ao em encararem uma ideia nova que contradissesse o que elas mais prezavam em termos de religião. Não era preciso que os cristãos se expusessem a este ponto. O Espírito de Deus se encarregaria de apontar os merecedores, se Deus assim o quisesse.

Note que na citação de Platão, que foi mencionada acima, os órficos, ao pregarem nas casas, entravam pela "porta das traseiras", o que dá a entender que não iam às casas de forma aberta e sistemática, tal como no modelo adotado pela Torre de Vigia.

Tome como exemplo as campanhas que as congregações das Testemunhas de Jeová fazem em cidades pequenas, nos chamados "territórios não designados", isto é, aqueles onde não há Testemunhas de Jeová nem Salão do Reino. Alugam-se ônibus para as Testemunhas viajarem até a cidade escolhida e lá elas passam o domingo inteiro pregando, com breve parada para almoço e descanso. Não raro, nessas ocasiões, quando as Testemunhas de Jeová chegam a determinada cidade, as pessoas saem das suas casas se perguntando de onde surgiram tantos pregadores. Uns ficam entusiasmados com as visitas, outros se escondem. Alguns até ralham ao saberem do que se trata, quando descobrem que é a "terrível seita das Testemunhas de Jeová" que chegou à cidade. Este modelo de pregação frequentemente chama a atenção de escritores de livros e jornais, os quais mencionam este método específico de proselitismo (e vez ou outra a Torre de Vigia os citam nas suas publicações). Por que então os cristãos antigos não despertaram igualmente a curiosidade dos escritores que lhe eram contemporâneos?

Reflita um pouco e volte a meados do primeiro século de nossa era. Se naquele imenso território virgem e pagão do Império Romano houvesse realmente milhares de pessoas pregando periodicamente de casa em casa, sem serem convidadas, ano após ano, década após década, não acha que haveria registro dessas campanhas nos escritos históricos? Lembre-se que Roma era menos tolerante que os gregos. Se os gregos se incomodaram com os órficos e musoicos, quanto mais os romanos se incomodariam com aqueles que traziam uma mensagem que significaria simplesmente o fim de suas religiões politeístas...

A congregação primitiva era nas casas dos irmãos

Leia o seguinte texto bíblico, o qual menciona as palavras de Paulo:

"No entanto, de Mileto ele enviou a Éfeso e chamou os anciãos da congregação. Quando foram ter com ele, disse-lhes: 'Bem sabeis como, desde o primeiro dia em que pisei no distrito da Ásia, eu estive convosco todo o tempo, trabalhando como escravo para o Senhor, com a maior humildade mental, e com lágrimas e provações, que me sobrevieram pelas conspirações dos judeus; ao passo que não me refreei de vos falar coisa alguma que fosse proveitosa, nem de vos ensinar publicamente e de casa em casa'. " – Atos 20:17-20.

Será que mesmo uma Testemunha de Jeová dogmática não desconfiaria de que quando Paulo emitiu as palavras acima, ele estava se referindo aos próprios irmãos cristãos? E irmãos com responsabilidades na congregação? Isto é tão evidente que a Torre de Vigia já compreendeu este versículo de forma correta. Note o que ela chegou a afirmar:

"Paulo lembrou aos anciãos de Éfeso que os havia ensinado não apenas publicamente, mas também de 'casa em casa'. (Atos 20:17-20....)." – Livro Organização para Pregar o Reino e Fazer Discípulos (1972), p. 56. [sublinhado e negritos acrescentados]

"Alguns podem sobressair-se no ensino da tribuna, ao passo que outros talvez sejam mais fortes no ensino de modo informal, possivelmente ajudando membros da congregação ou famílias com problemas pessoais por visitas domiciliares ou em palestra particular. — Atos 20:20." - "A Sentinela", de 15 de dezembro de 1973, p. 757. [sublinhado e negritos acrescentados]

Visto que o entendimento correto desta passagem de Atos não servia aos interesses da Torre de Vigia, posteriormente ela se encarregou de negar tal fato em suas publicações. Assim, quando uma Testemunha de Jeová hoje em dia se depara com este versículo e o entende da maneira correta, caso ela busque uma "orientação" nas publicações atuais do “escravo fiel e discreto” **, ficará convencida que quase entendeu "errado" a passagem em apreço. – Como exemplo, veja a "Sentinela" de 15 de março de 2003, p. 12.

No texto acima de Atos, o apóstolo disse que era aos anciãos que ele estava a ensinar. Disse que para efetuar essa pregação ia "de casa em casa", ou nas "casas particulares", conforme permite a outra alternativa de tradução. Paulo não estava dizendo que os ensinou antes de se tornarem cristãos ou que os ensinava de maneira indireta, por dar o exemplo de como pregar, ao irem todos juntos para o “serviço de campo” (= pregação de casa em casa).

