Fuga, Uma História Pessoal

Traduzido por Fábio Pacheco com permissão, de 
     Translated by Fábio Pacheco with permission, from www.beyondjw.com

 

Conforme narrado por Sharom B.

Todos os nomes foram alterados para proteger as várias pessoas envolvidas. 

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A PROCURA

Eu estive procurando durante muitos anos, por um relacionamento com Deus, e esta busca me levou à religião conhecida como "Testemunhas de Jeová". Eu tinha mudado de religião para religião buscando esta relação com Deus, que eu tanto queria. Eu quis tanto isso, que estava disposta a deixar quase qualquer coisa para conseguir.

Eu gostei do que as Testemunhas me ofereceram: vida eterna e uma relação pessoal com Deus. Quando eu comecei a estudar, eu aprendi sobre o Deus Todo-Poderoso, os frutos do espírito e os atributos maravilhosos de Deus, especialmente o amor. Realmente, o amor que eu observei entre o "Povo de Jeová" dentro das assembléias e Salões do Reino era o que eu estava buscando.

Eu gostei de aprender mais sobre Deus, e eu desfrutei da associação com os anciãos e os outros; eu apreciei a orientação e proteção deles. Então eu amei tudo o que estava acontecendo ao meu redor, a aceitação que eu sentia, a ajuda que eu recebi dos irmãos e irmãs, o amor que era mostrado pelas Testemunhas, e o apoio espiritual que eu recebi. Era a aceitação no seu melhor! Eu quis ser uma parte de tudo isto! Eu não hesitei; corri para Jeová Deus, porque quis pertencer a Ele, e tão somente a Ele.

 

 

PEQUENAS DÚVIDAS

Minhas primeiras dúvidas começaram em algumas coisas que me foram ensinadas, e coisas que eu tinha visto acontecer dentro da organização, não "casaram" comigo. Por exemplo, certas passagens citadas não pareciam (para mim) se aplicar ao que eles estavam ensinando. A Bíblia fazia uma declaração, e eles me diziam que a declaração não é mais aplicável. Em alguns exemplos, isto está bem de acordo com a tradicional compreensão cristã. (i.e. a idéia completa de um "novo concerto"), mas este tipo de explicação nem sempre me ajudava a ver que eles estavam interpretando uma passagem bíblica, que de certo modo, não fazia muito sentido para mim.

Ademais, as atitudes de algumas testemunhas não batiam com o que estávamos aprendendo no Salão de Reino. E a desculpa de que as "pessoas não são perfeitas" não era suficiente, em minha visão. Eu não estava pedindo perfeição, só esforço, não ferir outros. Tínhamos sido ensinados que muitas regras eram para nossa proteção, mas através de todo aquele ensinamento, eu tive a desconfortável sensação que faltava o dedo de Deus naquilo tudo.

 

 

AS DÚVIDAS FLORESCEM

Essas pequenas dúvidas começaram a crescer quando tive que dar uma olhada mais profunda em minha vida. Meu filho concordou com os ensinos, mas discordou com minha opinião que eles não estavam sendo aplicados. Ele me pediu para voltar atrás e dar uma olhada em minhas dúvidas para ter certeza se eram válidas.

Eu passei um curto período sem estudar as literaturas da Sociedade e comecei a confirmar algumas coisas em outras fontes: Internet, bibliotecas, enciclopédias e assim sucessivamente. Eu comecei a notar que algumas coisas não eram tão claras quanto eu havia pensado que fossem, quando comecei a estudar com as Testemunhas de Jeová.

A principio, não vi nenhum problema mais sério, mas enquanto cavava mais fundo, algumas coisas começaram a se salientar. Por exemplo: As Testemunhas dizem que nunca fazem coletas (e ridicularizam a esses que fazem) mas eles dão palestras em que pedem dinheiro. O que eu quis saber foi, qual a diferença? Esse poderia parecer um assunto secundário, mas se fixou em minha mente. Me pareceu um tipo de orgulho injustificado, ou algum padrão "amável" de "superioridade espiritual" que realmente não faz sentido.

Cada dúvida trouxe mais dúvidas. O Manual do Ancião diz que uma família não tem que evitar membros familiares que são desassociados, contanto que não fale sobre doutrina com eles.

Nota do editor: A citação precisa é: "Normalmente, um parente próximo não seria desassociado por associar-se com uma pessoa expulsa a menos que haja associação espiritual ou um esforço efetuado para justificar ou desculpar as atitudes injustas."

