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TRANSFUSÕES DE SANGUE - CRONOLOGIA DO ABSURDO

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A abstinência de carne bovina caracteriza o hinduísmo; a abstinência de carne suína caracteriza o judaísmo; a abstinência de transfusões de sangue ou derivados caracteriza as Testemunhas de Jeová. Se há, por assim dizer, uma 'marca registrada' - uma coisa pela qual as Testemunhas de Jeová sejam mundialmente conhecidas e, ao mesmo tempo, impopulares - esta tem der a sua exótica política contra o uso medicinal do sangue. Todavia, nem sempre foi assim. Na verdade, a maioria esmagadora das Testemunhas de Jeová em nossos dias não faz a mínima idéia de qual era a postura de sua 'mãe espiritual' - a Sociedade Torre de Vigia - até o início dos anos 40. A primeira menção sobre o tema foi feita ainda no século 19, porém com uma visão totalmente diferente daquela sustentada pelas Testemunhas de Jeová há mais de 50 anos. Trata-se do comentário feito pelo fundador da religião - C. T. Russell - na publicação Torre de Vigia de Sião de 15 de novembro de 1892, no qual, analisando a decisão do concílio apostólico de Atos, capítulo 15, ele diz:

 

[Tiago] sugeriu, mais adiante, escrever-lhes para simplesmente absterem-se das impurezas dos ídolos (versículo 29), das coisas estranguladas e do sangue - como se, por comerem tais coisas, eles estivessem se tornando pedras de tropeço para seus irmãos judeus (vide 1 Cor. 8:4-13) - e da fornicação."

 

Vemos aqui que o entendimento do 'pastor' Russell  era semelhante ao da quase totalidade dos teólogos no que se refere a esta passagem bíblica. Cerca de quinze anos depois, em 1909, ele confirmaria este mesmo entendimento. Na página 117 de A Sentinela de 15 de Abril daquele ano, Russell esclarecia que os cristãos não viam a decisão quanto a 'abster-se de coisas sacrificadas a ídolos e de sangue' como sendo "uma lei", nem isto fazia deles "cristãos", mas servia meramente como um meio de manter a harmonia com os judeus recém-convertidos ao cristianismo. Russell morreu pensando assim. Seu sucessores trataram de mudar este entendimento, com conseqüências dramáticas até a atualidade.

A primeira interpretação desastrada do capítulos 15 de Atos e 6 de Gênesis, conforme já vimos, surgiu em 1923, com um inflamado artigo na revista A Idade de Ouro, deflagrando a campanha contra a vacinação pública, a qual duraria cerca de 30 anos. Também vimos que, por essa época, aplicava-se o entendimento dos textos bíblicos como referindo-se exclusivamente aos animais. Isto colocava a prática da vacinação na mira dos 'teólogos' da Sociedade Torre de Vigia, ao passo que passava por alto as transfusões de sangue humano. Na verdade, a organização elogiou a doação de sangue por duas vezes - uma em 1925 e outra em 1940. Veja o que diz este artigo:

 

“... um dos médicos na emergência principal doou um quarto de seu sangue para transfusão, e hoje a mulher vive e sorri alegremente...”Consolação (25/12/1940), página 19 (em inglês)  

 

Lamentavelmente, este entendimento do assunto  duraria menos de cinco anos à frente, pois um artigo de A Sentinela de 1º de julho de 1945, em inglês,  declararia:

 

“... [o uso do sangue] era para ser feito sobre o altar sagrado... e não por tomar tal sangue diretamente dentro do corpo humano... As transfusões de sangue [são] pagãs [e] desonram a Deus.”  

 

Foi o começo de tudo. Após a malfadada campanha contra as vacinas, a Sociedade Torre de Vigia centrava agora seu ataque no uso medicinal do sangue - por mais de meio século. E com a mesma obstinação. Todavia, da mesma forma que no episódio das vacinas, a doutrina não tardaria a esbarrar - conforme veremos - em sérios obstáculos científicos e  lógicos, produzindo uma das mais incríveis seqüências de idas e vindas, com conceitos sendo constantemente reformulados. Um breve exame histórico do desenvolvimento desta doutrina inexoravelmente permitir-nos-á contemplar o seu naufrágio na areia movediça da inconsistência e da contradição.

Vejamos:

 

 

1925

A edição de A Idade de Ouro de 29 de Julho, página 683, tece comentários ELOGIOSOS aos doadores habituais de sangue. Praticamente nenhuma Testemunha de Jeová hoje sabe disso.

