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"Minha História – 10 Anos nos Pátios da Torre de Vigia

Artigo de N.R.P.

 

Estamos no agitado e truculento ano de 2001, o ano do atentado terrorista ao World Trade Center. Foi nesse ano que resolvi entregar minha carta de dissociação ao Corpo de Anciãos da congregação que eu freqüentei por dez anos com minha família.

 

O Começo de Tudo

 

Minha história começou quando ingenuamente aceitamos estudar a Bíblia com as Testemunhas de Jeová. Na verdade, meu marido e eu não tínhamos nenhuma religião porque não acreditávamos nelas. Não éramos idólatras, nem tínhamos vícios — presas perfeitas para essa comunidade.

 

Enfim nos batizamos juntos e iniciamos com toda alegria e fervor nossa carreira "teocrática".

 

Regras e Imposições sem Base Bíblica

 

Para sermos aceitos no grupo, temos de aceitar a imposição de questões que biblicamente ficariam a cargo da consciência de cada um: o comprimento da saia era de 8 dedos abaixo do joelho — questão que as "queridas" irmãs frisavam com orgulho; esmaltes coloridos, pasmem, eram "hábitos de Jezabel"; cabelos curtos ou com tonalidades marcantes eram "pedras de tropeço", e assim por diante.

 

Entramos no ritmo. Parecíamos pessoas saídas da mesma forma, como que produzidas em série.

 

A pobre da minha filha com apenas 12 anos batizou-se, é claro, com o apoio fervoroso dos pais e da congregação. Até que comecei a me interessar por livros de psicologia, e notei que eu mascarava minha real personalidade. Foi então que aboli aquelas roupas conservadoras e passei a me vestir de forma mais despojada, sem ser deselegante ou imoral, afinal de contas, caráter não se aprende com religião. Eu já tinha cabelos razoavelmente curtos com a nuca batida, mas o escândalo se deu quando decidi simplesmente cortar um pouco mais, afinal de contas, meu marido e meus filhos aprovaram, e o principal: eu gosto!

 

Às escondidas e sem entrar em contato com meu marido que na época já era Servo Ministerial, retiraram meus privilégios na Escola do Ministério Teocrático.

 

Fiquei muitos meses sem fazer o que mais gostava: as partes na Escola do Ministério Teocrático. Bem, achamos que, pelo fato de haver duas congregações se reunindo, as partes se tornariam mais esporádicas...; santa ingenuidade! Fomos realmente notar o real motivo depois que um ancião em "Necessidades Locais", frisou uma revista "A Sentinela" de 1963 (ou 66?) que tanto os homens como as mulheres cristãs deveriam seguir o tamanho determinado do comprimento dos cabelos. Eu queria morrer de tanta vergonha! As "queridas" irmãs começaram a passar a mão nas vastas cabeleiras para ver se o comprimento "batia" com o que fora falado na tribuna. Ao final da reunião, saí às pressas. Foi uma sensação horrível que eu nunca havia sentido em outro lugar na minha vida!

 

Liguei para o ancião e perguntei em que base bíblica ele havia dito tal coisa. Tudo com educação, é claro! Ele, rispidamente disse que eu não tinha direito de questioná-lo e que tudo o que fora dito era mesmo para mim.

 

Reuni um material e com muita calma e educação provei a eles que agiram indevidamente, afinal de contas eu não estava causando problemas a ninguém. Na época, eu tinha 5 estudos bíblicos e 3 "estudantes" minhas freqüentavam as reuniões. Meu marido deixou claro que gostava de mim da maneira que eu sou, alegre, vaidosa, franca e com os cabelinhos curtos (risos). Eu queria apenas o respeito que cabe à mulher cristã que tem "valor aos olhos de Deus" (1 Pedro 3:3,4)!

 

Retaliações

 

Depois de várias reuniões, o superintendente veio até minha casa e me garantiu que meus privilégios me seriam devolvidos, que eu deveria esquecer tudo isso e passar uma borracha, afinal de contas a tal da IMPERFEIÇÃO reinava lá dentro.

 

Feliz da vida, achei que tudo estava resolvido. Mero engano! Depois disso, eles nos congelaram espiritualmente; partes, apresentações, orações, etc, foram negados à minha família.

 

Um dia, convidaram todos os jovens e até crianças para relatarem experiências da escola e somente minha filha e dois "jovens-problemas" ficaram de fora. Até hoje, eu escuto a voz dela me perguntando naquela ocasião: "Mãe, o que foi que nós fizemos? O que foi que EU fiz?" Comecei a notar que eu era "carta marcada"; falei demais e o preço estava sendo cobrado.

 

Aos poucos fomos "morrendo espiritualmente" e nas parcas visitas de pastoreio eu desabafava e, na semana seguinte, recebia uma "apresentação" e depois, nada mais. Meu marido era um bom orador, uma pessoa super-amorosa, calmo, sincero mas o seu erro fora apoiar uma suposta REBELDE, SUA PRÓPRIA ESPOSA!

