Percy Harding, extestemunhadejeova@yahoo.com.br, 09/06/2007

Responsabilidade Comunal

Parentes e anteriores amigos de dissociados [1] precisam dar-se conta de sua parcela de responsabilidade no tratamento que é dispensado aos que saem da organização religiosa Testemunhas de Jeová.

"Alguns têm causado a morte de pessoas deliberadamente ou por negligência. Outros têm participado em matanças coletivas, talvez persuadidos por líderes religiosos, de que esta era a vontade de Deus. Ainda outros têm perseguido e matado servos de Deus. Mesmo que não tenhamos feito algo assim, porém, compartilhamos a responsabilidade comunal pela perda de vidas humanas porque não conhecíamos a lei e a vontade de Deus." - A Sentinela, 15 de novembro de 1995, página 16, parágrafo 5 (grifo acrescentado).

A Associação Torre de Vigia, sabe perfeitamente bem o que significa o termo "responsabilidade comunal" (ou culpa comunal) e durante décadas tem feito extensivo uso e aplicação dessa expressão. [2]   

É improvável, porém, que os associados àquela organização tenham a noção exata do que este termo representa, muito menos o que se espera que façam para eximir-se daquela responsabilidade. 

 

A prática da rejeição

Vamos fixar nossa atenção na questão do tratamento que dispensam àqueles que, em determinado momento, decidiram voluntariamente dissociar-se da organização religiosa a qual pertenciam.

Citando um caso levado perante uma corte federal de apelação (nos EUA), a Sentinela de 15 de abril de 1988, página 29, parágrafos 18 e 19 afirma:

"'A rejeição é praticada pelas Testemunhas de Jeová de acordo com a sua interpretação do texto canônico ...'. O tribunal de apelação reconheceu que, mesmo que a mulher se sentisse angustiada porque seus anteriores conhecidos preferiam não conversar com ela . . . 'A garantia constitucional do livre exercício da religião requer que a sociedade tolere o tipo de danos sofridos por [ela] como preço que bem merece ser pago para proteger o direito da diferença religiosa que todos os cidadãos usufruem'". (grifos acrescentados)

De modo que, ancorando-se em seu "direito" religioso, uma norma organizacional que determina o tratamento que deve ser dispensado aos dissociados se perpetua, mesmo a custo de muita "angústia" e "danos" emocionais.

Mas, o que exatamente envolve esta norma? E quais são as implicações disso?

 

Experiências com parentes

Apesar dos aspectos mencionados acima, a experiência tem mostrado que, na prática, algumas Testemunhas de Jeová não agem de modo uniforme no trato com seus parentes dissociados. Eis alguns relatos pessoais que ilustram isso:

"Tenho na minha família 5 pessoas cujas vidas são controladas pelo Corpo Governante. Destas, 3 são batizadas. Uma dessas pessoas é o meu irmão que, assim que o informei acerca da minha desassociação, disse-me que em hipótese alguma deixaria de falar comigo e de ser meu amigo. Quanto ao meu primo, que também é meu vizinho e ancião, cuja convivência conosco era como a de um irmão, se nega a me dirigir um simples cumprimento. Deixa de visitar meus pais porque não deseja encontrar-me e tem passado esse pensamento insano aos filhos. O mais velho, ainda não batizado, mantém o mesmo tratamento que dispensava a mim antes do ocorrido. Quanto as duas filhas menores, estas passam por mim como se eu fosse um cachorro doente, indigno de um mero olhar." (E. Aguiar)

"Tenho 28 parentes que são Testemunhas. Desses, 4 (que incluem meu pai, minha mãe, minha irmã e seu marido) me tratam normalmente. Os outros mandam recados apenas: "fala pra ele que mandei um abraço!"; "diz pro ... que ele continua no meu coração"; "diga que eu continuo admirando ele". Sempre mandam recados e abraços. Mas em nenhum momento, nesses 4 anos, algum deles dirigiu a palavra a mim. Meus primos, meus tios, os filhos dos primos, são muitos. Não tenho nenhum contato com eles além desses recados. Acho interessante quando os vejo na rua ou no mercado, me olham de uma maneira diferente, com um brilho no olhar que me deixa intrigado. Me sinto como se fosse uma estrela de cinema, um astro, ou super pop. Qualquer dia vou dar um autógrafo... Esse jeito de olhar eu não vejo só nos parentes, vejo também nos  "irmãos" que conviviam comigo - parece que eles querem chegar e me dar um abraço, ou então tocar no meu ombro e ver se ainda existo mesmo. É essa a impressão que dá pelo olhar deles." (Armando)

