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"Universo Cor de Rosa"

Artigo de Rosy

 

Submissão à Organização

 

"E foram felizes para sempre..." Assim terminam as estórias com final feliz. Elas quase sempre transmitem ao leitor a perspectiva de que seus protagonistas viverão num universo cor de rosa daquele ponto em diante. Mas exatamente onde elas terminam é que se iniciam as experiências da vida real. Aos 12 anos de idade, eu acreditava que iria ser "feliz para sempre" também, pois acabava de me batizar como Testemunha de Jeová e agora pertencia à "organização de Deus". Como podia uma menininha dessa idade, morando no interior do estado do Ceará, discernir que ser "feliz para sempre" teria de ser algo mais que batizar-se como membro da Torre de Vigia? Como podia uma criança estar consciente de que o mundo não possuía tons rosas? Para entender do que estou falando, deixe-me contar-lhe um pouco de minha história...

 

Sempre fui uma pessoa temente a Deus, e como tal, desde criança, ficava procurando o verdadeiro caminho que levava a Deus. Foi quando uma tia querida encontrou um tal tesouro escondido, algo que logo ficou conhecido como "a verdade". Ansiosa para dividir essa "verdade" conosco, ela a levou para o seio de minha família. Conclusão: todos nós achamos ter finalmente descoberto "A Verdade que Conduz à Vida Eterna" (título do livro que passamos a estudar). E desse modo começou minha jornada pelas trilhas espinhosas de uma organização religiosa que se designava a única guardiã da verdade suprema.

 

Batizei-me como Testemunha de Jeová aos 12 anos e sempre fui um exemplo na congregação, embora minha adolescência tenha sido encastelada na Torre de Vigia e assim sendo, não me lembro de ter sido favorecida com a mínima liberdade, nem sequer podendo ir a algum lugar sem que me sentisse completamente vigiada. Isso fez com que "o primor de minha mocidade" tenha sido marcado por frustrações e alienação. Para contribuir com esse quadro, havia uma "pioneira especial" em minha cidadezinha que era um verdadeiro coronel carrasco. Recordo de muitas vezes ela ter me forçado a voltar do "serviço de campo" (visitas de porta em porta) por julgar que eu estava usando uma saia acima do joelho, e isso era "mau testemunho". Também, ela literalmente me proibia de voltar da escola conversando com "amigas do mundo". Não conto as vezes em que ela correu para contar à minha mãe que eu estava assistindo às "novelas mundanas" de televisão. E quando íamos a um açude, eu tinha de vestir uma bermuda até os joelhos para que, novamente, eu não desse "mau exemplo". Não me surpreende que eu tenha presenciado vários primos meus serem desassociados, todos com idade de 15 a 18 anos, simplesmente porque não suportaram o "coronelismo" reinante em nossa congregação. Mas não parava por aí...

 

Para o leitor ter idéia do cúmulo a que se chegou, testemunhei minha irmã, aos 13 anos de idade, tentar o suicídio fustigada pela adesão de minha mãe aos amorosos "conselhos" da organização sobre evitar "associação mundana" e pelas investidas dessa pioneira que fazia esses conselhos virarem regras rígidas. Bem, aconteceu que, certa noitinha, minha irmã resolveu ir a um clube para participar de uma festinha promovida pelo colégio dela. Minha mãe e a dita pioneira "especial" tão logo souberem, correram desesperadamente para ir buscá-la. Ao chegarem no local, na frente de todos os amiguinhos de minha irmã e de outras pessoas, minha mãe administrou uma surra vergonhosa em minha irmã, em pleno salão de festas. Após esse vexame terrível, que para uma adolescente pode ter um impacto inimaginável, minha pobre irmã tentou acabar com a própria vida.

 

Quando lembro desse dia, tenho certeza de que minha mãe só fez aquilo por causa do ensino sobre os perigos do "mundo iníquo de satanás, o diabo". Esse tipo de "conhecimento" muitas vezes traz constrangimentos a membros jovens das famílias Testemunhas de Jeová como, por exemplo, não cantar "Parabéns a você" quando outros o fazem e a TJ fica parada com cara de boba na frente dos outros. Os garotos e garotas TJs são, para o mundo, pessoas "esquisitas" mas a organização diz que elas são apenas "diferentes". A organização usa e abusa do texto de João 15:18,19 ("não fazer parte do mundo") para desaconselhar e até proibir aniversários natalícios, festinhas com os "do mundo", amizades ou "associações mundanas", etc.

