Artigo de

Sebastião de Souza Duarte

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Minha Carta de Dissociação

 

Petrópolis, 23 de setembro de 2005

À Congregação Central de Petrópolis

Prezados irmãos;

Sirvo-me da presente para solicitar minha dissociação.

Não tenho intenção de detalhar meus motivos, pois não espero ser compreendido por vocês, nem isso é algo relevante. Não obstante, gostaria de deixar bem claro, em nome de minha reputação, de meu bom nome, que não o faço por algum motivo fútil ou iníquo, pois não infringi e nem pretendo infringir nenhuma das leis de Jeová. Faço-o por uma questão de consciência. Não posso mais continuar tendo, com uma boa consciência, meu nome relacionado ao conjunto de ensinamentos anti-bíblicos da Torre de Vigia, com quem estive associado nos últimos vinte anos. ― 1Timóteo 1:19

Poderia simplesmente fazer como milhares de irmãos, que continuam associados com a organização, apesar de terem plena ciência de seus equívocos, contradições, erros e falácias, e continuar desfrutando da associação com os irmãos, e mantendo uma boa “reputação” dentro da organização. Enfim, ir levando, mantendo as aparências e o silêncio reverente como muitos fazem... Não posso, no entanto, ser falso para comigo mesmo, para com os irmãos e principalmente para com Jeová Deus.

Não pretendo doravante, gastar meu tempo falando mal da organização, expondo suas doutrinas equivocadas, causando inquietações entre os irmãos ou advogar outro sistema religioso. Aqueles que são sinceros e honestos e que estudam a Bíblia seriamente, que aliás são poucos em nosso meio, que tirem suas próprias conclusões e decidam entre ser leais a uma organização humana equivocada em seus ensinos, ou ao Todo-Poderoso. Portanto, estejam tranquilos quanto a isto. Não sou uma ameaça à suposta “unidade do rebanho ”. ― Atos 17:10-11.

Não cairei também no erro de dizer que tudo é ruim e errado na organização, naturalmente. Dizer isso seria incoerente, desonesto e deporia contra min mesmo, pois se uma vez fui atraído à organização, foi por seus méritos, por seus ensinamentos quando realmente baseados na Bíblia, que são imutáveis; nos seus acertos, que são evidentes. Existe de fato um grande potencial para o bem. A Sociedade merece elogios pelo bem que faz na vida de muitos irmãos, transmitindo-lhes preceitos bíblicos, assim como muitas organizações humanas também o fazem em maior ou menor grau. Esses acertos no entanto, não justificam seu absurdo apego a tradições infundadas e até prejudiciais, a manipulações mirabolantes de textos Bíblicos, as citações Bíblicas e acadêmicas incompletas e fora do contexto, à frequente desonestidade intelectual, a defesa de cronologias notoriamente equivocadas, a adoção de normas humanas sem nenhum amparo nas Escrituras Sagradas, seus inúmeros fiascos proféticos, fruto de mera especulação, seu lamentável apego a um pseudo-cristianismo repleto de doutrinas humanas e devaneios de origem milleristas/segundo-adventistas. Estou certo de que estão cientes de tais coisas, a menos que sejam muito obtusos. Afinal, o que poderia justificar, para aqueles que são sinceros e que possuem genuíno conhecimento Bíblico, o apoio a uma organização legalista, baseada em regras que suprimem o pleno uso da consciência Bíblica individual de nossos irmãos? Quão diferente da liberdade e da simplicidade que há em Cristo. Uma organização de caráter secular, legalista, industrial e bilionária definitivamente não reflete o modelo apostólico. O problema não é o conceito de organização, mas o mito em torno da mesma. ― 1Coríntios 4:6; Mateus 15:9; Revelação 22:18-19; Colossenses 2:8; Marcos 7:13; Mateus 23:24.