"Desde que me dissociei (há 22 anos), minha mãe nunca mais falou comigo por eu ser para ela uma mundana. ... Você acredita que na passagem do ano 2000 para 2001, pela primeira vez, a minha mãe me ligou para dizer que queria se despedir de mim porque ela sabia que o Armagedom ia acontecer naqueles dias e eu iria morrer, então ela queria me dizer adeus? Olha, você não pode imaginar como eu sofro com isso: ter minha mãe querida, mas não a ter. Costumo dizer que é uma dor maior do que se minha mãe querida tivesse falecido, afinal, não tenho mais minha mãe..." (M. P. Marques)

"Tenho um irmão que é ancião e uma irmã que é publicadora. Meu irmão me ignora solenemente. Minha irmã aceitou minha posição com serenidade, respeitando meu livre arbítrio..." (Nair Martinha)

Essa situação acaba gerando mais angústia na mente dos que se afastaram: Por que uns agem de forma mais amorosa, fraternal, ao passo que outros de forma tão intransigente para com a norma organizacional?

Esses exemplos nos dão uma boa noção da incoerência, por parte das Testemunhas de Jeová, da aplicação da norma instituída pelo Corpo Governante, no que tange ao tratamento aos parentes dissociados. Mas isso não atenua de forma alguma o problema. Ele existe e tem implicações gravíssimas. É pai que não fala com o filho! É irmão que não fala com irmão! É mãe que não fala com a filha! São sogros, noras, genros, cunhados, primos, sobrinhos, tios, avôs e netos que não se relacionam mais normalmente como família! Como pode o Corpo Governante minar ou destruir laços tão importantes, como são os laços de família e ainda aclamar isso como "preço que bem merece ser pago para proteger o direito da diferença religiosa"?

 

Que dizer dos antigos amigos?

Ao passo que algumas Testemunhas de Jeová não aplicam, em relação a seus parentes dissociados, as pretensas "perfeitas diretrizes que todos nós podemos ler na Palavra de Deus" [3], a grande maioria dos antigos amigos e conhecidos o fazem criteriosamente. É quase inacreditável o que acontece: uma vez dado o anúncio da dissociação, estes passam imediatamente a tratá-los da maneira mais fria possível, evitando-os completamente. Não importa quanto tempo tenham convivido juntos, ou quão fortes pareciam ser seus laços de amizade - tudo como que se pulveriza de uma hora para outra. E não adianta tentar qualquer aproximação. O relato, a seguir, ilustra essa situação:

Um recém dissociado enviou e-mail para um anterior amigo, assegurando que, de sua parte nada mudaria no seu relacionamento. Veja a resposta lacônica que recebeu: "Caro Senhor, solicito que não envie mais e-mail para meu endereço. Atenciosamente, ..."

Este mesmo dissociado havia comparecido, no dia anterior, a uma reunião da congregação na qual se associara por muitos anos, saindo de lá com o seguinte sentimento: "confesso que me senti mal, como uma pessoa invisível diante de tantos que me conhecem".

Existe explicação para tal comportamento?

 

O endeusamento à Organização

A organização, representada pelo seu Corpo Governante conseguiu, através de um processo extremamente eficiente, ao longo de décadas, condicionar as mentes dos adeptos a uma lealdade tal, que é impensável para um membro abandoná-la sem perder o favor de Deus. Ou seja, abandonar a organização tornou-se equivalente a abandonar ou rejeitar o próprio Deus! Alguns dos principais argumentos usados para tal autoridade, podem ser expressos da seguinte forma: [4]

Nestas circunstâncias, a direção central das Testemunhas de Jeová consegue habilmente controlar a vida de milhões de pessoas, a tal ponto que um antigo membro sentiu-se muito a vontade para expressar o seguinte pensamento, que certamente é compartilhado por toda fraternidade mundial, os chamados "leais": 'o que quer que a organização diga ou faça nós entenderemos como sendo a vontade de Deus para nós'. Ele ainda exemplificou: 'vamos supor que amanhã a organização resolva modificar o tratamento aos desassociados, permitindo agora que os demais membros o tratem, por exemplo, como tratariam qualquer pessoa 'mundana'. Os irmãos se ajustariam prontamente a esta diretriz.'