Bem, eu vi membros familiares que não conversam com outro membro familiar, embora não esteja no Manual do Ancião. Partiu meu coração ver tão imensa dor infligida, sem nenhuma razão óbvia.

Eu também fiquei irritada pelo método da Organização em evadir-se da culpa por erros. Cada vez que estavam errados sobre algo diziam que estavam recebendo uma nova luz das escrituras. Isto simplesmente não soou bem para mim.

 

 

EU FALO

Quando eu tentei confrontar Sam (um dos anciãos) com minhas dúvidas, ele tentou "corrigir meu pensamento", dizendo que simplesmente faltou compreensão de minha parte. Então, pedi a ele que me explicasse, mas ainda não concordando com ele, me disse que estudasse as literaturas com mais do que a costumeira atenção... Quando isso não adiantou, me disse que eu estava com o problema do orgulho.

Então as coisas pioraram (na visão deles). Eles disseram que eu estava agindo de uma maneira irracional. Este foi, é claro, apenas um insulto, assim sendo, comecei a me afastar da Organização.

 

 

NENHUMA PAZ

Eles quiseram que eu enxergasse os erros a "meu modo", e continuaram me importunando. Eu simplesmente queria ficar em paz. Eles me disseram que eu estava tendo um colapso nervoso.

Quando eu me rebelei contra esta acusação, eles mudaram o curso, com comentários, como, "Nós fomos bons com você, como você pode virar as costas? " ou "Nós fomos seus amigos, como ousa fazer isto conosco?"

Os anciões me ligavam ao longo do dia, e já tarde da noite (como às 11:30 pm, talvez para me pegar quando estivesse em meu ponto mais fraco). Eles me diziam que eu estava muito emocional e que se precisasse de ajuda, estariam ao meu dispor.

Um ancião chamado Tiago, sugeriu que eu viajasse por três semanas, deixando meu marido e filho não Testemunhas, para "reajustar meu pensamento". Não me agradou a idéia de me afastar dos meus amados familiares.

Eu era verbalmente jogada em várias direções: Os anciãos, irmãs e irmãos. Às vezes eu deixava o Salão do Reino chorando e como resultado, um dia me disseram que eu estava trazendo vitupério ao nome de Jeová". Essas palavras rasgaram meu coração. Eu gritei, "Querido Deus", me perdoe pelo que eu fiz a você! " Cheguei em casa chorando tão intensamente que mal consegui enxergar a estrada.

 

 

DESAPONTANDO DEUS

Quando comecei a deixar o telefone tocando e a não atender , eles enviariam irmãs de outra congregação em minha casa, sabendo que eu atenderia a porta. Estas irmãs bem-intencionadas lançaram as mesmas culpas em mim, ora dizendo que estavam sentindo minha falta nas reuniões, ora dizendo que eu estava perdendo os ensinos de Jeová Deus. Mais uma vez caí em lágrimas, porque acreditei que Deus estava me desaprovando pelas reuniões perdidas.

Eu senti um grande desapontamento em tudo que dizia respeito ao sagrado. Tinha vontade de gritar, "eu fracassei, Jeová Deus, o Todo-poderoso! " As visitas de pastoreio dos anciãos estavam me fazendo sentir totalmente inútil. Eu me sentia envergonhada, perdida, e não desejada.

 

 

A DOR

Eu comecei a acreditar que realmente estava tendo um desarranjo mental, da mesma maneira que as irmãs e irmãos tinham proclamado. Minha mente começou a torcer até mesmo coisas sem sentido. Eu fiquei em tal estado mental que eu não conseguia dormir. Eu fui envolvida em ataques de pânico. Em desespero, visitei um médico que quis prescrever pílulas soníferas e tranqüilizantes. Seguramente eu estava me perdendo! Era este o castigo por virar minhas costas para "A Verdade"? eu não soube o que pensar!

O que eu deveria pensar? Talvez houvesse uma lição nisso tudo... 

 

 

ALGO NÃO ACRESCENTADO

Eu cheguei à conclusão que tinha cometido um erro quando Sam, o ancião, começou a assumir o controle de minha vida e a tomar decisões para mim. Eu estava perdendo o controle de minha vida, e de minha família.

