Artigo de

Sebastião de Souza Duarte

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Quem é realmente o escravo fiel e discreto?

 

As Testemunhas de Jeová são bem conhecidas por sua obra de pregação, por suas doutrinas muitas vezes controversas e por sua firmeza ao defender sua fé, ao passo que divulgam os escritos de sua organização e distribuem suas publicações. No entanto, as próprias Testemunhas, geralmente pessoas de boa índole, pouco ou nada sabem sobre as origens de sua própria religião, ou sobre a história do grupo de homens a quem apoiam com grande confiança, o auto-intitulado “Escravo Fiel e Discreto”.

Para as Testemunhas, a liderança exercida pelo chamado “Escravo Fiel e Discreto”, através de seu Corpo Governante, é algo legitimado pelas Escrituras Sagradas, foi predita pelo próprio Cristo e exemplificada pela primitiva Congregação Cristã. Trata-se dos supostos remanescentes dos 144.000 cristãos ‘ungidos’ de Revelação 14:1, que alegadamente reinarão com Cristo nos céus. Segundo esta doutrina, cerca de nove mil cristãos ungidos ainda vivem na terra e compõe o coletivo “Escravo”, sendo que um pequeno grupo dentre eles, o Corpo Governante, um colegiado que administra a Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados (nos EUA), está encarregado de instruir os membros do movimento em assuntos espirituais e cotidianos.

Ora, se de fato é assim, devemos ter total interesse no assunto, pois se o Criador designou tal grupo para cuidar de seus assuntos na terra, seria uma temeridade não estar associado a tais homens, não apoiar seus ensinamentos e não seguir seus conselhos e regras.

Portanto, eu o convido a fazer aquilo que a Bíblia aconselha em Atos 17:11, seguindo o exemplo dos judeus bereanos, que abraçaram o cristianismo:

“Ora, estes últimos eram de mentalidade mais nobre do que os de Tessalônica, pois recebiam a palavra com o maior anelo mental, examinando cuidadosamente as Escrituras, cada dia, quanto a se estas coisas eram assim.” (TNM)

Ou seja, examinar. Veja que isso é coisa para os de ‘mentalidade mais nobre’.

Um fato importante a lembrar, é que as próprias Testemunhas de Jeová em sua obra de casa em casa exortam seus ouvintes a examinarem sua própria religião, a confrontar os ensinos e as práticas de sua crença com as Escrituras e verificar se sua igreja seja ela qual for, segue ou não a Bíblia, se é uma religião certa ou errada, falsa ou verdadeira. Infelizmente, se uma Testemunha de mentalidade nobre aplicar esta exortação a si mesmo, se resolver examinar as origens de sua religião e confrontar as doutrinas de sua organização com as Escrituras e isso vier a ser de conhecimento da congregação, por certo enfrentará sérias consequências, que podem ir desde uma reprimenda, até ser expulso da organização.

Um dos textos bíblicos usados pelo Corpo Governante na tentativa de legitimar sua autoridade e sua designação como o “mordomo de Deus” é Mateus 24:45-47, onde Jesus diz:

Quem é realmente o escravo fiel e discreto a quem o seu amo designou sobre os seus domésticos, para dar-lhes o seu alimento no tempo apropriado? Feliz aquele escravo, se o seu amo, ao chegar, o achar fazendo assim! Deveras eu vos digo: ele o designará sobre todos os seus bens”.

Para os membros do Corpo Governante, não resta dúvida de que quando Jesus pronunciou as palavras desta parábola ele estava, não incutindo em sua assistência uma série de valores morais, como é próprio das parábolas, mas estava na verdade profetizando que 19 séculos no futuro, um grupo seleto de homens seria designado para fornecer alimento espiritual aos demais do rebanho, e não apenas isso, mas seria também investido de autoridade eclesiástica e seria usado doravante como “o único canal de comunicação entre Deus e os homens”.

É o que lemos na revista A Sentinela de 01 de maio de 1992, na pág. 31, parágrafo 3, publicada pela organização das Testemunhas de Jeová:

Não é provável que alguém, por apenas ler a Bíblia, sem se aproveitar das ajudas divinamente providas, consiga ver a luz. É por isso que Jeová Deus proveu o “escravo fiel e discreto", predito em Mateus 24: 45-47. Atualmente, este escravo é representado pelo Corpo Governante das Testemunhas de Jeová.”

Segundo os escritores da Torre de Vigia, a parábola enunciada por Jesus - onde ele obviamente ilustrava a importância de servi-lo, ao passo que cuidamos do bem estar de nossos irmãos - torna-se uma profecia sobre um grupo de sábios através dos quais, e somente através destes, os crentes poderiam enxergar a luz da verdade bíblica. Segundo esta doutrina, passivamente aceita pela maioria das Testemunhas de Jeová, mesmo o mais sincero e perspicaz estudante da Bíblia, por mais que se esforce, por mais que pesquise, por mais que suplique a Deus entendimento, jamais conseguirá entender as coisas profundas de Deus, jamais conseguirá entender aquilo que lê em sua Bíblia, a menos que o faça sob as orientações e sob a ótica do “Escravo Fiel e Discreto”. É o que se publicou na revista A Sentinela de 01 de dezembro de 1916, na página 357 (em inglês):

"Mais ainda, não só achamos que as pessoas não podem ver o plano divino estudando somente a Bíblia, mas pensamos também que se alguém deixar de lado os "Estudos das Escrituras", mesmo que seja depois de os ter usado, depois de se ter familiarizado com esses livros, depois de os ter lido durante dez anos - se ele depois os deixa de lado e os ignora e se vira somente para a Bíblia, embora tenha compreendido a Bíblia durante dez anos, a nossa experiência mostra que dentro de dois anos ele fica na escuridão. Por outro lado, se ele tivesse somente lido "Estudos das Escrituras" com as referências, e não tivesse lido uma página diretamente da Bíblia, ele estaria na luz no fim desses dois anos, porque teria a luz das Escrituras."