Raymond Franz, ex-membro do Corpo Governante, cita em seu livro "Crise de Consciência" um incidente que ocorreu numa reunião de anciãos numa assembleia de circuito, bastante revelador. O superintendente de distrito, Bart Thompson, ergueu uma publicação da Sociedade que tinha capa verde. Então disse à assembleia de anciãos: "Se a Sociedade me dissesse que este livro é preto em vez de verde, eu diria: 'Sabe, eu podia jurar que era verde, mas se a Sociedade diz que é preto, então é preto!'" (veja a página 355).

Fica evidente, portanto, que não há espaço para pensamentos conflitantes com os ensinos da organização, primeiro porque existe um conceito de lealdade a ela fortemente inculcado na mente dos adeptos. E segundo, porque há uma acomodação confortável em se pensar que o que tenha que ser feito, ensinado, modificado, terá de vir de cima, da direção central, do "canal de comunicação de Jeová". [6]

 

Responsabilidade comunal

Com base na declaração acima e levando em conta tudo o que foi aqui exposto, pode-se afirmar o seguinte:

Não é possível que sentimentos tão íntimos como o amor dos pais pelos filhos, dos filhos pelos pais, entre cônjuges, enfim, os laços que unem os membros duma família, sejam suprimidos pelos decretos mutantes de um grupo de homens imperfeitos, como são os membros do Corpo Governante.

Não é possível que sentimentos de amizade, às vezes maior do que os existentes entre parentes, sejam sufocados por uma norma organizacional que viola os mais nobres ensinamentos bíblicos, entre os quais: amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo, como a ti mesmo.

Não é possível que pessoas que dizem respeitar o nome de Deus participem, ativamente ou não, em difamar e desonrar este nome por tolerar o dano emocional sofrido por aqueles que se afastam da organização.

Talvez não seja possível modificar um sistema religioso tão autoritário como é o da Torre de Vigia. De modo geral, os que estão lá dentro, sequer o vêem nessa perspectiva autoritária. Outros, ao sentirem-se incomodados com algum arranjo, preferem 'deixar o assunto nas mãos de Jeová' e aguardar. Mas não acham necessário ir além disso. 

Quem sabe um dia, ao se darem conta de sua responsabilidade comunal, muitas Testemunhas decidam seguir o conselho da própria organização:

 

Notas de rodapé:

 

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[1] O termo "dissociado" será usado no mesmo sentido que o termo "desassociado", especialmente porque a norma de tratamento imposta pela Torre de Vigia é aplicável da mesma forma, embora os dissociados sejam aqueles que voluntariamente solicitaram sua exclusão da organização Testemunhas de Jeová.

[2] A Sentinela 15/10/1971, página 622, parágrafo 10; Despertai! 22/03/1971, página 29, parágrafo 11; A Sentinela 15/11/1973, página 692, parágrafo 7; A Sentinela 15/06/1974, página 373, parágrafo 27; A Sentinela 01/12/1976, página 731, parágrafo 16; A Sentinela 15/11/1979, página 14, parágrafo 1; Despertai! 08/08/1993, página 12, parágrafo 7; A Sentinela 15/10/1995, página 28, parágrafo 23; A Sentinela 15/09/1996, página 9, parágrafo 7.   

[3] A Sentinela 15/04/1988, página 29, parágrafo 20.

[4] Usando expressões típicas da organização Torre de Vigia.

[5] A Sentinela 01/08/1982, página 27, parágrafo 4.

[6] Um dos instrutores da Escola Bíblica de Gileade da Torre de Vigia (nos EUA), U. V. Glass, incluiu a necessidade do reconhecimento do "canal de comunicação de Jeová" como um dos três pontos do 'plano para a sobrevivência espiritual'. (Veja a Sentinela 01/03/1981, página 29, parágrafo 9).