Então Sam me disse de um modo muito amigável que eu não era inteligente, e que todo o meu estudo da Bíblia seria inútil sem eles a me guiar. Apesar de meu estado emocional, isto não me soou direito. Eu sou diplomada em faculdade, em vários graus (inclusive contabilidade) e bem respeitada entre amigos como alguém cujas opiniões tem considerado valor.

Assim eu comecei a querer saber, com que autoridade, puderam esses homens, em essência, me chamarem de estúpida. Quem lhes deu o direito para me dizer que não poderia consultar qualquer matéria espiritual senão aquela provida pela Organização?

 

 

UM GRANDE ERRO?

Quando os anciãos começaram a analisar meu marido e a me analisarem, amanheceu lentamente em mim, a noção do grande erro que eu havia cometido ao me envolver com as Testemunhas de Jeová. Eu senti que eles desejam manipular e controlar todos os aspectos de minha vida. Quem sabe onde o "conselho" deles terminaria? Eles selecionariam o carro que eu dirigia, a casa que eu morava, as roupas que eu usava, a comida que eu comia, e o tipo de entretenimento que eu poderia ter? (De fato, eles formularam algumas "recomendações" bem fortes sobre vestir, comer e sobre entretenimento.)

Nos esforços deles para me "ajudar", o ancião Sam, disse algumas coisas terríveis que partiram meu coração. Muitas vezes, depois que ele tinha me telefonado, eu não pude fazer mais nada, senão sentar no chão e chorar, e chorar, e chorar. Então eu rastejava até meu quarto e sentava no chão com a cabeça encostada na cama. Às vezes eu adormecia. Às vezes, eu permaneceria lá, imóvel, por horas a fio, apenas encarando a parede. Eu me perguntava, inúmeras vezes, usaria um verdadeiro amigo "expediente de culpa como estes, e tentaria me manipular desta maneira?"

 

 

UMA SURREALISTA VISITA NOTURNA

Uma noite, às 9:50 pm, dois anciãos vieram à minha casa. Eu os deixei entrar, para que nós, junto com meu marido, pudéssemos solucionar o assunto. Eles me disseram muitas coisas: que tinham sido bons comigo, que quando eu estivesse curada, iria querer voltar. Eu já tinha ouvido tudo isso antes.

Eles continuaram me advertindo que se eu resignasse, a volta ficaria cada vez mais difícil.

Aliviando um pouco, eles me disseram que talvez eu não tivesse recebido o tratamento adequado, porque a congregação estava passando por momentos difíceis: um dos irmãos tinha sido condenado por estupro. Bastante esquisito, esta foi a primeira vez que ouvi falar disto: as irmãs na congregação nunca falaram a respeito...

Continuando com o que eles provavelmente consideraram uma "venda fácil", eles perguntaram se me agradaria dar-lhes uma segunda chance. Porém, não era a segunda ou a terceira chance que eles estavam pedindo: Estava mais para a 20ª chance.

O ancião Sam admitiu então, que ele não deveria ter usado táticas de culpa comigo e que errou ao fazer assim.

As palavras suaves terminaram quando me informaram que se eu saísse, eles já não poderiam ser meus amigos. Eles disseram que eu estaria morta para eles, e que eles me evitariam, embora, por incrível que pareça, eles ainda poderiam ser amigos de meu marido, não-Testemunha. Eles advertiram que isto tornaria as coisas difíceis para mim, possivelmente, até mesmo causando a separação entre marido e mulher.

Eu fiquei impassível com esta informação. Assim, eles me acautelaram que eu estaria morta para Jeová Deus, o Todo-Poderoso.

Eles queriam que eu permanecesse uma Testemunha, até mesmo se não comparecesse às reuniões. Eu poderia até mesmo colocar uma nota na porta,dizendo: "Nenhuma Testemunha de Jeová". Eles disseram que uma vez curada, eu seria bem recebida de volta!

Em resumo, os dois anciões fizeram tudo o que eles poderiam pensar para me convencer a voltar atrás. A visita só durou uma hora, e eles deixaram minha casa às 11:06 pm.

Eu entendo o que os anciãos estavam tentando fazer, e eu sei porque estavam lá. Eu fui uma Testemunha de Jeová, então, eu penso que sei o que continha no coração deles. Mas eu estava determinada a trazer o assunto à uma conclusão. Porém, tentar evitar completamente tais situações, ou as pessoas, pode ser impossível, desde que essas pessoas estão determinadas para a "perseguir" até que você "endireite seus pensamentos" (Na visão deles).