E também em A Sentinela de 1º de junho de 1968, na página 327, parágrafo 9:

Assim, a Bíblia é um livro de organização e pertence à congregação cristã como organização, não a indivíduos, não importa quão sinceramente creiam poder interpretar a Bíblia. Por esta razão, a Bíblia não pode ser devidamente entendida sem se ter presente a organização visível de Jeová.”

Naturalmente, não encontramos nas Escrituras nada que apoie a ideia de que só podemos entender as Escrituras Sagradas por meio da organização liderada pelo chamado Corpo Governante. Aliás, é sabido que as mais diversas religiões fazem alegações parecidas, de que a instrução divina é canalizada desde os céus através de um homem ou através de um grupo seleto de pessoas e as Testemunhas de Jeová geralmente ridicularizam este conceito, mas acham muito natural que seus próprios líderes façam a mesma alegação.

Segundo o Corpo Governante, sua designação como Escravo Fiel e Discreto foi devido às suas virtudes e qualificações reconhecidas pelo próprio Filho de Deus, que não encontrou em toda terra outro grupo de cristãos que o servisse com tamanha discrição e fidelidade. A própria organização nos conta como isso se deu através da revista A Sentinela de 15 de março de 1990, página 15, parágrafo 4:

“Em 1918, o entronizado Rei Jesus Cristo encontrou um pequeno grupo de cristãos que haviam abandonado as igrejas da cristandade e se ocupavam em cuidar dos interesses terrestres de seu Amo. Depois de refiná-los como que com fogo, Jesus conferiu aos seus escravos, em 1919, uma autoridade ampliada. (Malaquias 3:1-4; Lucas 19:16-19) Designou-os "sobre todos os seus bens." - Lucas 12:42-44

Portanto, o Corpo Governante alega que em 1918, Jesus teria vindo de forma invisível inspecionar seu templo espiritual e ao fazer sua inspeção, constatou que apenas as Testemunhas de Jeová, dentre todas as religiões cristãs da terra, estavam fielmente servindo o “alimento espiritual no tempo apropriado” a seus domésticos, e de modo discreto, defendendo os interesses do Reino de Deus na terra. Todas as outras religiões estavam maculadas com ensinamentos falsos e antibíblicos. O livro Aproximou-se o Reino de Deus de Mil Anos, páginas 350 e 351, parágrafo 40 diz o seguinte sobre a qualidade do alimento servido pelo Corpo Governante na época da inspeção do amo:

A questão era servir alimento, a espécie correta de alimento no tempo apropriado. Tinha de ser sobre isso que o retornado amo precisava fazer uma decisão... Não só constituiu a regularidade um problema, mas também se devia considerar a qualidade do próprio alimento. Neste respeito, o grupo de cristãos odiados e perseguidos, que sempre procuraram ser escravos fiéis de Jesus Cristo enfrentou a prova.”

É um exercício interessante examinar aquilo que as Testemunhas publicavam na época e serviam a seus membros como sendo o alimento espiritual no tempo apropriado e que lhes granjeou a aprovação do amo. Quão saudável era tal alimento? O que era publicado nos anos anteriores a 1919 pelo Corpo Governante? Examinemos alguns poucos exemplos:

O Tempo Está Próximo (1889), página 99:

“Em vista da forte evidência bíblica relativa aos Tempos dos Gentios, consideramos como uma verdade estabelecida que o final definitivo dos reinos deste mundo e o pleno estabelecimento do Reino de Deus estarão cumpridos por volta de fins de 1914 A.D.”

Venha Teu Reino (1891), página 153:

“E com o fim de 1914 A.D., aquilo que Deus chama de Babilônia e os homens chamam de Cristandade terá passado, conforme já demonstrado pela profecia.”

O Mistério Consumado (1917):

Página 258: “Até as repúblicas desaparecerão no outono de 1920. Todos os reinos da terra passarão, serão tragados pela anarquia.”

Página 485: “Também, no ano de 1918, quando Deus destruir as igrejas em escala total e os membros das igrejas aos milhões, ocorrerá que qualquer um que venha a escapar virá em busca das obras do Pastor Russell para descobrir o significado da derrocada do 'cristianismo'.”

Página 542: “Assim como os apóstatas de mentalidade carnal do cristianismo, aliados aos radicais e revolucionários, regozijar-se-ão diante da herança de desolação que virá a ser da cristandade, depois de 1918, assim fará Deus ao movimento revolucionário triunfante; será completamente desolado, "mesmo toda ela". Não sobreviverá nenhum vestígio dele nas ruínas da anarquia mundialmente abrangente no outono de 1920.”

É interessante notar que atualmente o Corpo Governante chama este livro contendo tais “pérolas” de "um poderoso comentário sobre Revelação e Ezequiel" (Clímax de Revelação, página 165, parágrafo 16). No entanto, quase tudo publicado ali já foi descartado faz tempo como sendo alimento impróprio para o consumo, verdades ultrapassadas. Verdades transmitidas por Jeová, mas ultrapassadas.