 

Ingressei no serviço de "pioneira regular" aos 15 anos de idade seguindo aquilo que a organização recomendava como "o melhor modo de vida para os jovens" de minha idade. Aos 16 anos, tendo concluído o ensino médio (2o grau), cheguei a cogitar uma carreira ou curso universitário, mas como a organização desincentivava muito a faculdade, continuei o alvo de manter meu ritmo no "serviço sagrado" como pioneira. Eu era muito zelosa, chegando a "colocar" (=vender) mais de 400 publicações num único mês e dirigir 20 estudos "bíblicos" domiciliares.

 

Mais tarde, aos 23 anos, casei-me com um homem que foi meu primeiro e único namorado, L. B. Ele era "pioneiro regular" e sendo deficiente auditivo (embora fale normalmente), estava decidido a ajudar pessoas com essa limitação a aprender sobre as "verdades de Deus". Logo depois de nosso casamento, houve um Congresso de Distrito, e resolvemos participar de uma reunião especial para pessoas interessadas em ir trabalhar no lar de Betel em Cesário Lange, SP. O dirigente dessa reunião fez uma declaração que nos deixou chocados: "não é interessante que alguém que não tenha nível superior (3o. grau), assista à essa reunião." Aquilo nos soou como uma contradição e ofensa. No entanto, éramos pessoas treinadas para respeitar as decisões "teocráticas" e eu, em minha condição de mulher cristã, teria de mostrar um espírito ainda mais submisso ficando calada sobre o assunto.

 

Insegura mas Acomodada

 

Essas coisas e tantas outras, muitas vezes me faziam questionar sobre como seria viver fora da organização, talvez porque alimentasse em meu íntimo, muitas dúvidas, não aceitando certas doutrinas e ensinamentos como o da classe dos 144 mil, ou o de um Corpo Governante central, ou a Geração de 1914 (mudado em 1995), etc, ou mesmo essas contradições da organização que tínhamos de aceitar de qualquer jeito.

 

Criada sem "fazer parte do mundo" e com a visão de que apenas as Testemunhas eram o "povo feliz de Jeová", a vida foi passando rapidamente por mim. Sentia-me incomodada com a situação de estar aprisionada num "aprisco especial", pois observava as incoerências que não podiam caracterizar as Testemunhas de Jeová como "povo escolhido", singular. Éramos nós assim tão diferentes de outras pessoas de religiões da mesma "espécie" que a nossa (Adventistas, Mórmons, Batistas, etc)?

 

Meu marido, por outro lado, fazia tudo para "adorar a Deus com espírito e verdade", principalmente por mostrar amor aos deficientes auditivos e ajudá-los a aprender "a verdade", conforme encarávamos o pacote de ensinos da Torre de Vigia. Mas havia problemas que vinham como avalanches destruidoras que levavam tudo à sua frente. Meu marido, por ser uma pessoa muito sincera, cobrava e falava das coisas erradas que os anciãos (poderosos) não gostavam de ouvir. Começamos a ver além do que queriam que víssemos. Porém, mesmo diante desses problemas com homens de destaque da congregação, meu marido continuava muito empenhado em levar "a verdade" a muitos surdos que continuavam a tomar posição a favor dos ensinos da Torre de Vigia.

 

A Hora do Pesadelo II

 

Meu marido e eu estabelecemos o "alvo excelente" delineado pela organização para seus adeptos fiéis: abandonamos os empenhos por coisas materiais a fim de "servir melhor onde houvesse mais necessidade." Numa conversa familiar, resolvemos que meu marido abandonaria o emprego secular para investir todo seu tempo, esforço e recursos financeiros na pregação aos surdos visto que ele era um perito na linguagem de sinais e a obra com os deficientes auditivos era momentosa.

 

Na época, o que eu ganhava em meu trabalho secular dava para sustentar a mim e a mais 3 pessoas que passaram a morar conosco com o propósito de ajudar os novos interessados "na verdade" e que pertenciam ao crescente grupo de deficientes auditivos. A coisa começou a tomar proporções cada vez maiores a ponto da Sociedade Torre de Vigia enviar um pioneiro para cuidar especificamente da obra para surdos numa cidade vizinha à nossa.

 

Esse senhor não conseguiu, durante 3 meses, abrir "estudos bíblicos" suficientes para começar uma congregação. Recorrendo a um "amoroso" superintendente de circuito, ele tentou fazer com que todos os grupos dos quais meu marido cuidava, fossem transferidos para assistir às reuniões na cidadezinha dele. Se isso fosse aceito, significaria que teríamos de pegar 4 ônibus a cada reunião. Meu marido fincou o pé e não aceitou que isso fosse deliberado assim, pois aquelas pessoas já tinham de lidar com a deficiência auditiva. Avisou ao pioneiro e ao "super" que eles não iriam aderir ao arranjo e que isso era uma decisão unânime. Imagine o leitor o que tal atitude provocou! Suscitou grande ira no pioneiro e no Superintendente responsável, fazendo com que eles se sentissem justificados a juntar provas falsas de "rebeldia" e "insurreição" por parte de meu marido aos "arranjos teocráticos". Na época em que eles divulgaram isso, meu marido estava doente e havia viajado para cuidar de um sério problema de pneumonia, adquirida devido ao intenso frio daquela cidade onde desenvolvíamos o trabalho com os deficientes auditivos.