Estou certo de que doravante serei tratado pelos irmãos segundo as orientações da Sociedade, sendo ignorado e evitado por aqueles a quem amo e que continuarei a amar, e que durante toda uma vida me consideraram um amigo, um irmão. Serei assim tratado apesar da total falta de apoio Bíblico para tal proceder, visto que as Escrituras Sagradas nos orientam e autorizam a tratar assim somente “os que se dizem irmãos” e que são “fornicadores, gananciosos, idólatras, injuriadores, beberrões, extorsores,” “o anti-Cristo,” “aqueles que não permanecem no ensino do Cristo”, e que portanto se posicionam contra os claros ensinos bíblicos, conforme registrado em 1Coríntios 5:11-13, 2João7-11 e Romanos 16:17-18. Apesar de não me enquadrar absolutamente em nenhuma destas definições, sei que ainda assim, serei repudiado e até mesmo difamado por alguns irmãos, pois o que conta neste caso é a aderência às regras e padrões organizacionais, não às claras, justas e amorosas normas Bíblicas. Sei que muitos dirão falsamente: “― É um coitado, que perdeu a fé e afastou-se de Jeová”. Nada poderia estar mais longe da verdade. Outros me chamarão injustamente de iníquo por simplesmente ter ousado discordar do corpo governante,  “o canal”, aderindo apenas à Bíblia como autoridade. Mas não o farão por mal, estarão apenas seguindo o “padrão organizacional”. Gostaria muitíssimo de poder continuar tendo-os como amigos, mas sei que isso me será negado, como uma punição por ousar discordar. Essa é uma perda incomensurável e motivo de grande angústia, quase insuportável. Mas entendo que este é o preço que tenho de pagar para estar em paz com minha consciência perante Jeová.

Infelizmente, amados irmãos se converterão instantaneamente em juízes e algozes, crentes de estarem seguindo as “amorosas” orientações de Deus, reveladas a seu “mordomo”. Ledo engano. Estarão obedientemente abdicando de seu direito de pensar por si mesmos e de pautar seu comportamento apenas na Palavra de Deus e não na mera palavra de homens. Estarão apenas acatando as ordens de homens equivocados, inconstantes, vítimas de vítimas, temerosos por terem sua pretensa “autoridade” eclesiástica questionada, ávidos por silenciar qualquer acorde dissonante, e se sentirão justificados por agirem assim. Pode ser uma posição cômoda, mas perigosa.

 Quanto aos procedimentos “judicativos” que se seguirão, faço minhas as palavras de Paulo em 1Coríntios 4:3-4: “Ora, para mim é um assunto muito trivial o de eu ser examinado por vós ou por um tribunal humano. Até mesmo eu não me examino a mim mesmo. Pois não estou cônscio de nada contra mim mesmo. Contudo, não é por isso que eu seja mostrado justo, mas quem me examina é Jeová.”

Não obstante, e visto que todos prestaremos contas a Deus de nossas palavras e ações, gostaria de alertar os irmãos, em seu próprio benefício, acerca das palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo e do Rei Salomão, conforme registradas em Mateus 5:22, Mateus 12:36 e Provérbios 17:15.

 Gostaria de enfatizar também que minha decisão é de caráter estritamente pessoal, não envolvendo nenhum de meus familiares. Portanto, eles continuam sentindo-se parte do rebanho aos seus cuidados, de quem aliás prestareis conta, e continuam a contar com seu cuidado pastoral, que infelizmente tem se mostrado nulo e irresponsável. Mas não os julgo por isso. Já temos quem o faça. 1Pedro 5:2-3 e Atos 20:28.

 Estejam certos de minhas orações a Jeová em vosso favor, de meu amor incondicional e de minhas saudades. Que Jeová Deus possa iluminar-lhes o coração e dar-lhes tanto o entendimento e a sabedoria que dele provêm, como a coragem necessária para adotarem uma postura digna Dele. Desejo-lhes saúde, paz e principalmente, prosperidade espiritual. ― Deuteronômio 31:6.

Com sincera afeição,

Sebastião de Souza Duarte