Será que quando o Senhor Jesus, ao examinar detidamente o ensino promovido pelos Estudantes Internacionais da Bíblia, como então eram conhecidas as Testemunhas de Jeová, considerou tais escritos como sendo alimento espiritual no tempo apropriado? Considerou Jesus este pacote de interpretações mirabolantes e profecias falsas como fruto da ação fiel e discreta de seus promotores? Ou terá Jesus se lembrado das palavras do profeta em Jeremias 23:21 onde lemos:

"Não enviei os profetas, no entanto, eles mesmos correram. Não falei com eles, no entanto, eles mesmos profetizaram."

Diz a Bíblia que por algumas ocasiões, Jesus Cristo enviou seus discípulos aos pares, para pregarem as boas novas às aldeias de Israel. Ele os instruiu a pregar que o Reino de Deus estava próximo e que todos deviam se arrepender de seus pecados e dar meia-volta. Também lhes deu autoridade para expulsar demônios e eles partiram. O que acha que aconteceria se ao retornar de sua pregação eles dissessem a seu amo: _ “Senhor, fizemos como nos mandastes, expulsamos demônios, pregamos a vinda do Reino e o arrependimento de pecados. Porém, Senhor, visto que somos extremamente fiéis e discretos, e ansiamos tanto as bênçãos do Reino, resolvemos acrescentar nossa interpretação pessoal acerca do fim dos tempos e ensinamos a todos que o fim virá no ano 80 EC.” Então Jesus lhes diria: _ “Muito bem escravos bons, visto que fostes fiéis e discretos, vou designá-los sobre todos os meus bens.” Acha isso minimamente razoável ?

Mas as Testemunhas amiúde argumentam que estes foram erros passados, que a intenção era boa e que o “Escravo Fiel e Discreto” a partir daí foi purificado e qualificado para assumir sua designação, passando a transmitir novos esclarecimentos, as chamadas - “novas luzes” - que alimentariam o povo de Deus em sentido espiritual, conduzindo-o cada vez mais à luz do entendimento. No entanto, inúmeras doutrinas atuais estão calcadas nestes ensinamentos já rejeitados. Cabe, portanto um exame daquilo que foi publicado desde então, para determinarmos a qualidade do que foi servido ao rebanho da Torre de Vigia nos anos seguintes. Naturalmente, espera-se que um grupo religioso faça aprimoramentos ao longo do tempo. Isso é até mesmo algo desejável. Mas quando um grupo de homens se diz “guiado pelo espírito santo”, alega ser usado como “porta voz” e “profeta de Jeová”, e muda seus ensinos com a frequência necessária para acomodá-los a circunstâncias e conveniências, uma reflexão se faz necessária. Basta lembrar que no passado, outros homens, os profetas e apóstolos, foram usados como porta-vozes legítimos de Deus, porém, seus escritos não careceram de revisão, pois eles, segundo a Bíblia, não falaram de sua própria iniciativa, mas foram “movidos por espírito santo”, e apenas transmitiram as palavras do Criador, imutáveis e isentas de erro.

Segundo o Corpo Governante, após sua designação como “Escravo” em 1919, eles foram purificados e libertos de “Babilônia a Grande, o Império Mundial da Religião Falsa”. Porém, o que observamos é que a organização seguiu mantendo seu padrão de especulações e bravatas progressivas. Em 1920 se publica o livro Milhões que Agora Vivem Jamais Morrerão. Aqui encontramos o Juiz Rutherford, o segundo presidente da sociedade, assumindo o papel de “Escravo Fiel e Discreto”, que era atribuído a Charles Taze Russel, fundador do movimento e falecido em 1916. Na liderança do agora purificado povo de Deus, Rutherford inicia uma série de reformas doutrinais e organizacionais, jogando no lixo boa parte do “alimento espiritual” servido até então e substituindo-o por aquilo que lemos neste novo livro, que a organização novamente chama de “alimento espiritual no tempo apropriado” e que alega ter sido também concebido sob a orientação e supervisão do espírito santo de Jeová:

Milhões Que Agora Vivem Jamais Morrerão (1920), páginas 110 e 111:

“... desde que outras escrituras definitivamente estabelecem o fato, de que Abraão Isaque e Jacó ressuscitarão e outros fiéis antigos, e que estes seriam os primeiros favorecidos, podemos esperar em 1925 a volta desses homens fiéis de Israel, ressurgindo da morte e completamente restituídos à perfeição humana.”

Segundo o livro acima, este era um fato definitivamente estabelecido, de que os antigos profetas iriam ser ressuscitados em 1925. Construiu-se até mesmo uma mansão para abrigar os ressuscitados, mas como estes não se levantaram dos mortos na data prevista, o Juiz Rutherford, demonstrando uma abnegação admirável, habitou a confortável propriedade na ensolarada Califórnia até sua morte em 8 de janeiro de 1942 (A Sentinela 1/11/2003, página 21). Quem estava falando era o purificado “Escravo” que supostamente era guiado pelo espírito santo e qualquer um que não concorda-se com esta profecia era um apóstata. O tempo tratou de revelar a qualidade do alimento espiritual servido pelo “purificado” “Escravo”, quando suas previsões antibíblicas se mostraram totalmente vazias.

