Artigo de

Sebastião de Souza Duarte

Escreva para mim: ssouzaduarte@ig.com.br

 
 

Novo Livro: Viva Tendo em Mente o Dia de Jeová – Alguns Comentários

Um dos eventos anuais mais importantes para as Testemunhas de Jeová são seus Congressos de Distrito, quando milhares se reúnem durante três dias, para uma intensa agenda de discursos. E um dos pontos máximos de tais reuniões são os lançamentos de novas publicações cuidadosamente preparadas pela Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados e seu Corpo Governante, e que nos meses à frente serão estudadas nas Congregações e muitas vezes distribuídas ao público.

Nos congressos realizados durante o ano de 2006, como de costume, ocorreu o lançamento de um novo livro de 192 páginas, intitulado Viva Tendo em Mente o Dia de Jeová.

Trata-se de uma consideração dos doze livros bíblicos conhecidos como “Profetas Menores”, atribuídos aos Profetas Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias.

À primeira vista, pode parecer bastante proveitosa a consideração dessa nova publicação, afinal, o apóstolo Paulo, em 2 Timóteo 3:16 declara: “Toda a Escritura é proveitosa para ensinar, para repreender, para endireitar as coisas, para disciplinar em justiça.” De modo que podemos tirar real proveito ao analisarmos os relatos sobre os antigos Profetas, suas declarações e os tratos de Deus com estes homens.

A Associação Torre de Vigia, nas páginas onze e doze, parágrafo 17 do citado livro, declara o objetivo de tal publicação ao dizer:

“... o livro que você tem em mãos não é um estudo do significado figurativo, ou simbólico, do livro de Jonas ou dos outros 11 livros. Tampouco é uma análise versículo-por-versículo. Em vez disso, o enfoque principal são as informações desses livros que podemos aplicar na vida diária. Pergunte-se: ‘Nesses 12 livros, que orientações úteis ou conselhos divinos Jeová me dá? Como esses livros podem me ajudar ‘a viver com bom juízo, justiça e devoção piedosa no meio deste atual sistema’?”

Não surpreende que a análise proposta não aborde o significado figurativo ou simbólico dos livros proféticos, pois atualmente é algo bastante difícil para o Corpo Governante lidar com o emaranhado de décadas de especulações e predições falsas e não cumpridas, sendo mais conveniente sequer tocar em questões espinhosas e controversas. Mais conveniente se faz manter a superficialidade.

De fato, a publicação transmite ao leitor muitos preceitos e conselhos bíblicos excelentes a serem aplicados na vida cotidiana e familiar, com grande proveito. E não poderia ser diferente, visto que tais conselhos são extraídos da Palavra de Deus, a Bíblia Sagrada. No entanto, o que compromete este aparente nobre objetivo são os inúmeros conceitos distorcidos e ensinos equivocados, sutilmente transmitidos, a reafirmação requentada de velhos dogmas não-bíblicos. E tais conceitos são inculcados nas mentes dos leitores incautos de modo muitas vezes dissimulado, porém, de forma segura e impositiva, como se fossem verdades incontestáveis, firmemente estabelecidas e amparadas pelas Escrituras Sagradas, na medida em que não se revela ao leitor o histórico sinuoso de tais doutrinas, nem sua origem controversa.

"... o que compromete este aparente nobre objetivo são os inúmeros conceitos distorcidos e ensinos equivocados, sutilmente transmitidos, a reafirmação requentada de velhos dogmas não-bíblicos..."

Ademais, uma análise detida e cuidadosa revela um objetivo ainda mais urgente por trás de mais esta publicação da Torre de Vigia: manter as fileiras de adeptos submissos ao todo-poderoso Corpo Governante e sua autoritária organização, ao mesmo tempo que tenta reverter a tendência cada vez mais acentuada para o desânimo, para o desapontamento e para a indiferença. Uma tentativa de recuperar o perdido “senso de urgência”, ofuscado, talvez de forma irreversível, pelos inúmeros e periódicos fracassos proféticos do Corpo Governante.

 Logo no capítulo 2, na página 25, parágrafo 17, observamos um exemplo interessante de como uma mentira é apresentada como sendo verdade, e de uma maneira tal, que deixa pouca margem para que o leitor desinformado ou desatento questione a veracidade da informação. Vejamos:

“Habacuque profetizou num período turbulento da história de Judá, depois do reinado do bom Rei Josias, mas antes da destruição de Jerusalém em 607 AEC.”

