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"Minha Vida 'na Verdade' e depois Dela"

Artigo de Sandra Sílvia

 

Quando Tudo Começou

 

Vou começar minha história pelo começo...

 

Nasci "na verdade" e assim fui criada até mais ou menos meus 16 anos.

 

Foi uma infância difícil, pois meu pai não era TJ; era alcoólatra e cresci no meio de brigas, discussões por causa do modo como ele falava da "maldita religião"; era assim que ele tratava a religião de minha mãe.

 

Em casa um sofrimento, na escola outro; sentia-me um E.T., um ser diferente das outras crianças.

 

Já na adolescência, começaram os questionamentos, queria saber o porquê de não poder certas coisas, como dançar e fazer passeios com os grupos da escola, etc...

 

A resposta era sempre a mesma: "Más associações estragam hábitos úteis".

 

Como na minha cidade, na época, só havia uma congregação, e quase não havia jovens, costumávamos visitar as congregações das cidades vizinhas para poder nos associar com outros jovens. Costumávamos nos juntar depois das reuniões para fazer um lanche, conversar, ouvir músicas e às vezes, "dançar" – tudo entre "irmãos". Mas até isso depois nos foi proibido, pois os anciãos achavam que nosso comportamento era "mundano".

 

A Revolta

 

Eu era jovem, queria usufruir minha adolescência, queria ser uma jovem normal, mas isso não era permitido para uma TJ.

 

Começei a namorar um rapaz TJ, mas ele era muito jovem e minha mãe não permitiu o namoro. Como dentro da organização não se podia quase NADA, começei a me afastar, e como dizia minha mãe "a seguir os passos do mundo".

 

A Desassociação

 

Fui desassociada porque cometi "fornicação", fiquei grávida e não me casei.

 

Quando fui convocada pela Comissão Judicativa, estava sinceramente arrependida, mas isso não foi levado em conta; ninguém me perguntou porque aquilo havia acontecido, ninguém questionou meus sentimentos, ninguém perguntou como aconteceu, porque aconteceu...; houve só uma avalanche de acusações.

 

Fui acusada por coisas que nunca havia feito, por coisas que a gente não tem culpa (um ancião chegou a dizer que eu havia pecado porque eu estava sempre bem arrumada e maquiada).

 

Mas o que mais me magoou, me machucou, foi o fato de eles terem acusado minha mãe, que estava presente à reunião. Disseram que ela era culpada pelo "meu erro". Mesmo assim, passado algum tempo depois que meu filho nasceu, voltei a freqüentar as reuniões. Mais sofrimentos...! Mas eu estava arrependida e queria voltar, e queria criar meu filho "na verdade"; não queria ter "culpa de sangue".

 

Minha Crise de Consciência

 

Quando fui para o hospital para dar luz, minha mãe estava junto comigo. Tive problemas no parto e uma hemorragia na qual perdi muito sangue. O médico pediu autorização a minha mãe para fazer uma transfusão e solicitou que ela chamasse os familiares para saber se alguém poderia ser doador, visto que meu tipo sangue era negativo. Mas ela não autorizou a transfusão (e também não avisou ninguém), mesmo com o médico lhe dizendo que sem transfusão eu morreria.

 

Como eu estava inconsciente, o médico fez a transfusão contra a vontade de minha mãe. Acho que graças a ele, hoje estou viva. Mas carreguei a culpa por ter recebido sangue durante muitos anos.

 

Meu Pedido de Readmissão e o Momento da Decisão

 

Após mais ou menos 1 ano depois que meu filho nasceu e eu ter voltado a assistir às reuniões regularmente, e também ter uma boa conduta de acordo com as normas da organização, resolvi pedir minha readmissão. Escrevi uma carta à comissão e fiquei aguardando uma resposta – resposta esta que nunca vinha.

 

Minha vida foi virada de ponta-cabeça e "monitorada". Certos irmãos me seguiam na rua para ver aonde eu ia e com quem eu conversava. Sentia-me como se fosse uma criminosa sendo investigada pela polícia.

 

Daí então comecei a perceber a diferença no tratamento dado aos que eram desassociados, pois eu tinha uma amiga que tinha sido desassociada quase na mesma época e pelo mesmo motivo, com a diferença de que ela havia se casado e eu não, e ela foi readmitida alguns meses depois que o filho nasceu.

 

Ficava muito triste pois tinha perdido todos os meus amigos, pessoas que me eram muito queridas; queria muito ser readmitida para poder conviver com aqueles que me eram estimados, que eu julgava meus verdadeiros amigos e irmãos.

 

Quanta tristeza, quantas lágrimas! Ver as pessoas que eu amava sinceramente, virando o rosto, muitas vezes dentro de meu próprio lar!