 

Mas o negócio não parou por aí. Mais tarde, seríamos surpreendidos pelas represálias daqueles homens da organização. Saberíamos então o que significava desagradar homens poderosos e de destaque dessa organização. Sentiríamos toda a carga da autoridade que essa organização opressiva lhes concedia. Acredite se quiser, mas esses homens covardemente desassociaram meu marido à revelia enquanto ele ainda estava viajando. A ele, nem mesmo foi dada a chance de comparecer a uma audiência judicativa para se defender. Tal coisa foi feita tão rapidamente e de modo tão frio e sem amor que para nós, na época, tudo parecia um grande pesadelo!

 

O Dia Seguinte

 

Como imagina o leitor que estou agora? Como ficou tudo aquilo que aprendi sobre amor ao próximo, sinal identificador do verdadeiro cristianismo? Ora, não suportei tanta falsidade! Como fui vítima de tudo isso, resolvi me afastar dessa religião. Retornei para nossa cidade onde meu marido já estava se tratando. Infelizmente, tive de deixar o emprego secular que me dava melhores condições. Isso resultou em maiores dificuldades em sobreviver ao "dia seguinte" do pesadelo. Mas embora a luta hoje seja muito árdua, estou contente de não estar mais nas garras de uma organização arrogante que se julga no direito de expulsar seus membros através de homens pretensiosos que a representam tão bem.

 

Temos um filhinho. Ele estava muito traumatizado pela vida que levava quando éramos ainda parte da organização. Uma pioneira que ficava com ele enquanto meu marido e eu trabalhávamos, trancava as portas e batia severamente nele. Nessa época ele tinha apenas 6 aninhos de idade e chegou a precisar de terapia por causa dos maus tratos sofridos. Hoje ele está melhorzinho e nos preocupamos em lhe dar todo o carinho de que um filho precisa.

 

Quanto ao meu serviço secular, tive de descer o padrão de vida pois com a mudança para essa cidade ganho apenas um terço do que ganhava na anterior.

 

Quanto a mim, às vezes penso que sou uma sobra de vida de um universo de fantasias, cor de rosa. O que essa organização me fez por meio de seus representantes foi muito doloroso; abriu uma ferida profunda que não irá cicatrizar rapidamente. Vivo para cuidar de nosso filho. Meu marido e eu estamos fazendo faculdade. Começamos em fevereiro de 2002. É uma tentativa de juntarmos os cacos, começando tudo do zero.

 

Jamais serei aquela menina crédula que um dia, aos 12 anos de idade mergulhou no universo róseo idealizado pela organização das Testemunhas de Jeová.

 

Às vezes sinto uma sensação estranha como se eu estivesse estado sentada numa cadeira de rodas por muito tempo e que meus músculos, agora atrofiados, não me permitem caminhar normalmente.

 

Para mim, meu cérebro foi fritado e não consigo mais crer em muita coisa. Estou na luta para recuperar minha fé nas coisas de Deus sem ter de ir a uma organização religiosa. Uma das coisas que mais desejo no momento é apenas sobreviver, já que 21 anos de minha vida foram jogados pela janela daquele mundo enganoso. Tenho meu marido e filho que precisam muito de mim e eu deles. Eles são as pessoas que me mantêm viva e com forças para continuar pela longa jornada da vida.

 

Estou escrevendo minha experiência no mês de março de 2002 e ainda estou na organização pois não fui dissociada nem desassociada. Estou afastada. Não mais freqüento as reuniões porque não mais creio que a organização seja "o canal de comunicação de Deus". Em breve terei de tornar conhecida essa minha posição aos membros de minha família que ainda estão lá e às Testemunhas de Jeová que me conhecem.

 

Tenho certeza de que jamais aceitarei o modo em como tudo foi feito conosco pela organização que se diz de Deus. Não desejo o mal para ninguém dali (Romanos 12:17-21) e o que mais quero hoje em dia é ter saúde e vigor para continuar de cabeça erguida, vencendo todas as dificuldades que ainda poderemos enfrentar em nossas vidas.

 

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