Poucas Testemunhas de Jeová tem conhecimento do envolvimento de Charles Taze Russel com a piramidologia. Muitos diriam que tal declaração absurda certamente é uma invenção dos opositores. Mas, como é impossível encobrir totalmente este fato, a organização declara brevemente que no passado “alguns” deram certa importância às medidas da grande pirâmide de Gizé e que estas medidas tinham algum significado profético para tais. O que a organização não revela de modo claro é que Russel tinha um enorme interesse na grande pirâmide, que ele ensinava que ela havia sido projetada por Deus e juntamente com a Bíblia, era uma chave para o conhecimento dos propósitos do Criador. Visto que Russel era encarado como sendo o Escravo Fiel e Discreto, esta doutrina devia ser encarada como uma expressão da verdade revelada por Deus e não devia ser contestada. Dizia assim o “Escravo”, no livro Venha Teu Reino, de 1912, na página 342, onde entre outras coisas está escrito:

“Temos esta data-chave na junção da "Grande Passagem Ascendente" com a "Grande Galeria". Esse ponto assinala o nascimento do nosso Senhor Jesus, enquanto o "Poço", 33 polegadas adiante, indica sua morte... Este cálculo mostra 1915 A D como assinalando o começo do período de tribulação... Assim, a Pirâmide testemunha que o final de 1914 será o início do tempo de tribulação tal como nunca houve desde que as nações existem – não, e tampouco haverá depois.”

Ainda antes desta data, o “Escravo Fiel e Discreto”, cargo que supostamente era ocupado por Russel, advertiu que este ensino acerca da Grande Pirâmide seria atacado pelos agentes de Satanás, conforme declara no seu livro Venha o Teu Reino, volume 3 de Estudos das Escrituras, página 319, parágrafo 1, de 1891:

“Introduzimos assim esta "Testemunha" [a grande pirâmide de Gizé] porque a inspiração do seu testemunho sem dúvida será tão disputada como a das Escrituras, pelo príncipe das trevas, o deus deste mundo, e por aqueles a quem ele cega para a verdade.”

Mesmo após 1919 e a suposta designação e purificação do “Escravo”, este ainda era um ensino corrente, que era servido aos membros da organização e devia ser aceito e defendido por todos. Em 1922, A Sentinela, de 15 de junho, página 187, (em inglês) ensinava:

“Nas passagens da Grande Pirâmide de Gizé, a concordância de uma ou duas medidas com a cronologia da verdade atual pode ser acidental, mas a correspondência de dúzias de medidas prova que o mesmo Deus desenhou tanto a pirâmide como o plano – e prova ao mesmo tempo a exatidão da cronologia.”

Somente em 1928, a organização achou por bem declarar que este era um ensinamento errado, sem nenhum apoio bíblico e deveria ser rejeitado pelos irmãos. A Sentinela de 15 de novembro de 1928, página 341 e A Sentinela de 1º de dezembro de 1928 página 359 parágrafo 34 (ambas em inglês), declaram:

"... a grande pirâmide deve ser posta fora da mente de todos aqueles que servem Deus. Se, por conseguinte, a Palavra de Deus não menciona a pirâmide, nem o seu ensino, nem a respeito dela e das suas medidas, então tirar conclusões a partir dela é não só contrário às Escrituras e fora de ordem, mas é também presunçoso perante o Senhor. É mais do que uma perda de tempo. É afastar a mente da Palavra de Deus e do seu serviço. Se a pirâmide não é mencionada na Bíblia, então seguir os seus ensinos é ser levado por vã filosofia e falsa ciência e isso não é seguir Cristo."

"Claro que se Satanás conseguir induzir os consagrados a voltar a sua atenção para um pilar de pedras no Egito e estudar as suas medidas para determinar exatamente quando a igreja será glorificada, ele realizaria os seus propósitos. Satanás é um inimigo astuto. Ele recorre a toda a sorte de esquemas para afastar os homens de Jeová e do seu serviço. Um dos esquemas mais subtis que Satanás adotou até agora para realizar esse propósito tem sido e é o uso da pirâmide de Gizé. Há aqueles que se baseiam na pirâmide e afirmam ser de Cristo e seus seguidores."

Pode parecer algo muito positivo, pode parecer que houve aí um grande avanço no entendimento espiritual dos líderes das Testemunhas. Mas trata-se de algo muito grave declarar que o “Escravo Fiel e Discreto”, sob a orientação do espírito santo de Deus, sob a aprovação de Cristo, serviu por tanto tempo um alimento estragado, que na verdade era apenas “vã filosofia”, “falsa ciência”, e que impedia quem a adotava de estar ‘seguindo a Cristo’. A alegação de que Satanás induziu o “Escravo” a estudar o túmulo do Faraó Quéops para descobrir a data para o fim do mundo é tão absurda quanto ao fato da data encontrada – 1914 – ser até hoje usada pela organização sem nenhuma outra justificativa válida. Terá realmente o “Escravo” atuado de modo fiel e discreto? Para a organização parece que sim, pois veja o que ela publicou no livro Aproximou-se o Reino de Deus de Mil Anos, de 1975, página 354 parágrafo 47 e na página 355 parágrafo 51 :

“O Senhor Jesus declarou feliz o "escravo fiel e discreto", por causa do que o aguardava como recompensa por fazer o que o seu amo lhe mandou fazer. Recebe uma promoção, com maiores responsabilidades para com o amo, a quem é tão fiel.”

“Ao inspecionar os do restante de seus discípulos ungidos, no ano de 1919 E.C., o Rei reinante Jesus Cristo achou o "escravo" designado como fiel e discreto na alimentação de seus "domésticos". Por conseguinte, designou esta classe do "escravo" sobre todos os seus bens.

Vemos que na opinião da Sociedade Torre de Vigia, por servir alimento recheado de desencaminhadora vã filosofia e falsa ciência, a organização foi aprovada e abençoada por Cristo e por Jeová. Parece-lhe isso razoável?