 

 

UMA LIÇÃO NA DOR

Em meio a tudo isso, eu chorei, e clamei: Eu estava me sentindo perdida, e inútil. Eu me desvalorizei, para minha família e para meu filho.

Mas eu também estava cautelosa. Eu tinha aprendido algo muito importante. Eu percebi que deveria ter muito cuidado para não pedir ajuda de alguém que realmente não me ajudaria, ou me ajudaria de um modo que não seria realmente para meu beneficio.

Bem francamente, esta experiência me fez asperamente cética. Eu não confiei em ninguém. Fiquei de tal forma que não quis falar com ninguém que me conheceu. Eu tinha que obter ajuda de alguém que me ajudaria de fato e não tentaria me salvar (de acordo com sua agenda do dia).

Eu decidi que iria enviar um e-mail para um camarada chamado Bill, alguém que eu sabia que tinha suportado uma situação semelhante, e talvez lhe fazer uma pergunta. Eu só conhecia o Bill pela Internet, assim eu não estava segura que fosse alguém de confiança. Mas que mal poderia vir de alguns e-mails?

 

 

INFERNO NA TERRA

A vida estava ficando insuportável. Eu chorava por horas a fio. Eu sofria ataques de pânico severos, que não podia sair de casa. Você sabe como é um ataque de pânico? Você sente como se não pudesse respirar. Seu coração dispara. Você se sente seguro que está a ponto de morrer. Cada segundo parece durar horas. Posso apenas imaginar poucos sentimentos piores que um ataque de pânico.

As Testemunhas dizem que não há Inferno, e eu gostaria de acreditar nisso. Mas ataques de pânico são o inferno em terra, e eu estava sofrendo em um inferno trazido pelos anciãos, e irmãos e irmãs bem-intencionadas. Eu estou segura que eles me querem bem, e não gostariam que eu sofresse, mas o "amor" deles me conduziram a uma cova ardente de desespero.

 

 

UM PORTO BEM VINDO NA TEMPESTADE

Bill, que se tornou alguém querido ao meu coração, me ajudou, me encorajou, e me deu a força para pensar por mim mesma. Bill sempre estava lá, a apenas um e-mail. Eu guardei cada e-mail, assim eu posso olhar atrás para a bondade que foi demonstrada a mim.

O Bill sempre foi honesto comigo, enquanto contando onde ele falhou, ou o que não funcionou para ele, ou por causa do tipo de pessoa que era, não pode reagir de determinada forma.

Eu já não sentia só em meu sofrimento, minha luta. O Bill me aconselhou quando perguntei, e nunca forçou as opiniões ou crenças dele em mim. Ele não me perseguiu com e-mails ou tentou me converter.

Ele me disse para que pensasse por mim mesma, o que provavelmente é uma das maiores dificuldades dos que saem. Bill simplesmente me encorajou, às vezes me sentia como se ele chorasse comigo, porque ele sabia da dor que eu estava sentindo. Ele me contou que tinha estado no mesmo "lugar", e sabia de quão intensa a dor pode ser. Bill sempre será um amigo especial para mim.

 

 

CONCLUSÃO

Após oito anos na Organização, eu submeti minha resignação, em Agosto de 1999. Os anciãos tentaram evitar minha decisão e a princípio não levaram a serio. Levou até 23 de Novembro de 1999 até que os anciãos aceitassem aquela carta de resignação. Durante o ínterim, eles ainda tentaram que eu mudasse minha mente continuamente (me dizendo que eu era por demais emocional, enquanto não confiando em Deus, etc.)

Agora, eu olho para atrás e espero que esta experiência não seja repetida em minha vida! As Testemunhas de Jeová me feriram profundamente. Talvez algum dia eu possa "zerar o placar" em meu coração e este sentimento possa ir embora. Como diz aquele provérbio, "Deve-se perdoar e esquecer". A recordação da dor está fresca em minha mente, enquanto escrevo isto, mas a vida prossegue.

Se você tem dúvidas sobre ser uma Testemunha de Jeová, procure em seu coração e mente, e confira o material externo. E quando você estiver pronto, procure por ajuda de fora. A ajuda está lá. Eu virei à Internet de cabeça para baixo, (embora com muita precaução) e achei o apoio e informação de que precisei para escapar das paredes da Sociedade Torre de Vigia.

 

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