A Testemunha de Jeová mediana ao se deparar com a data 607 AEC, talvez a considere de pouca ou nenhuma importância, como apenas um detalhe, como algo com o que não deveria se preocupar. Não obstante, sobre esta data está fundamentada boa parte da doutrina da Torre de Vigia, e uma mudança nesta informação colocaria em ruínas toda a estrutura de autoridade da organização sobre suas fileiras.

De modo que convenientemente, o leitor não é informado de que esta data está em conflito com a opinião de todas as autoridades em história antiga, com todas as enciclopédias e livros de arqueologia e história, que baseados em farta documentação hoje disponível, datam em 587 AEC a queda de Jerusalém diante de Nabucodonosor, rei de Babilônia.

"... todas as autoridades em história antiga... datam em 587 AEC a queda de Jerusalém diante de Nabucodonosor, rei de Babilônia."

O leitor não é igualmente informado de que a Torre de Vigia através de suas publicações insiste, vez após vez, em deturpar declarações de historiadores na tentativa de defender sua cronologia equivocada. O exemplo a seguir, extraído da obra The Gentile Times Reconsidered (Os Tempos dos Gentios Reconsiderados) (Atlanta: Commentary Press, 1998, terceira edição) de Carl Olof Jonsson, pp. i-viii., ilustra tal tentativa no mínimo desonesta, mas tão vergonhosa, que chega a ser bizarra:

“A-2: Deturpação do que os peritos dizem:

Em apoio das suas razões (da Torre de Vigia) para rejeitar a cronologia Neo-Babilônica estabelecida por historiadores, é citada uma autoridade bem conhecida em história do Oriente Próximo.

"Evidentemente por reconhecer tais fatos," ― que o atual quadro da história Babilônica pode estar errado, que os antigos sacerdotes e reis podem ter alterado os registos Neo-Babilônicos, e que matéria ainda a ser descoberta poderia alterar drasticamente a cronologia do período:

"o Professor Edward F. Campbell Jr. apresentou uma tabela que inclui cronologia neobabilônica com a cautela: "Nem se precisa dizer que estas listas são provisórias. Quanto mais se estuda a complexidade dos problemas cronológicos no antigo Oriente Próximo, tanto menos se está inclinado a pensar numa apresentação como sendo definitiva. Por este motivo, o termo circa [cerca de] poderia ser usado ainda mais liberalmente do que é."

Esta citação é tirada de um capítulo escrito por Edward F. Campbell, Jr., que apareceu pela primeira vez em The Bible and the Ancient Near East (BANE), um trabalho editado por G. Ernest Wright e publicado por Routledge e Kegan Paul, de Londres, em 1961. Contudo, a Watch Tower Society não mencionou que o quadro mencionado neste trabalho abrange as cronologias do Egito, Palestina, Síria, Ásia Menor, Assíria e Babilônia, desde c. 3800 A.E.C. até à data da morte de Alexandre o Grande, em 323 A.E.C., e embora o termo circa [cerca de] seja colocado antes de muitos dos reinos apresentados nas listas deste longo período, esse termo não é colocado antes de nenhum dos reinados apresentados para os reis do período Neo-Babilônico!

A questão é: Quando o Professor Campbell, em cooperação com o Professor David N. Freedman, elaborou as listas cronológicas na obra The Bible and the Ancient Near East (BANE), será que ele pensava que "o atual quadro da história babilônica pode ser enganoso ou errado" no que diz respeito à era Neo-Babilônica? Será que ele pensava que existia alguma possibilidade de que "antigos sacerdotes e reis às vezes alteravam" os registos Neo-Babilônicos "para os seus próprios fins"? Estava ele, por alguma razão, preparado para colocar o termo circa [cerca de] antes de qualquer dos reinados dos reis Neo-Babilônicos? Por outras palavras, será que a Watch Tower Society dá uma imagem correta das opiniões de Campbell e Freedman?

Quando estas perguntas foram colocadas ao Dr. Campbell, ele escreveu em resposta:

Conforme talvez já tenha concluído, estou consternado pelo uso que a Watch Tower Society fez das listas cronológicas de Noel Freedman e minhas. Temo que alguns sujeitos com excesso de zelo se aproveitarão de qualquer minudência para apoiar as suas conclusões previamente elaboradas. Este é certamente um caso em que se fez exatamente isso.