Até os dias de hoje, a organização coloca Charles Taze Russel como sendo o instrumento usado por Jeová para transmitir sua vontade a seus servos na terra, durante o final do século XIX e início do século XX, como aquele que tomou a dianteira em restabelecer na terra o verdadeiro cristianismo. No entanto, tal alegação se torna altamente contraditória, ao observar-se o tratamento dado a boa parte de seus ensinamentos, logo após seu falecimento. Até 1922, por meio de A Sentinela de 1º de maio, página 132, a organização iguala a submissão aos ensinos e métodos de Russel com a submissão à vontade do próprio Deus:

“Ser fiel significa ser leal. Ser leal ao Senhor significa ser obediente ao Senhor. Abandonar ou repudiar o instrumento escolhido do Senhor significa abandonar ou repudiar o próprio Senhor, baseado no princípio de que aquele que rejeita o servo enviado pelo Amo, rejeita por esse meio, o Amo.

Não há ninguém hoje na verdade atual que possa honestamente dizer que recebeu conhecimento do plano divino de qualquer outra fonte além do ministério do irmão Russel, direta ou indiretamente. Por intermédio de seu profeta Ezequiel, Jeová prefigurou o cargo de um servo, identificando-o como alguém vestido de linho, com um tinteiro de escrevente de lado, o qual foi comissionado para passar através da cidade (a cristandade) e consolar os que gemem por iluminar suas mentes com relação ao grande plano de Deus ... O Homem que ocupou este cargo, pela graça do Senhor, foi o irmão Russel.”

Também em A Sentinela de 1º de março de 1923, páginas 68 e 71:

“Cada conservo tem demonstrado sua habilidade ou capacidade e progredido na mesma proporção em que tem se submetido alegremente à vontade do Senhor por trabalhar no campo da colheita do Senhor e harmonia com o modo do Senhor, modo esse em que o Senhor usou o irmão Russel para delinear, já que o irmão Russel ocupava o cargo desse “servo fiel e prudente". Ele fez a obra do Senhor no modo do Senhor, qualquer outro modo de fazê-la é contrário o modo do Senhor e não poderia ser, portanto, um modo fiel de cuidar dos interesses do reino do Senhor.”

Conforme declara a organização nas revistas citadas acima, Russel ocupara “pela graça do Senhor” o papel de “Escravo Fiel e Discreto” ou “Prudente” e fizera esta obra “do modo do Senhor”, ainda assim, aquilo que ele ensinava foi quase que totalmente rejeitado, e se alguma Testemunha, dos dias de Rutherford até nossos dias, professar crer em alguns de seus ensinamentos, será considerado um apóstata, alguém condenado à destruição eterna e será desassociado da organização. A organização usa como justificativa para suas constantes mudanças doutrinais, o texto de Provérbios 4:18, onde lemos que “a vereda dos justos é como a luz clara que clareia mais e mais até o dia estar firmemente estabelecido”. Porém este texto é citado totalmente fora de seu contexto, pois qualquer pessoa que leia o capítulo na íntegra, verá que o texto trata da diferença que há entre o caminho do justo com suas benesses e o caminho do iníquo com suas agruras, mas em parte alguma o texto fala sobre haver um entendimento progressivo das Escrituras, ou “novas luzes”, que muitas vezes são na verdade coisas já entendidas e ensinadas pela cristandade por séculos. É impressionante como a organização pinça este texto, que não tem nada a ver com o assunto em pauta e o coloca como sendo uma justificativa para suas mais que frequentes mudanças doutrinais. E é incrível que o rebanho aceite passivamente tal explicação absurda sem ao menos ler o capítulo na íntegra, neste e em muitos outros casos. Isso mostra claramente o poder de persuasão que o Corpo Governante exerce, pois ele publica coisas sem nenhuma lógica, se contradiz vez após vez, contando que a grande maioria dos irmãos sequer lerá o contexto de suas citações bíblicas.

Quão lamentável é que tal grupo de homens, que se dizem tão sábios e santos, guardiões da adoração pura, lancem mão de difamação e linguagem ofensiva para atacar aqueles que levantam suas vozes contra as mentiras por eles pregadas. Qualquer pessoa que ouse apontar as inúmeras mentiras publicadas pela Torre de Vigia, mesmo que munido de farta documentação, receberá acusações como as publicadas em A Sentinela de 1º de julho de 1982, nas páginas 28 e 29 onde lemos:

“De vez em quando tem surgido nas fileiras do povo de Jeová alguns que, iguais ao Satanás original, adotaram uma atitude independente e crítica. Não querem servir “ombro a ombro” com a fraternidade mundial (Veja Efésios 2:19-22.) Em vez disso oferecem à palavra de Jeová um “ombro obstinado”. (Zacarias 7:11,12) Aviltando o modelo da língua pura que Jeová tão benevolamente tem ensinado ao seu povo durante o último século, estes soberbos procuram desviar as ovelhas do único rebanho internacional que Jesus ajuntou na terra. (João 10:7:10,16) Procura lanças dúvidas e separar os insuspeitos da mesa de alimento espiritual abundante, servido nos Salões do Reino das Testemunhas de Jeová, onde realmente ‘nada falta’. (Salmo 23:1-6) Dizem que basta ler exclusivamente a Bíblia, quer em particular, quer em pequenos grupos em casa. Mas, o que é estranho é que por meio de tal ‘leitura da Bíblia’ voltaram novamente para trás, para as doutrinas apóstatas que os comentaristas dos clérigos da cristandade estavam ensinando há 100 anos, e alguns até mesmo voltaram a celebrar novamente as festividades das cristandade, tais como as saturnais romanas em 25 de dezembro! Jesus e seus apóstolos advertiram contra tais que são contra a lei – Mateus 24:11-13; Atos 20:28-30; 2Pedro 2:1,22”