 

1940

A edição de Consolação de 25 de dezembro classifica - conforme transcrição acima - como ERÓICO o ato de um doador de sangue que salvara a vida de uma senhora. Outro fato ignorado pelas Testemunhas de Jeová da atualidade.

 

1945

A edição de A Sentinela de 1º de julho de 1945 CONDENA - conforme transcrição acima - o uso medicinal de sangue e derivados. Ironicamente, a versão holandesa da revista Consolação, apenas dois meses mais tarde, diria:

"Deus jamais emitiu decretos proibindo o uso de medicamentos, injeções ou transfusões de sangue. Tudo não passa de invenções de pessoas que, como os fariseus, desprezam o  amor e a misericórdia de Deus." - Consolação de Setembro de 1945, página 29 (em holandês)

Este desconcertante episódio serve para demonstrar quão súbita foi mudança doutrinal. O responsável (ou responsáveis) pela revista na Holanda talvez não estivesse a par da repentina reviravolta e simplesmente mantivesse a política anterior. Provavelmente, houve uma falha de comunicação. Em todo caso, fica óbvio que ele próprio era incapaz, mediante a leitura da Bíblia, de chegar à mesma conclusão a que a Sociedade chegara. A partir do relato, vê-se que ele teve um entendimento totalmente oposto.

 

1954

A edição de 8 de agosto de Despertai!, página 24 (em inglês), CONDENA - pela primeira vez - o uso de "frações" do sangue, tais como a gamaglobulina:

“... a proteína sanguínea ou 'fração' conhecida como gamaglobulina para uma injeção... aqueles interessados no aspecto bíblico notarão que o fato de ser ela obtida do sangue integral coloca-a na na mesma categoria das transfusões de sangue” 

 

1956

A Sociedade Torre de Vigia CONFIRMA o banimento às "frações" sanguíneas, novamente em Despertai!, edição de 8 de setembro, página 20 (em inglês):

“Enquanto este médico defende o uso de certas 'frações' sanguíneas, particularmente albumina, tal uso está sob proibição bíblica."

 

1958

Subitamente, a organização volta atrás e afirma que o uso de 'frações' do sangue e as transfusões não estão na mesma categoria. A Sentinela de 15 de setembro, página 575 (em inglês), diz:

“Devemos considerar a injeção de soro... e frações do sangue como a gamaglobulina na corrente sanguínea... como o mesmo que ingerir sangue ou tomar transfusões de sangue ou plasma? Não, não parece necessário que os ponhamos na mesma categoria, embora o tenhamos feito algum tempo atrás.”  

Assim, a Sociedade Torre de Vigia LIBERA, pela primeira vez, o que havia proibido. Por outro lado, um comentário na seção "Perguntas dos Leitores" de A Sentinela de 1º de agosto deste ano, página 478 (em inglês), considera uma eventual aceitação de transfusão como sinal de "imaturidade", não provendo base para disciplina severa por parte da congregação.

 

1959

A organização fecha gradualmente o cerco em direção a uma postura mais radical, condenando até a transfusão autóloga, ou seja, aquela em que a pessoa recebe parte de seu próprio sangue, recolhido antes da cirurgia:

“Consequentemente, a remoção do sangue de alguém, armazenando-o e depois devolvendo-o à mesma pessoa constituiria uma violação dos princípios bíblicos... se o sangue for armazenado, mesmo por um breve período de tempo, isto seria uma violação das escrituras..."  - A Sentinela 15/10/1959, página 640 (em inglês)

 

1961

Sai o artigo - anteriormente mencionado - no qual a Sociedade Torre de Vigia define sangue transfundido como alimento. Para isso, recorre ao comentário do médico Jean Baptiste Denys:

"Não faz diferença que o sangue seja introduzido no corpo através das veias em vez de através da boca. Também não tem peso a alegação de alguns, de que não é o mesmo que alimentação intravenosa. O fato é que isso nutre ou sustém a vida do corpo. Em harmonia com isto, está uma declaração no livro Hemorrhage and Transfusion [Hemorragia e Transfusão], de George W. Crile, A.M., M.D., que cita uma carta de Denys, médico francês e investigador pioneiro no campo das transfusões. Diz: 'Ao realizar uma transfusão, isso nada mais é do que nutrir através de um caminho mais curto do que o normal -- ou seja, colocar nas veias sangue já feito em vez de tomar alimento que só depois de várias mudanças se transforma em sangue.'"  -  A Sentinela 15/9/1961, página 558 (em inglês)

O que o artigo acima deixa de mencionar é que a declaração evocada como apoio para a doutrina do sangue foi emitida, não na década de 60, mas no século dezessete, sendo, portanto totalmente obsoleta.