 

Nos últimos 3 anos em que estivemos na organização, fomos definhando "espiritualmente". Minha filha, hoje com l8 anos de idade, mudou bastante. Antes ingênua e até bobinha, tornou-se desconfiada e com grande dificuldade de acreditar nas pessoas. Criamos uma sebe onde só entravam os a quem podíamos confiar. Tornamo-nos, com o tempo, frias e agressivas quando provocadas. Ganhei de brinde uma doença chamada FIBROMIALGIA, ou seja, reumatismo muscular e sofri por 2 anos de dores terríveis nas pernas, nos braços e ombros. A causa? Segundo o médico, era "algo de fundo emocional, devido algum trauma psicológico", e esse em meu caso, era a REJEIÇÃO sofrida na organização. Acrescentando a tudo isso, nessa época eu havia descoberto que era filha adotiva. Imagine o leitor como ficou minha cabeça...

 

A rejeição da congregação continuou até chegar ao ponto de nos últimos meses do ano de 2001, minha filha e eu não sermos convidadas para mais nada, nem mesmo um estudo bíblico, nem revisitas; nenhum telefonema, nada. Éramos como pessoas estranhas, leprosas espirituais. Pedi ajuda. Disse que estávamos "morrendo espiritualmente", que aceitaríamos qualquer coisa — convites para revisitas, para estudos...; mas, nada. Começamos a faltar às reuniões, estudos de livros, porém, em nenhum momento, sim, em nenhuma situação, essa gente nos viu com olheiras, desarrumadas, cabisbaixas, como eles gostam de ver quem está "se afastando da organização". Não. Eu e minha filha somos muito vaidosas, admiramos o belo, a elegância discreta que mulheres tais como Jackie K. Onassis souberam demonstrar.

 

Sempre amamos a Jeová e por isso, apesar de ter visto certas coisas com as quais não concordávamos, aceitávamos porque achávamos que nós é que éramos o problema, pois demonstrávamos rebeldia, encarada como "fraqueza na fé". Onde já se viu questionar o uso dos "Relatórios" mensais, ou o porquê dessas malditas "horas" de campo e de estudo, ou o poder da hierarquia eclesiástica e o "escravo fiel e discreto" que recebe o alimento..., mas de que forma?! Por mensagens ou por telepatia? Aniversários? Etc.

 

Descobertas e Impasses

 

Até que um dia, eu me sentei diante de meu computador e decidi ver os sites dos "demônios", dos "renegados", dos "apóstatas" que "falam mal de Jeová", etc. Quando comecei a ler o que escreviam...

 

Depois de tudo que descobri, pedi minha dissociação. Minha filha e meu filho (11 anos de idade) nunca mais quiseram voltar ali. Meu marido e minha filha se dissociaram no dia 25 de outubro de 2001. Meu marido ficou muito dividido no começo e demorou um pouco mais para acordar do "transe" que para mim durou 10 anos. Ele era muito dedicado à organização e não conseguiu facilmente separar a adoração a Jeová da adoração à organização e por vezes se sentiu incomodado com minha alegria e a alegria de meus filhos longe da organização antes dele mesmo resolver sair definitivamente. Mas graças a Deus nossa família está livre. Estamos em paz e felizes!

 

Aqueles dias que antecederam nossa saída definitiva foram muito difíceis para nós, como família.

 

Minha filha não queria entregar a carta de dissociação porque ela dizia que não importava se algum dia fosse desassociada; para ela a organização não merecia satisfação alguma. Quanto a mim, até hoje não sei se foi dado o anúncio da minha dissociação, mas isso também não me interessa mais.

 

Conclusão

 

É engraçado! Olhando para atrás, parece que tudo foi um pesadelo. Sinto uma sensação de vácuo e a impressão de que não vivi 10 anos ali dentro pois as pessoas dali me parecem apenas estranhas, e no momento em que relato minha experiência de envolvimento com a Torre, ainda lamento muito essa terrível falta de educação, de ética e de amor delas para com todos os que dali resolvem sair. Como podem pessoas que anteriormente freqüentavam nossa casa, diziam-se nossos "irmãos na fé", "companheiros leais, dispostos a dar a vida por nós...", virar-nos o rosto agora? Tenho pena por são produtos da alienação humana; não possuem consciência ou vida própria; são teleguiadas por homens miseráveis. O filme "Matrix" mostra esse tipo de dominação mental e a retrata fielmente: as pessoas nessa ficção são tão judiadas pelo sistema que NÃO estão preparadas para serem "desligadas", e algumas jamais serão! Se você ainda não assistiu à esse filme, então reserve um tempo e assista. Nossa vida mudou para melhor. Continuamos delineando nosso caráter e nossa moral nos caminhos de Deus, felizes e sem medo de desagradar pessoas pelo que somos e pensamos.

 

Esperamos sinceramente que mais e mais pessoas se libertem dos grilhões da organização e possam descobrir a liberdade de que Cristo falou em João 8:31,32.


 

O livro bíblico de Deuteronômio no capítulo 11, versículos 18-21, nos lembra apropriadamente:

 

"E estas minhas palavras tendes de fixar no vosso coração e na vossa alma, e atá-las como sinal sobre vossa mão, e elas têm de servir de frontal entre os vossos olhos. Também, tendes de ensiná-las aos vossos filhos, falando delas sentado na tua casa e andando pela estrada, e ao deitar-te e ao levantar-te. E tens de escrevê-las sobre as ombreiras da tua casa nos teus portões, para que sejam muitos os vossos dias e os dias de vossos filhos sobre o solo de que Jeová jurou aos vossos antepassados que lhes havia de dar, como os dias dos céus sobre a terra".


 

 

 

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