O Corpo Governante se julga no direito de chamar aqueles que não podem mais compactuar com seus erros, de pessoas ‘iguais a Satanás, independentes, críticas, obstinadas, aviltantes, soberbas, apóstatas e contra a lei’. O grande pecado cometido por tais pessoas, independente de seu calibre moral, é o de terem discordado de alguma doutrina da organização e não terem se calado em sinal de reverência. Estes são aqueles que no decorrer dos anos se levantaram contra alguns ensinos da organização, tais como o conceito de que os transplantes de órgãos seria canibalismo, que as vacinas seriam coisa do diabo, que o fim viria em 1975, durante o século XX, que a ‘geração que não passaria’ era a geração de 1914 e tantas outras doutrinas ensinadas pelo “Escravo” e que foram uma a uma sendo abandonadas por se mostrarem falsas e antibíblicas. Muitos daqueles que conseguiram discernir o erro e não se dobraram a ele, foram expulsos da organização e chamados de apóstatas. São os pecadores citados pela revista acima. Mas quem estava ensinando falsidades e erros durante todos estes anos? Exatamente aquela organização que não admite ser questionada e desestimula seus associados de questioná-la, sob pena de expulsão.

Ao “Escravo Fiel e Discreto” cabe interpretar as Escrituras, restando aos demais apenas ler o que tal classe publica por meio de seu Corpo Governante, aceitando como verdade revelada por Deus aquilo que lhes é imposto como sendo o correto do ponto de vista organizacional e espiritual, que deve ser aceito sem questionamentos, mesmo que tais ensinos se tornem ultrapassados amanhã ou depois, por estarem em franca oposição à Bíblia.

E o ‘Escravo’ continuou a fazer previsões ‘bíblicas’, por meio da pena de Rutherford e seus ajudantes. Hoje podemos apenas imaginar o impacto que tais previsões causaram ao rebanho:

"Por conseguinte, nós podemos esperar confiantemente que 1925 marcará o retorno de Abraão, Isaque, Jacó e os profetas fiéis da antiguidade... um cálculo simples dos jubileus traz-nos a este importante fato."- Milhões que Agora Vivem Nunca Morrerão, de 1920 nas págs. 88 a 90 (em inglês).

"... os meses que restam antes do Armagedom." - A Sentinela de 15 de setembro de 1941 na página 288  (em inglês).

E mesmo após os fiascos proféticos relacionados ao fim do mundo, que inicialmente viria em 1914, 1915, 1918, também com respeito à ressurreição dos profetas que acabou não ocorrendo em 1925, ao fim que viria na década de 40, o ‘Escravo’ prosseguiu impassível com suas previsões. Repudiando as previsões anteriores, que haviam supostamente sido elaboradas mediante a atuação do espírito santo de Jeová e servidas aos domésticos “do modo de Jeová”, o ‘Escravo de então’ recebeu uma nova luz, mostrando sem sombra de dúvidas que o fim do atual sistema de coisas viria em 1975. Não era tempo para desânimo, o fim estava às portas e somente os associados à Torre de Vigia seriam salvos. E os estragos causados na vida de inúmeros irmãos novamente não foram poucos. Observe o que disse A Sentinela de 15 de fevereiro de 1969, página 115:

“Devemos presumir, à base deste estudo, que a batalha de Armagedom já terá acabado até o outono de 1975 e que o reinado milenar de Cristo, há muito aguardado, começará então? Possivelmente... A diferença talvez envolva apenas semanas, ou meses, não anos.”

Também a edição de junho de 1974, nas páginas 3 e 4 do Nosso Ministério do Reino:

“Recebemos notícias a respeito de irmãos que venderam sua casa e propriedade e que planejam passar o resto dos seus dias neste velho sistema de coisas empenhados no serviço de pioneiro. Este é certamente um modo excelente de passar o pouco tempo que resta antes de findar o mundo iníquo” – 1 João 2:17

Hoje sabemos que as notícias acerca do fim do mundo em 1975 foram manifestadamente exageradas, pois nada daquilo que fora predito pelo “Escravo Fiel e Discreto” aconteceu. De novo, foi uma época bastante difícil para a comunidade internacional das Testemunhas de Jeová, pois novamente seus líderes os levaram a alimentar falsas expectativas, e ainda assim eles deveriam prosseguir depositando sua confiança neste mesmo grupo de homens. Para muitos foi bastante difícil recomeçar a vida e lidar com a angústia resultante de seu desapontamento. Aqueles que ousaram protestar contra a atitude errática dos homens de Nova York e preferiram se apegar às palavras de Jesus Cristo, em Mateus 24:36 onde lemos: “Acerca daquele dia e daquela hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas unicamente o Pai.”, foram taxados pela organização de apóstatas rebeldes, orgulhosos, inimigos de Deus e filhos do Diabo. Foram expulsos da organização e privados de seu convívio social e familiar. Coube aos irmãos o ônus por mais este fiasco profético. Muitos haviam feito grandes ajustes em suas vidas, confiantes de que todas as suas aflições chegariam ao fim em 1975. Muitos adiaram seus casamentos, abandonaram seus planos de ter filhos, adiaram tratamentos médicos, outros desistiram de suas lavouras ou abandonaram suas casas e empregos a fim de se empenharem com maior desembaraço na obra de pregação, pois não havia nada mais importante a fazer do que avisar a todos, em toda a parte que o fim do mundo conforme o conhecemos viria em poucos anos e segundo o Corpo Governante, isto estava biblicamente provado, pois ‘aproximava-se o fim dos primeiros 6.000 anos da existência do homem e era apropriado que Deus fizesse do sétimo período de mil anos um período sabático de descanso e livramento’, conforme publicado no livro Vida Eterna – na Liberdade dos Filhos de Deus, nas páginas 27 a 29, de 1966.