Nesse mesmo ano, a edição de A Sentinela  de 1º de dezembro, página 736 (em português), finalmente estabelece a punição para todo aquele que persistir em aceitar uma transfusão de sangue ou doar sangue:

“...se, no futuro, ele persistir em aceitar transfusões de sangue ou em doar sangue... ele mostra que não se arrependeu realmente... e deve ser cortado [da congregação] por ser desassociado.”

Fica claro, pois, que trata-se de uma determinação organizacional. Ainda nesse ano, um artigo em A Sentinela (15/9) afirma que impulsos homicidas e suicidas são transmitidos pelo sangue. Também, neste ano, a Sociedade Torre de Vigia  muda novamente sua postura com relação às 'frações' de sangue, CONDENANDO-AS pela segunda vez

“É errado suster a vida mediante infusões de sangue, plasma, glóbulos vermelhos ou várias frações de sangue? Sim! ...Quer seja sangue integral quer fração do sangue, ... quer seja administrado por transfusão ou por injeção, a lei divina se aplica... [Deus] requer respeito pela santidade do sangue ”  A Sentinela 15/3/1962, página 174 (em português)

 

1963

A Sociedade Torre de Vigia continua a reiterar a proibição do uso medicinal do sangue, seja em transfusões seja em quaisquer derivados:

“...Transfusões de sangue ... são uma prática antibíblica... não apenas sangue integral, mas qualquer coisa que se derive do sangue..." A Sentinela 15/7/1963, página 443 (em português)

 

1964

A organização muda novamente e considera "questão de consciência" o uso de 'frações' sanguíneas (A Sentinela de 15/11, em inglês):

“...Assim, deixamos para a consciência de cada indivíduo determinar se deve se submeter a uma inoculação com soro contendo frações de sangue com o propósito de produzir anticorpos para combater doenças..."

Aqui, as 'frações' de sangue são LIBERADAS pela segunda vez. Também, neste ano, um artigo de A Sentinela (15/11) autoriza médicos adeptos da religião a realizarem transfusões de sangue em pacientes não-adeptos.

 

1965

Durante este ano, a postura FAVORÁVEL ao uso das 'frações' de sangue é mantida:

“... Já que [os soros] não envolvem o uso de sangue como alimento para nutrir o corpo, algo que a Bíblia condena diretamente, seu uso é matéria para a consciência de cada um." Despertai! de 22/8/1965, página 18 (em inglês)

 

1966

Pouco antes da proibição dos transplantes de órgãos - classificados como 'canibalismo' - a Sociedade Torre de Vigia ensaia a primeira comparação com respeito ao sangue:

“É alguém a quem repugna desobedecer a lei de Deus? Então, tomar sangue lhe é tão desprezível como o canibalismo." A Sentinela de 1/1/1967, págs. 16,17 (em português)

 

1967

Os pais são incentivados pela organização a não permitirem que seus filhos pequenos recebam uma transfusão de sangue:

“De modo correto, [os pais] tentam evitar que seus filhos recebam sangue de outrem em seus corpos." A Sentinela de 1/12/1967, página 724 (em inglês)

 

1972

A Sociedade Torre de Vigia relembra a proibição das transfusões autólogas:

“A Bíblia mostra que o sangue não deve ser retirado do corpo, armazenado e posteriormente reutilizado." Despertai!  de 8/4/1972, págs. 29,30 (em inglês)

 

1974

A postura CONTRÁRIA com respeito às 'frações' de sangue - tomada dez anos antes - é mantida:

“Que dizer, então do uso dum soro que contenha apenas uma fração minúscula do sangue e que seja empregado para prover uma defesa auxiliar contra uma infecção, não sendo empregado para realizar a função sustentadora da vida, normalmente desempenhada pelo sangue? Cremos que isto deve ser decidido pela consciência de cada cristão." A Sentinela de 15/10/1974, página 640 (em português)

 

1975

A Sociedade Torre de Vigia - por incrível que pareça - muda novamente sua postura concernente ao uso de 'frações' do sangue, desta vez com respeito ao tratamento de pacientes hemofílicos:

“Certos fatores plasmáticos de coagulação acham-se agora em amplo uso... os que recebem tal tratamento enfrentam outro perigo mortífero... quase 40% dos 113 hemofílicos apresentaram casos de hepatite... todos receberam sangue integral, plasma ou derivados sanguíneos que continham os fatores. Naturalmente, os cristãos não utilizam este tratamento potencialmente perigoso, acatando a ordem bíblica de 'abster-se de sangue'." Despertai! de 22/10/1975, página 29 (em português)

Do artigo acima subentende-se que o uso de 'frações' (derivados) de sangue foi PROIBIDO - pela terceira vez! Esta política duraria - pelo menos oficialmente - cerca de 3 anos e não há meios de saber quantas vidas se perderam neste período por conta deste entendimento. No início dos anos 70 recomendava-se às Testemunhas de Jeová que aceitassem o uso de 'frações' de sangue apenas uma única vez.

Todavia, ainda no ano de 1975 - por volta do mês de junho - a organização instruía aqueles que buscavam contato telefônico a tomarem pessoalmente a decisão de aceitar ou não o uso de fatores de coagulação. Há razões para crer que tal postura não foi publicada neste mesmo ano porque representaria uma mudança muito brusca, suscitando contestações e - quem sabe - ações judiciais. Àqueles que enviaram correspondência, a nova postura extra-oficial foi transmitida. Infelizmente, não havia como contatar de volta aqueles que apenas telefonaram. Pode-se apenas conjeturar sobre o que teria acontecido a estes pacientes até o ano de 1978, quando, finalmente, a mudança doutrinal foi anunciada.

 

1977

A Sociedade reconhece que a transfusão de sangue não passa de um transplante de órgão -  proibido desde 1967:

“...uma pessoa poderia rejeitar sangue simplesmente porque trata-se essencialmente de um transplante de órgão, o qual, na melhor das hipóteses, é apenas parcialmente compatível com seu próprio sangue."As Testemunhas de Jeová e a Questão do Sangue, página 41 (em inglês)

Três anos mais tarde, os transplantes seriam liberados. A analogia, porém, foi esquecida - as transfusões continuavam proibidas.

 

1978

O Corpo Governante das Testemunhas de Jeová reverte totalmente seu entendimento de três anos atrás. Repare o leitor o que diz este artigo:

“... Que dizer se aceitarem injeções de soro para combater doenças tais como... difteria, tétano, hepatite por vírus, hidrofobia, hemofilia e incompatibilidade de RH? Isto parece cair numa zona de questões limítrofes... alguns cristãos acham que aceitar uma pequena quantidade de derivado de sangue para tal fim não é... desrespeito pela lei de Deus... adotamos atitude de que esta questão precisa ser resolvida por cada pessoa, por decisão pessoal." A Sentinela de 15/10/1974, página 640 (em português)

Não se pode concluir outra coisa, a não ser que o uso de 'frações' de sangue foi LIBERADO - pela terceira vez! Vemos também que a Sociedade Torre de Vigia introduz um novo conceito de ' zona limítrofe' - uma área de indefinição sobre o que é certo ou errado. Todavia, não se pode deixar de notar o quanto a organização legislou enfaticamente - e por décadas - bem dentro dos limites desta zona...

 

1980

A Sociedade Torre de Vigia cria as Comissões de Ligação aos Hospitais (COLIH), da qual médicos adeptos da religião são membros permanentes. O objetivo de tais comissões é fazer contato com médicos que aceitem fazer cirurgias sem sangue ou derivados e 'assessorar' as Testemunhas em sua postura contrária ao tratamento tradicional, assegurando que este não seja administrado a  um paciente inconsciente, mesmo em risco de morte.