Não é de admirar que os próprios cristãos fossem um “território de pregação” para o apóstolo Paulo, visto que naquele tempo não se fazia muita cerimônia para se batizar os interessados pelo Cristianismo. Muitos desses que se batizavam de súbito precisavam de ensinos adicionais para avançarem à madureza cristã. Por isso Paulo pregava para a eles também, além dos gregos e judeus descrentes.

Mesmo hoje em dia é comum se ouvir falar que pastores pregam (da tribuna) para os fiéis ouvirem e serem ensinados. Até no caso das Testemunhas de Jeová isso acontece, quando os instrutores assumem seus lugares no púlpito. Por exemplo, quando um ancião (presbítero), ou servo ministerial (diácono), sobe à tribuna para fazer um discurso público ele pode incluir o tempo que passa discursando no relatório de serviço de campo, o qual é feito mensalmente por todas as Testemunhas de Jeová e entregue aos anciãos. ***

No tempo dos primeiros cristãos não havia templos nem "salões do reino". As igrejas ou congregações funcionavam dentro das casas de alguns irmãos, semelhante ao que acontece nos "estudos de livro de congregação" das Testemunhas de Jeová. Disse Paulo:

"Dai os meus cumprimentos a Prisca e Áquila, meus colaboradores em Cristo Jesus, que, pela minha alma, arriscaram os seus próprios pescoços, aos quais não somente eu, mas também todas as congregações das nações expressamos agradecimentos; e cumprimentai a congregação que está na casa deles." – Romanos 16:3-5.

Quantas congregações de cristãos havia no primeiro século? Melhor dizendo, quantas casas que serviam de local para reuniões existiam? É razoável imaginar que havia um certo número dessas casas em cada cidade. Se Paulo, ao chegar em uma localidade, fazia questão de ensinar a todas essas pessoas, é lógico que ele deveria ir de casa em casa para alcançá-las, no sentido distributivo não consecutivo, sendo que cada uma dessas casas era o lar particular de algum irmão. Isto é bem diferente do que as Testemunhas de Jeová geralmente pensam quando lêem o texto de Atos 20:20.

Que os cristãos deveriam ser ensinados após serem batizados é óbvio na própria sequência das palavras faladas por Jesus Cristo:

"Ide, portanto, e fazei discípulos de pessoas de todas as nações, batizando-as em o nome do Pai, e do Filho, e do espírito santo, ensinando-as a observar todas as coisas que vos ordenei." – Mateus 28:19-20, TNM.

Preste atenção na ordem das ações:

1º) Fazer um discípulo,

2º) Batizá-lo,

3º) Ensiná-lo.

É claro que o contato inicial com o potencial discípulo implicava em algum ensino, tal como ocorreu no caso do eunuco etíope e outros mencionados nas Escrituras. (Atos 2:41; 8:27; 16:30). No entanto, após o batismo o discípulo precisava ser revisitado frequentemente para receber instruções adicionais, visto que o contato inicial podia ser de poucas horas.

O método pode ser usado como critério de julgamento?

Não é difícil encontrar uma Testemunha de Jeová que ache que os membros de outras igrejas já estão condenados só pelo fato de não demonstrarem interesse em pregar de casa em casa, no sentido distributivo consecutivo. Até ex-Testemunhas de Jeová que deixam a Torre de Vigia são criticadas porque geralmente deixam de fazer isso. Por exemplo, criticando os que vêem na Bíblia que não é preciso pregar de casa em casa, uma Testemunha de Jeová escreveu o seguinte:

"Agora para aqueles que não conseguem mais sair de casa em casa, por que perderam o pique, quando se afastaram da congregação das TJs, é tentador procurar uma interpretação dessa ordem que lhes favoreça no seu estado de desobediência a Cristo" – Frederico Queiroz (o nome foi mudado).

Então, não pregar de casa em casa de forma distributiva e consecutiva é, para essa Testemunha de Jeová, uma desobediência a Cristo. No entanto, se tal pessoa procurasse atentamente onde Cristo ensinou isso claramente, veria que não existe tal lei.

Como já foi mencionado, não há nada que proíba um cristão de pregar nas casas das pessoas, até mesmo à maneira TJ, se assim ele desejar. Mas não existe maneira razoável de estipular um padrão que a Bíblia e a História não ensinam. O pregar cristão não precisa ser da forma insistente praticada pelas Testemunhas de Jeová – as evidências bíblicas e históricas mostram isso. E foram justamente os métodos menos valorizados pelas Testemunhas de Jeová os responsáveis por fazer o Cristianismo crescer da maneira que cresceu.