Não obstante, o ano de 1975 passou e nada de novo se observou debaixo do sol. Uma multidão de pregadores abnegados descobriu mais uma vez que havia empenhado seus melhores esforços, e em muitos casos dedicado seus melhores dias a uma obra mundial de divulgação daquilo que se revelou uma farsa, uma ilusão que novamente os expôs ao ridículo. A organização logo tratou de apontar os verdadeiros culpados por toda esta conversa sobre 1975. Não havia motivos para queixas. Não foi o chamado “Escravo Fiel e Discreto” que agiu como falso profeta, mas os próprios irmãos é que não entenderam a diferença entre uma possibilidade e uma probabilidade. A Sentinela, no seu número de 15 de janeiro de 1977, comentou que não era aconselhável fixar a vista em determinada data, dizendo:

"Caso alguém tenha ficado desapontado, por não seguir este raciocínio, deve agora concentrar-se em reajustar seu ponto de vista, por não ter sido a palavra de Deus que falhou ou o enganou e lhe causou desapontamento, mas, sim, seu próprio entendimento baseado em premissas erradas.”

Segundo a organização, quem enganou os irmãos foi seu próprio entendimento baseado em premissas erradas, e não o “Escravo Fiel e Discreto” que escrevia livros e revistas anunciando o fim do mundo para aquela data.

É verdade que a organização tornou-se a grande empresa que é hoje, graças a estas constantes marcações de datas para o fim, que motivavam o rebanho a um trabalho ainda mais árduo e abnegado que impulsionavam os números para cima, e capitalizava de maneira formidável o grupo.

Após 1975, a “classe do profeta” mais uma vez renovou seus esforços para motivar seu rebanho, usando a eficaz estratégia de apontar para uma nova data à frente e incutir no povo um sempre renovável senso de urgência. Vejamos o que disse A Sentinela de 01 de janeiro de 1989, na página 12:

"O apóstolo Paulo servia de ponta de lança na atividade missionária cristã. Ele também lançava o alicerce para uma obra que seria terminada em nosso século vinte."

O século XXI encontrou inúmeras Testemunhas novamente desapontadas. A obra que deveria terminar dentro do século passado, conforme fora pregado pelo ‘Escravo’, agora será concluída em algum ponto no futuro. A organização desta vez usa outra de suas táticas, deixando de tocar em um assunto até que este se desvaneça na mente dos irmãos, perca a importância de outrora, e gradualmente seja substituído por novas esperanças ou novos entendimentos, que por sua vez deverão também cair por terra e dar lugar a um novo conjunto de dogmas, num processo contínuo de expectativas e desapontamentos. Em 2008 foi publicado o tratado “Gostaria de conhecer a verdade?” Em seu segundo parágrafo, o tratado comenta de modo depreciativo a respeito de livros que se contradizem e que se tornam desatualizados com o tempo. Observe: “...Se for a bibliotecas ou livrarias, talvez encontre milhares de livros afirmando ter as respostas. Mas com freqüência um livro discorda do outro. Alguns parecem estar certos por um tempo, mas logo ficam desatualizados e precisam ser revisados ou substituídos.” Ironicamente, este é exatamente o tipo de livro que sempre foi publicado pela Torre de Vigia. O conjunto da obra, a biblioteca da Torre de Vigia, é um vasto manancial de declarações bombásticas e contraditórias, uma babel de regras e doutrinas em constante mutação, muitas vezes indo e vindo de um ponto de vista a outro, um material que por depender de constante atualização, mantêm as prensas da organização em constante atividade.

O Escravo Fiel e Discreto ainda assim afirma ser usado por Jeová para transmitir Suas instruções aos homens da terra. Afirma servir como profeta de Deus ao proclamar Seus julgamentos e anunciar a vinda de Seu Reino. Mas diante de um histórico nada confiável, o texto de Deuteronômio 18:20-22 nos ajuda a avaliar quão fiel e quão discreto tem sido o ‘profeta hodierno’ :

“No entanto, o profeta que presumir de falar em meu nome alguma palavra que não lhe mandei falar ou que falar em nome de outros deuses, tal profeta terá de morrer. E caso digas no teu coração: “Como saberemos qual a palavra que Jeová não falou?” quando o profeta falar em nome de Jeová e a palavra não suceder nem se cumprir, esta é a palavra que Jeová não falou. O profeta proferiu-a presunçosamente. Não deves ficar amedrontado por causa dele”.

No entanto, não se deve desconsiderar aquilo que a Torre de Vigia já publicou de informação bíblica correta e edificante. Não que o mérito por isso seja do Corpo Governante, mas sim da própria Bíblia, que é amiúde usada como base para inúmeros artigos. Assim como outras organizações religiosas que usam a Bíblia como livro sagrado, a organização também tem publicado artigos proveitosos, que fizeram algum bem na vida de alguns. Porém, todo possível benefício deste contato com a Bíblia fica comprometido quando o adepto precisa aceitar o pacote inteiro de devaneios doutrinais e se curvar ante o completo controle intelectual exercido por seus líderes. O preço a ser pago é abrir mão de sua consciência individual em prol de uma consciência coletiva, elaborada pelo Corpo Governante, se comprometer a defender inúmeros dogmas que não resistem a um escrutínio sério e pertencer a um círculo fechado que se transforma com o tempo em uma espécie de bolha intelectual e social, um refúgio para alguns e prisão para outros tantos.