 

1982

O Corpo Governante introduz, embora de maneira não explícita, a teoria dos componentes "maiores" e "menores" do sangue:

“Embora estes versículos não estejam expressos em termos médicos, as Testemunhas de Jeová consideram que proíbem a administração de transfusões de sangue total, de GV's e de plasma, bem como de GB's de plaquetas sob forma concentrada. Entretanto, o entendimento religioso das Testemunhas não proíbe de modo absoluto o uso de componentes como albumina, as imunoglobulinas e os preparados anti-hemofílicos; cabe a cada pessoa decidir individualmente se deve aceitar esses." Despertai! de 22/12/1982, página 22 (em português)

 

1983

A condenação à transfusão autóloga permanece, mas a circulação sanguínea extra-corpórea é autorizada:

“...o sangue é sagrado... quando retirado do corpo de uma criatura, deve ser devolvido a Deus por derramá-lo no seu escabelo, a terra... Portanto, como poderia ser correto armazenar seu sangue (mesmo que apenas por um período relativamente curto) e depois repô-lo no seu corpo? [E se] seu sangue [fosse] canalizado através de um equipamento fora do seu corpo e então reposto imediatamente? Alguns acharam que podem permitir isso com a consciência limpa desde que o equipamento seja aprontado com líquido que não é sangue. Consideraram a aparelhagem externa como extensão de seu sistema circulatório..." Unidos na Adoração do Único Deus Verdadeiro (1983), página 157 (em português)

 

1984

transplante de medula óssea é assunto de decisão pessoal. Entretanto, o fato de a medula transplantada poder conter certa medida de sangue pode desencorajar a Testemunha de Jeová a recebê-la, mesmo diante do risco envolvido em tal decisão, a saber, a  morte iminente. É o que diz A Sentinela de 15 de novembro, páginas 31 e 32, parecendo endossar tal atitude. Também neste ano, o Corpo Governante recua de seu equívoco científico de 1971, não mais afirmando que o coração exerce qualquer papel referente às emoções e à cognição.

 

1985

A edição de 15 de agosto de A Sentinela publica, nas páginas 22 e 23, um artigo sobre a contaminação de milhares de receptores de sangue ou derivados com o vírus da AIDS e evoca este fato em apoio de sua doutrina. Entretanto, isso seria o mesmo que promover a doutrina judaica de não comer carne de porco ou a doutrina hindu de não comer carne de gado bovino sob a alegação de que tais medidas evitariam doenças como a teníase ("solitária"). É mister lembrar que as razões argüidas pela liderança das Testemunhas de Jeová para a rejeição ao uso medicinal do sangue são de natureza teológica, não médica. O uso de certos fármacos - penicilina e anestésicos, por exemplo - também envolve riscos à saúde (choque anafilático é um deles) e nem por isso as Testemunhas de Jeová fazem objeção bíblica ao seu uso.

 

1988

A revista Despertai! de 8 de outubro, página 11, relatou que cerca de 12 mil americanos hemofílicos haviam sido contaminados com AIDS, sugerindo que a doutrina das Testemunhas de Jeová punha seus adeptos a salvo de tal risco. Entretanto, o artigo omitiu o fato de que, em muitos casos, a via de contaminação foi - não a transfusão de sangue integral - mas a administração de fatores de coagulação, agora permitidos pela religião. Em outras palavras, a doutrina não estava provendo proteção alguma aos hemofílicos. Matérias como essa acabam por desviar convenientemente a atenção do leitor do fundo religioso da doutrina. A Sociedade Torre de Vigia faz clara seleção de evidência, omitindo os casos em que o tratamento salvou ou prolongou vidas e concentrando-se naqueles em que houve complicações. Essa estratégia tem um objetivo: incutir na mente da Testemunha de Jeová a idéia de que os fracassos e riscos da terapia constituem evidência adicional de que a doutrina de sua organização é divinamente inspirada.

 

1989

 Mais uma vez a organização condena as transfusões autólogas. No entanto, autoriza a hemodiluição:

“...esse uso de sangue autólogo. As Testemunhas de Jeová, porém, não aceitam este procedimento. Há muito entendemos que tal sangue estocado não é mais parte da pessoa. Foi totalmente removido dela, assim, esse sangue deve ser descartado em harmonia com a lei de Deus... Em um processo diferente, sangue autólogo pode ser desviado de um paciente para um dispositivo de hemodiálise (rim artificial) ou máquina cárdio-pulmonar. O sangue flui através de um tubo para o órgão artificial... e retorna ao sistema circulatório... Alguns cristãos têm permitido isso desde que a máquina não seja preparada com sangue... Um cristão, tendo que decidir quanto a se permite que seu seja desviado por algum dispositivo externo, deve ponderar, não primariamente sobre se uma breve interrupção do fluxo poderia ocorrer, mas se ele conscienciosamente consideraria o sangue desviado como parte de seu sistema circulatório... E quanto à hemodiluição?... alguns cristãos têm aceito, outros têm recusado. Novamente, cada indivíduo deve decidir..." A Sentinela de 1/3/1989, págs. 30,31 (em português)

Neste mesmo ano,  pareceu haver uma notável falta de comunicação dentro dos prédios da organização, pois o autor da brochura Como Pode o Sangue Salvar sua Vida?, página 27 (em inglês), escreveu:

“Técnicas para coleta intraoperativa ou hemodiluição que envolve armazenamento de sangue são objetáveis para eles."