 

Quantas vezes eu me recolhia em meu quarto quando chegava algum irmão para almoçar ou jantar em minha casa...! Esperava até eles irem embora para depois ir comer, com medo de constrangê-los com minha presença. Quantas vezes ouvi minha mãe me dizer que muitos dos irmãos não vinham a nossa casa por minha causa...! Quanta, quanta Dor!

 

Fiquei com uma ferida enorme no coração, que só aumentava com a demora da resposta ao meu pedido de readmissão. Comecei a perder as esperanças; começaram a aparecer as dúvidas e comecei a questionar "a verdade".

 

Como poderia um Deus que era chamado de "Pai Amoroso", infligir tanto sofrimento? Depois compreendi que não era nosso Pai, mas sim aqueles que diziam seguir os ensinamentos Dele.

 

Passei então a desacreditar em tudo, e a me afastar novamente.

 

Até que um dia, voltando de um congresso, um irmão de uma congregação vizinha perguntou porque eu ainda não tinha pedido minha readmissão, visto que eu continuava a freqüentar as reuniões e os congressos. Expliquei a ele que eu já havia feito isso mas não havia obtido qualquer resposta. Ele então levou o caso ao Superintendente de Circuito e, após alguns meses, fui finalmente readmitida. Para minha surpresa, vieram mais sofrimentos, pois mesmo depois de ser readmitida, muitos irmãos evitavam conversar comigo. Eu era excluída de programas e passeios feitos pelos irmãos, e era discriminada por ser mãe-solteira.

 

Mais uma vez, comecei a me questionar se realmente aquela era a religião verdadeira, e fui me afastando cada vez mais, mas desta vez também me afastei de minha família e ficava a maior parte do tempo no trabalho e na escola, pois tinha voltado a estudar. Como dizia minha mãe, voltei a "fazer parte do mundo".

 

Fui mais uma vez desassociada! Só que desta vez resolvi que iria agir diferente: não abaixaria mais minha cabeça quando encontrasse um "irmão" na rua e também não iria mais me esconder quando algum deles fosse à minha casa - se eles não quisessem minha presença, que não viessem!

 

Desde que fui desassociada pela segunda vez, tive muitas brigas com minha família por causa da organização, pois morava com minha mãe que é TJ... até hoje. Ela ficou até sem conversar comigo seguindo o conselho da organização. Até que um dia, eu a chamei para uma conversa séria e expliquei que não pretendia mais voltar para a organização, que Jeová nos tinha dado o livre arbítrio, e que eu não tinha deixado de ser filha dela e que eu, mesmo que ela não me aceitasse, continuaria a amá-la. Ela ficou meio chateada por uns dias e acabou voltando a falar comigo. Com o passar do tempo e lentamente, as coisas foram se restabelecendo. Hoje nos damos bem e ela me trata com carinho novamente.

 

Nunca deixei de acreditar em Deus, mas resolvi que não preciso mais de uma religião para seguir os ensinamentos Dele. Acredito que Ele é o Criador do Universo e um Deus que criou tantas coisas maravilhosas e que nos deu a vida, é um Pai muito Amoroso. (Atos 17:22-31)

 

O Presente e o Futuro

 

Sei que existem muitas controvérsias se a Bíblia é realmente toda inspirada por Deus, mas resolvi que vou guardar e aplicar as coisas boas que me foram ensinadas. Também resolvi viver em paz com minha consciência, sem ficar me culpando. Se estou agindo certo ou errada, não é nenhum homem que vai me julgar.

 

Decidi viver minha vida nesta terra sem achar que devo julgar como será o futuro. Seja como Deus decidir. Resolvi fazer aqui o meu paraíso, junto de minha família e amigos.

 

Hoje é que estou descobrindo quanta sujeira existe lá dentro, quantas mentiras e quanta falsidade! Eles que dizem pregar "a verdade", quantas mentiras estão a divulgar!

 

Tenho pena das pessoas inocentes que estão lá dentro pois não fazem idéia, assim como eu não fazia quando não tinha acesso às informações que agora tenho. Mas é muito difícil tentar ajudá-las pois elas estão surdas e cegas pela organização.

 

Só me resta hoje lamentar por tanto tempo perdido e viver do melhor modo os dias pela frente, seguindo a sabedoria não de homens mas do Deus que nos insta em Sua Palavra, a Bíblia:

 

"A sabedoria de cima é primeiramente casta, depois pacífica, razoável, pronta para obedecer, CHEIA DE MISERICÓRDIA E DE BONS FRUTOS, SEM PARCIALIDADE, SEM HIPOCRISIA. Além disso, o fruto da justiça tem a sua semente semeada sob condições pacíficas para os que fazem paz." (Tiago 3:17,18)


 

 

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