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1914 - De onde veio esta data?

M.A.S., Brasil, 30/6/2002

Graça e Paz do Senhor

Prezado irmão, meu nome é M.A.S. , sou membro da Igreja Batista Nova Vida e também faço seminário Batista. Tenho uma dúvida para a qual não consegui uma resposta que me satisfaça, a saber...

Como foi determinado o ano de 1914 para as Testemunhas de Jeová?

No aguardo de sua resposta...

Prezado leitor

É uma honra poder esclarecer uma questão que envolve o próprio alicerce sobre o qual foi edificado o movimento religioso Testemunhas de Jeová – a escatologia. Primeiramente, é preciso frisar que a idéia de “calcular” datas apocalípticas não nasceu com esta religião. Na verdade, séculos antes de Cristo, esta era uma prática comum. Por exemplo, cerca de 600 anos antes do surgimento do cristianismo, um ‘profeta’ persa chamado Zoroastro já previa um confronto universal entre o bem e o mal, culminando em um cataclismo, após o qual a bem-aventurança estaria reservada aos justos e a ordem mundial seria restaurada. Muitos não percebem a enorme influência das idéias de Zoroastro no judaísmo e no cristianismo. Exemplificando, os essênios, membros de uma seita judaica também anterior ao nascimento de Jesus Cristo, isolaram-se nas cavernas de Qumram, à espera do ‘fim do mundo’ – para eles, um evento iminente. De certa forma, seu temor se concretizou quando os romanos atacaram sua comunidade, dizimando-os. Os cristãos do primeiro século também esperavam ver a glória do Senhor em seu próprio tempo, na forma de um acontecimento espetacular. Deveras, o apóstolo Paulo enfatiza continuamente, em suas epístolas, a ‘brevidade do tempo’ (1 Cor. 7: 29) Assim sendo, era somente natural que, na falta do tão aguardado evento, as gerações futuras persistissem na tentativa de “adivinhar” uma data para ele. O rabino Akibah Ben Joseph (50 - 132 DC) foi pioneiro em estabelecer um princípio conhecido como ‘dia-ano’, ou seja, aquele que generaliza as palavras do textos bíblicos de Números 14: 34 e Ezequiel 4:6 como sendo a chave para o entendimento de todas as profecias que usam o termo ‘dia’. Sob este entendimento, um dia corresponde sempre a um ano. O cristianismo também aderiria a esta idéia - no século XII, o monge católico Joachim de Fiore "calculou" a data da volta do Messias partindo do princípio 'dia-ano' e aplicando-o a Apocalipse 11:3. Deste modo, chegou ao ano de 1260 DC. Nada aconteceu. A partir daí, um longo desfile de escatologistas se seguiu, com a proposição de novas datas. Com o fracasso de todas as datas partindo de um período de 1260 anos, os aspirantes a 'profetas' decidiram-se por períodos mais longos. Um inglês chamado John Acquila Brown foi pioneiro em lançar mão de um período de 2520 anos, partindo do capítulo 4 do livro de Daniel (os "sete tempos"). Em 1823, ele fez um cálculo, partindo da data de 604 AC, ano aproximado da famosa batalha de Carquêmis, na qual os babilônios bateram o último aliado da recém-derrotada potência assíria - o exército egípcio. Contando 2520 anos, ele chegou ao ano de 1917. A partir de Brown, outros autores adotaram tal período e começaram a relacioná-lo ao assim chamado "tempo dos gentios', mencionado em Lucas 21: 24. Na primeira metade do século XIX, um pastor batista, W. Miller, fez outro cálculo, começando de 677 AC - suposta data da captura do rei Manassés - e chegando a 1843. A expectativa em torno daquele ano levou ao que se chama "grande desapontamento" - nada aconteceu (como de costume). Todavia, alguns seguidores de Miller insistiriam com novas datas - um deles chamava-se Nelson Barbour. Ele pregou a volta de Cristo em 1874 e o 'fim do mundo' para 1914. O processo todo pode ser resumido assim:

A) Os "sete tempos" mencionados repetidamente em Daniel, cap. 4, significam 7 anos, ou 2520 dias. Tomando 'um ano por um dia', chega-se a 2520 anos.

B) Este período de 2520 anos corresponderia aos "tempos das nações", de Lucas 21: 24.

C) Nelson Barbour tinha apontado para a data de 1874 como aquela em que Cristo retornaria à terra. Como nada aconteceu, ele mudou a interpretação da profecia, afirmando que naquele ano o Senhor, de fato, 'retornou', só que de forma 'invisível'. Mas, ainda faltava determinar a data para o 'armagedom'. Barbour voltou-se para as escrituras, em busca da resposta. Seu cálculo dependia de um ponto de partida.

D) A data de partida deveria contar a partir da destruição de Jerusalém pelos babilônios. As evidências históricas apontam para o ano de 539 AC como aquele em que os judeus cativos foram libertos de Babilônia pela Medo-Pérsia. Barbour presumiu que as primeiras grandes levas de judeus retornaram ao seu lar destruído apenas por volta de 536 AC. Contudo, ele cometeu um equívoco - supôs que os 70 anos aplicados à profecia de Babilônia (Jer. 25: 11,12) significariam 70 anos de exílio para toda a nação judaica (com efeito, os 70 anos referiam-se ao poderio babilônico, não ao exílio judaico). Assim, contou 70 anos para trás e caiu no ano de 606 AC. Ao contar 2520 anos a partir daí, ele chegou a 1914. Ainda assim, cometeu outro erro - despercebeu a inexistência de um ano 'zero'. Assim, seu cálculo cairia, na verdade, em 1915 e não 1914.