Das duas uma: o autor do artigo não estava a par da postura da organização ou a Sociedade Torre de Vigia havia mudado de opinião mais uma vez. As duas opções são ruins: a primeira revelaria falta de harmonia e responsabilidade para com o bem-estar dos milhões de leitores e a segunda, falta de senso quanto ao que é certo ou errado. O que torna mais contraditório o argumento desta brochura é o fato de a própria organização reconhecer - em A Sentinela de 15/6/1985 - que, para obter os fatores de coagulação para o tratamento de um único paciente hemofílico, é necessária a contribuição de mais de 2500 doadores, cujo sangue é "estocado" e processado. No entanto, tal tratamento foi liberado aos adeptos hemofílicos desde 1974, enquanto que a mesmíssima estocagem para transfusão autóloga (ou hemodiluição) era condenada. Por que aceitar a estocagem de milhares de doadores não-adeptos, ao passo que os beneficiados não podem retribuir o gesto? Por que o uso do sangue de uns é tolerado e o de outros, condenado?

 

1990

A Sociedade Torre de Vigia dá agora uma roupagem mais 'científica' à sua doutrina dos componentes "maiores" e "menores" do sangue:

“Os Componentes Principais do Sangue...   Plasma: cerca de 55% do sangue. 92% dele é água; o resto é composto de proteínas complexas, tais como globulinas, fibrinogênio e albumina. Plaquetas: aproximadamente 0,17% do sangue. Glóbulos brancos: cerca de 0,1%. Glóbulos vermelhos: cerca de 45%."Despertai! de 22/10/1990, página 4 (em inglês)

Até hoje, não se sabe exatamente qual é a importância de tal 'tecnicismo' no tocante à doutrina cristã. Tampouco se sabe em que parte das Escrituras o Corpo Governante apoiou-se para legislar tão minuciosamente sobre o que pode ou não ser considerado "maior" ou "menor", "principal" ou "secundário"  no tecido sanguíneo. Caso uma Testemunha de Jeová seja indagada sobre estas questões, dificilmente saberá como embasá-las biblicamente.

Ainda em 1990, um artigo publicado em A Sentinela de 1º de Junho, na seção "Perguntas dos Leitores", autoriza o uso de 'diminutas' frações do plasma de um doador, tais como anticorpos, fator RH, fatores de coagulação para hemofílicos e albumina. Note o leitor que todos estes são parte de um componente anteriormente definido como "principal" (plasma) e, portanto, proibido. Exatamente onde a Bíblia proíbe o uso do todo, mas admite o uso de uma 'fração' do todo? É admissível a um cristão o usufruto de uma 'fração diminuta' do pecado?

Também, no artigo acima mencionado, salienta-se que a "transferência natural de algumas frações protéicas do plasma para o sistema sanguíneo de outrem [no caso, da mãe para o feto] pode ser outro fator a ser considerado quando o cristão tem de decidir se aceitará imunoglobulina, albumina ou injeções similares de frações do plasma". Mais uma vez a organização esbarrou na ciência, pois por volta desta mesma época, constatou-se que os componentes "maiores" - proibidos pela religião - também são passados, em pequenas quantidades, tanto da da mãe para o feto quanto no sentido contrário. Estaria Deus violando seu próprio decreto?

 

1991

Os pais são novamente exortados a incutir repetidamente na mente dos filhos, mesmo muito pequenos, a resolução contrária ao uso de transfusões de sangue. Os jovens devem ser treinados quanto ao que dizer na presença de um juiz:

“Se você tem crianças, está certo de que elas aceitam e podem explicar a postura bíblica sobre transfusões?... Pais conscientes revisarão estas matérias com seus filhos, quer sejam muito jovens quer quase adultos. Os pais podem promover sessões práticas na qual cada jovem encara questões que poderiam ser colocadas por um juiz ou um diretor de hospital... O mais importante é que eles saibam em que acreditam e por quê." A Sentinela de 15/6/191, página 18 (em inglês)

 

1992

Um artigo em A Sentinela de 15 de outubro afirma que não há necessidade de preocupações com "minúcias" sobre a forma do abate de um animal para consumo, tais como o tempo decorrido entre a morte e a sangria, se todo o sangue fora drenado, qual o vaso sanguíneo cortado, se resta muito sangue ainda na carcaça e coisas assim. Um grande contraste se considerarmos todas as 'minúcias' com que o Corpo Governante tem legislado sobre o uso de 'frações' deste ou daquele tipo, o uso único de fatores de coagulação, o sangue ter sido ou não estocado momentaneamente fora do corpo, se o fluxo sanguíneo foi ou não interrompido e outras coisas do gênero.