O homem não pode conceber os planos de salvação que Deus tem para cada pessoa. Hoje em dia, onde há liberdade religiosa observa-se um crescimento significativo no número de Testemunhas de Jeová e de outras denominações cristãs. Se em qualquer um desses lugares não houvesse tal liberdade o número de Testemunhas de Jeová seria mínimo, exatamente como acontece na China, Bangladesh, Afeganistão etc. Considerando estes países e outros, com certeza há mais de um bilhão de pessoas que nunca ouviram falar de uma Testemunha de Jeová. Ou seja, normalmente o que determina o crescimento de uma religião são as condições existentes em cada nação. Se qualquer religião fosse o meio único de salvação da parte de Deus, muitos não seriam salvos simplesmente por falta de oportunidade. Portanto, é Deus quem determina quem será salvo. Deve ser por isso que sempre vemos na Bíblia figuras angélicas presentes quando o assunto é mostrar o caminho de salvação para alguém.

Por fim, nunca é demais lembrar que incluído no "pacote" que as TJs oferecem de casa em casa, há os velhos e perigosos ensinos legalistas e antibíblicos, sobre os quais não é preciso comentar, pois todo mundo "já está careca de saber" quais são, exceto as Testemunhas de Jeová, porque são proibidas pela Torre de Vigia de ler matérias publicadas por dissidentes ou apologistas que escrevem contra a Torre de Vigia. Sim, o que uma Testemunha leva em sua pasta não é uma mensagem totalmente bíblica e cristã. Depois que uma pessoa é “fisgada” o lado sombrio vem “embrulhado” em uma caixa brilhante e colorida. E graças à Internet, um número cada vez maior de Testemunhas de Jeová está descobrindo isto (em sigilo).

O leitor Testemunha mencionado no início, também escreveu o seguinte:

“E o mais importante é o tipo de mensagem que ‘cristianiza’ ainda mais estes métodos... Sim, porque ensinamos, e vocês sabem bem, uma mensagem bíblica (esqueça por um momento os erros fatais...). A mortalidade da alma, a inexistência do inferno de fogo, a verdadeira identidade de Jeová, Jesus e o Espírito Santo, a restauração de uma nova terra, os tempos áureos de justiça, vida eterna... Isto sim é uma mensagem cristã!”

Não é o objetivo deste artigo entrar no mérito destes assuntos, para opinar se os mesmos são corretos ou não. Mas o fato é que até uma leitura descompromissada da Bíblia, especialmente no Novo Testamento, indica claramente que tais assuntos, em sua maioria, não receberam NENHUM destaque na mensagem cristã do primeiro século, de uma maneira tal que quem não acreditasse exatamente assim estaria condenado. As Boas Novas centravam-se na salvação por Jesus Cristo, mediante a fé. A simplicidade dessa pregação não é surpresa, visto que o próprio Cristo dissera:

"Eu sou a ressurreição e a vida. Quem exercer fé em mim, ainda que morra, viverá; e todo aquele que vive e exerce fé em mim nunca jamais morrerá." - João 11:25-26.

A Torre de Vigia acha pretensiosamente que pode alterar o sentido deste texto, dizendo que a fé verdadeira em Jesus só é possível dentro de sua religião. Mas qualquer estudante sério da Bíblia percebe que isso não é verdade. Há provas cabais e abundantes neste sentido. O entendimento correto do texto acima já é em si uma grande Boa Nova a pregar para quem quiser ouvir!

Portanto, quem dará a vida é Deus, mediante Jesus Cristo, e não os dirigentes de uma religião que julgam outros cristãos mediante seus critérios particulares de interpretação, tanto no caso da pregação de casa em casa (forçando o sentido distributivo e consecutivo) como em outros assuntos.

A vida eterna é um presente dado gratuitamente aos que tem fé. Nada que um cristão faça o tornará merecedor dela. É por isso que tal dádiva é chamada de "benignidade imerecida" (TNM) ou "graça" (Almeida). - Atos 15:11.

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* Termos usados pela Torre de Vigia para se referir às Testemunhas de Jeová que vão pregar de casa em casa. Os “pioneiros” dedicam mais horas que uma Testemunha com dedicação mediana, podendo atingir mais de 70 horas de pregação por mês.

** Na prática, termo usado pelas Testemunhas de Jeová para se referir ao seu Corpo Governante que é sediado em Nova Iorque, o qual é composto de algumas Testemunhas de Jeová muito veteranas. São estes homens os responsáveis pelos ensinos da Torre de Vigia.

*** Um ancião reúne todos os relatórios da congregação e os envia para a sede da Torre de Vigia. Este relatório serve para os anciãos ficarem atentos aos “negligentes” em sentido “espiritual” e para a Torre de Vigia saber quantos bilhões de horas foram gastas por seus seguidores em todo o mundo, especialmente na pregação de casa em casa. 

 

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