E) O 'pastor' Russell gostou da idéia de uma 'presença invisível', advogada pelo grupo de Barbour. Encontrou-se com ele em 1876 e ficou totalmente convencido por seus cálculos. Até hoje, as Testemunhas de Jeová pensam que foi Russell o autor desta 'profecia'.

F) Curiosamente, o erro de um ano entre 606 AC e 1914 DC permaneceu despercebido por décadas, até que os sucessores de Russell notaram que, para manter a data 1914, já anunciada, teriam de recuar um ano, para 607 AC. Fizeram isto por presumir que os judeus retornaram ao seu lar em 537 AC, ou seja, dois anos após a derrota de Babilônia e a emissão do decreto do rei Ciro, em 539 DC. Daí, contaram novamente 70 anos para trás e caíram na data que mantêm até hoje - 607 AC. Esta foi, sem dúvida, uma coisa fácil de fazer - no papel. A História, contudo, não apóia estas contas.

G) Babilônia reinou, de fato, por 70 anos, de 609 AC (quando os últimos focos de resistência assíria caíram) a 539 AC (com a invasão da Medo-Pérsia) e é a este período que a profecia de Jeremias muito provavelmente se refere.

H) O povo judeu caiu cativo aos poucos, primeiro perdendo autonomia política, após algumas visitas do exército babilônico e levas de deportados. Durante este período, Jeremias avisou-os continuamente da necessidade de cederem a Nabucodonosor e assim seriam poupados da destruição (Jer. 27: 8-11). Mas, com a resistência do rei Zedequias, a cidade acabou por ser sitiada e destruída em 587 AC. Assim, ao passo que o período de domínio babilônico correu ao longo de 70 anos, o exílio de todos os judeus só se deu por cerca de 50 anos.

Este é o maior erro dos escatologistas da Sociedade Torre de Vigia - não têm apoio histórico algum para sua teoria. Nenhum livro de história no mundo aponta para 607 AC como a data da destruição de Jerusalém. Além disso, não há como provar que a profecia de Daniel 4 guarda qualquer relação com a de Lucas 21: 24. É mera inferência ou suposição, pois as escrituras não afirmam que há ligação entre estes textos (escritos com séculos de diferença). Nem mesmo há como provar que o acontecido com o rei Nabucodonosor - a loucura por 'sete anos' - tivesse alguma aplicação além daquela dirigida a ele próprio, por sua arrogância desmedida. Por outro lado, transformar sete anos em 2520 dias e depois converter os dias em anos novamente, chegando a 2520 anos, é o tipo de malabarismo mental que se ajusta melhor ao esoterismo do que ao cristianismo.

Um último detalhe: muitos perguntam por que a Sociedade Torre de Vigia não cede simplesmente às evidências e corrige a data. A resposta a isto é simples - se assim o fizesse, teria que abrir mão também do assim chamado período de 'inspeção' de Jesus Cristo, entre 1914 e 1918 (amplamente ensinado na literatura da Sociedade). As Testemunhas de Jeová foram ensinadas a crer que os dirigentes de sua religião receberam autoridade de Cristo em 1919, após o Filho de Deus ter examinado todas as religiões do mundo. Ora, negar a data de 1914 implica, pois, no completo colapso da autoridade espiritual alegada pelo 'corpo governante' da Torre de Vigia. Se 1914 nada significa, então, não houve qualquer período de 'inspeção' e nenhuma autoridade foi concedida em 1919. O movimento perde seu passado e sua identidade, deixando de ter sentido. É por esta razão que as Testemunhas se 'agarram' como podem a este ano. Em 1995, tiveram que abrir mão da doutrina da 'geração de 1914', pois esta completava 80 anos e nada havia acontecido à ordem mundial, como fora previsto anos antes. O 'corpo governante' cedeu até onde pôde, mas está inexoravelmente amarrado a 1914 - uma espécie de 'fim' auto-imposto. É obrigado a perpetuar este erro cronológico cometido por Nelson Barbour e Charles Russell, sob pena de deixar de existir como grupo religioso. Até onde se irá com esta teoria, é difícil dizer. Sem dúvida, é triste estar preso a um erro óbvio e não poder consertá-lo. Além disso, com a virada do século 21, a escatologia entrou em declínio - as pessoas cansaram de esperar por um futuro que nunca chega e agora deixam-se seduzir pelo apelo imediatista do neopentecostalismo. É a maior crise da história das Testemunhas de Jeová.

Espero ter-lhe sido de ajuda no esclarecimento deste ponto. Recomendo-lhe a leitura da obra "Proclamadores" (1993), publicada pelas Testemunhas de Jeová, e o livro "The Gentiles Times Reconsidered" (em inglês), da autoria de uma ex-Testemunha, C.O. Johnsson, o qual esquadrinha o assunto.

Saudações,

Odracir

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