E não podemos considerar a atuação da organização como algo de somenos importância, ou encarar seus livros e revistas apenas como devaneios literários, como apenas mais um punhado de nulidades religiosas como tantas existentes no mercado, mas devemos nos lembrar do efeito prejudicial que tais ensinamentos exerceram na vida de milhares de pessoas através dos tempos. Muitos já perderam suas vidas ou deixaram de socorrer seus próprios filhos em obediência a este grupo de homens, confortavelmente instalados em seus escritórios em Nova York. Muitos apodreceram em fétidas celas de cadeia suportando condições desumanas ou viram seus filhos ou conjugues serem mortos, obedecendo cegamente a seus líderes religiosos, certos de estarem fielmente obedecendo a Deus, apenas para descobrir anos à frente que aquilo pelo que sofreram, como no caso do antes proibido e agora liberado Serviço Alternativo ao Serviço Militar, foi na verdade mais um erro de interpretação. Ou que a anterior proibição a determinado tratamento de saúde agora liberado, que talvez tenha custado a vida de um filho, foi uma provisão amorosa de Deus, que agora resolvera ajustar um pouco o conceito geral sobre o assunto. Era um ponto de vista equivocado, mas que Jeová agora os havia abençoado com ‘novas luzes’, e aquilo que antes devia ser defendido com o custo da própria vida, agora era uma verdade de outrora, ou como alegou a organização, um mal entendido por parte de alguns irmãos. Não lhe parece isso algo bastante grave? E estas coisas não são desgraças passadas, mas continuam a ocorrer em nossos dias. E não é necessário recorrer a fontes externas para constatar tais coisas, basta examinar a própria literatura da organização, onde está registrada boa parte de sua história. Mas o sábio Corpo Governante que se arvora a ser o ‘Escravo’, não aconselha tal exame e mais ainda, insta fortemente com os irmãos para que, em plena era da comunicação, mantenham-se longe da informação.

Após tantos anos e milhões e milhões de revistas e livros publicados, a maioria deles com conteúdo vetado às Testemunhas de hoje, a organização continua a colocar seus escritos em pé de igualdade com a Bíblica, como se tais escritos descartáveis, fossem uma provisão da parte de Deus. A Sentinela de 15 de junho de 2009 nos parágrafos 16 a 18 declara:

“Será que todos esses ungidos, espalhados por toda a terra, são parte de uma rede de comunicação global, que de alguma forma está envolvida na revelação de novas verdades espirituais? Não... Como já mencionado, no primeiro século, todos estavam envolvidos na vital obra de pregação. Mas só um número bem pequeno foi usado para escrever os livros da Bíblia e supervisionar a congregação cristã. Similarmente nos dias de hoje, um número limitado de homens ungidos tem a responsabilidade de representar a classe-escravo... Eles compõem o Corpo Governante das Testemunhas de Jeová. Estes homens ungidos por espírito supervisionam a obra do reino e o programa de alimentação espiritual.”

Talvez para alguns seja fácil simplesmente dar de ombros, ignorar a informação e achar que a responsabilidade por tantos erros cabe apenas aos membros da dianteira da organização, ou que as coisas de Jeová são tortuosas assim mesmo, mas obviamente tal responsabilidade recai sobre todos aqueles que adotam tais ensinos antibíblicos e os divulgam como se bíblicos fossem. Dizer que o Criador tem enviado para seu povo tantos ensinamentos errados me parece um tanto quanto absurdo e não combina com a Bíblia que diz o seguinte em Tiago 1:17: “Toda boa dádiva e todo presente perfeito vem de cima, pois desce do Pai das luzes [celestiais], com quem não há variação da virada da sombra.” Alguns talvez achem que podem fixar-se apenas nos pontos positivos da organização, em seus bons conselhos, em suas boas obras e ignorar todo o resto, mas este não é um pensamento bíblico.

Ser Testemunha de Jeová não significa apenas acreditar nas Escrituras, em Deus, em Cristo e levar um modo de vida cristão. Significa também e como fator primordial, crer e defender que certo grupo de homens um tanto quanto confusos, de fins do século XIX, na América do Norte, foi escolhido por Deus para ensinar e mais do que isso, para impor suas interpretações bíblicas tantas vezes provadas falsas e sem nexo algum. Significa acreditar que Jesus se deleitou ao examinar o alimento servido primeiro por Russel e depois por Rutherford e seus amigos e ver ali tantas explicações bíblicas tendo por base as galerias da Grande Pirâmide de Gizé. Implica em se acreditar que Jeová, apesar de tudo isso continuou a apoiar e dirigir tal organização, somente para que anos à frente fosse soado o aviso de que o Armagedom viria na década de 40, depois em 1975, que a geração de 1914 não passaria antes de vir o fim e tantas outras verdades descartáveis. Uma organização que até os dias atuais continua a proclamar que o fim está às portas e a menos que as pessoas se tornem apoiadoras do Corpo Governante, estudando e distribuindo suas literaturas, serão destruídas no Armagedom. Significa pertencer a uma instituição religiosa cujas origens estão envoltas em misticismo, num fundamentalismo apocalíptico que se tornou sua marca registrada, e que se tornou uma grande corporação, uma empresa de grande porte, liderada por um grupo de homens que luta para preservar vivos os muitos mitos que até hoje sustentaram sua religião, mesmo em face de tantos fiascos proféticos e ao custo de tantas vidas prejudicadas, algumas irremediavelmente. E um de tais mitos arduamente defendido pelo Corpo Governante é o de que eles mesmos representam o coletivo “Escravo Fiel e Discreto”.

 

 

 

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