 

1994

Sai o famoso exemplar de Despertai! repleto de fotos de jovens que morreram recusando - até o último instante - o tratamento medicinal com sangue ou derivados "maiores". Se por um lado, o artigo aparentemente buscava fazer uma propaganda favorável à postura das Testemunhas de Jeová, por outro lado, talvez tenha sido o maior equívoco editorial já lançado pelas gráficas de Brooklyn. A matéria repercutiu mal perante o público em geral e até entre algumas Testemunhas de Jeová. Ao invés de tornar a doutrina atraente - ou, pelo menos, tolerável - aos leitores, este exemplar da revista tornou-se um marco histórico indesejável na trajetória da instituição. O artigo diz:

“Em tempos passados, milhares de jovens morreram por colocarem Deus em primeiro lugar. Eles ainda o estão fazendo, só que hoje o drama se desenrola em hospitais e tribunais, com as transfusões de sangue sob discussão."

Vemos aqui, pela primeira vez, a Sociedade Torre de Vigia admitindo que literalmente milhares de pacientes jovens estavam  morrendo como resultado de sua postura relativa à doutrina do sangue. Todavia,  em momento algum conseguiu ela provar que o uso medicinal do sangue - recusado pelos jovens adeptos e, por seus pais - não poderia ter salvo ou prolongado as vidas de alguns deles.

Despertai! de 22/5/94 - O "tiro saiu pela culatra"...

 

1995

Um artigo em A Sentinela de 1º de agosto menciona algumas Testemunhas de Jeová como não objetando a uma técnica chamada reinfusão sanguínea e, sobre esta questão, o artigo reporta-se à matéria publicada na edição de 1 de Março de 1989.

 

1996

Em junho deste ano, três representantes da Sociedade Torre de Vigia compareceram a um fórum de bioética em uma universidade espanhola. Os profissionais médicos e os advogados presentes perguntaram: "Se um paciente Testemunha de Jeová vacilasse e aceitasse uma transfusão, seria rejeitado pela sua comunidade?"

A resposta se encontra em A Sentinela de 15 de Fevereiro de 1997, página 20:

“Isto iria depender da situação, porque a desobediência à lei de Deus, com certeza, é uma assunto sério a ser examinado pelos anciãos da congregação."

A resposta acima apenas confirma aquilo que já se sabia, apesar de oficialmente negado pela instituição, a saber, a doutrina do sangue é uma postura organizacional e não simplesmente um entendimento pessoal. Do contrário, a resposta, logicamente, teria de ser: "não, a pessoa não será rejeitada por seus irmãos em hipótese alguma".

 

1997

JAMA [Jornal da Associação Americana de Medicina] - edição de 5 de Fevereiro, Vol. 277, No. 5, página 425 - menciona a "morte desnecessária de milhares de pessoas" em razão da doutrina das Testemunhas de Jeová. É de longas datas o empenho dos profissionais médicos desta entidade no sentido de expor as crendices e charlatanismos endossados pela Sociedade Torre de Vigia neste século.

 

Os últimos anos têm assistido a um gradual abrandamento no tom dos artigos publicados pelas Testemunhas de Jeová - especialmente no tocante a questões delicadas como a  doutrina do sangue. Além disso, perante  organismos internacionais, os dirigentes da organização têm se mostrado  cada vez mais reticentes e ambíguos ao abordarem sua política organizacional neste e noutros pontos polêmicos. Tem-se buscado aprimorar a imagem da entidade perante o público e isto exigirá, talvez, revisões doutrinais em um futuro próximo. Há razões para crer que tais mudanças já começaram a acontecer.

Nota: o leitor poderá conhecer algumas das dezenas de vítimas da doutrina do sangue no endereço fornecido a seguir: https://watchtowervictimsmemorialday.com/

 

  

 

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