Deixe-me primeiro explicar que a divisão de responsabilidades nos quadros cronológicos em BANE atribuiu-me a maior parte da cronologia do Oriente Próximo e as datas bíblicas ao Professor David Noel Freedman, agora na University of Michigan. Nós de fato falamos acerca das qualificações que colocamos antes dos nossos quadros, mas não houve absolutamente nenhuma intenção de sugerir que havia um desfasamento de vinte anos nas datas relacionadas com Babilônia e Judá. Estou certo de que o Dr. Freedman torna explícito algures no texto do capítulo do BANE, que a data 587/6 não pode estar errada por mais de um ano, e a data 597 é uma das poucas datas seguras em todo o nosso repertório cronológico. Sei que ele continua convencido disto, tal como eu. Não existe absolutamente nenhuma evidência de que eu tenha conhecimento, que sugira a possibilidade de as datas em The Babilonian Chronicle [A Crônica Babilônica] terem sido alteradas por sacerdotes ou reis, por razões piedosas. Estou completamente de acordo com Grayson.

O Dr. Campbell enviou as perguntas que lhe foram feitas ao Dr. Freedman, para lhe dar uma oportunidade de expressar os seus pontos de vista. Freedman tinha a dizer o seguinte sobre o assunto:

"... Concordo inteiramente com tudo o que o Dr. Campbell lhe escreveu. É verdade que existem algumas incertezas acerca da cronologia bíblica para este período, mas essas incertezas originam-se em informação confusa e talvez conflitante da Bíblia, e não têm nada que ver com a informação e evidência cronológica para o período Neo-Babilônico proveniente de inscrições cuneiformes e outras fontes não bíblicas. Este é um dos períodos mais bem conhecidos do mundo antigo e podemos estar certos de que as datas estão corretas, com uma margem de erro de um ano ou algo semelhante, e muitas das datas são exatas com uma precisão de dia e mês. Não existe, portanto, qualquer base para os comentários ou juízos feitos pela Watchtower Society baseados num comentário acerca da nossa incerteza. O que eu tinha especificamente em mente era o desacordo entre os peritos quanto a se a queda de Jerusalém deve ser datada em 587 ou 586. Peritos eminentes estão em desacordo sobre este ponto e infelizmente não temos a crônica Babilônica para esse episódio como temos para a captura de Jerusalém em 587 (esta data está agora fixada com exatidão). Mas esse é apenas um debate acerca de um ano, no máximo (587 ou 586), portanto é irrelevante para as opiniões das Testemunhas de Jeová que aparentemente querem rescrever toda a história dessa época e mudar as datas de forma muito dramática. Não existe qualquer base para isso."

Assim, a Watch Tower Society, na sua tentativa de encontrar apoio para a data 607 A.E.C., deturpou as opiniões do Dr. Campbell e do Dr. Freedman. Nenhum deles acredita que os sacerdotes ou reis da antiguidade podem ter "altera[do] os registos" do período Neo-Babilônico, ou que "matéria ainda a ser descoberta poderá alterar drasticamente a cronologia do período em questão." E nenhum deles está disposto a colocar o termo circa [cerca de] antes de qualquer dos reinados apresentados nas suas listas para os reis da era Neo-Babilônica.

A única incerteza que eles assinalam é saber se a data da desolação de Jerusalém deve ser colocada em 587 ou em 586 A.E.C., e esta incerteza não provém de quaisquer erros ou obscuridades nas fontes extra-bíblicas, mas sim dos números aparentemente conflitantes dados na Bíblia, evidentemente as referências à destruição de Jerusalém como ocorrendo, num caso, no décimo oitavo ano [do reinado] de Nabucodonosor, e noutro caso, no seu décimo nono ano. ― Jeremias 52:28, 29; 2 Reis 25:8."

Mas afinal, qual é a importância da data 607 AEC para a Torre de Vigia, que a leva ao ridículo de continuar publicando uma informação falsa, que a coloca numa posição isolada de todo o resto do mundo? Segundo sua singular cronologia, 607 AEC é o ponto de partida para se calcular a data da entronização de Jesus Cristo no Reino Celestial em 1914 EC, sua visita de inspeção ao seu templo espiritual três anos e meio depois, em 1918 EC e em resultado disso, a suposta designação em 1919 EC do “Escravo Fiel e Discreto” (leia-se Corpo Governante de New York, U.S.A.) sobre todos os bens de Cristo na terra (especulando-se sobre Daniel 4, Malaquias 3 e Joel 2). Ou seja: retire-se a data de 607 AEC e a pretensa autoridade da Torre de Vigia sobre seu rebanho e sua pretensa designação cairá por terra.

Fica fácil entender os motivos que levam a Torre de Vigia a se apegar a esta informação falsa e publicá-la vez após vez, insistindo em chamá-la de “fato histórico”, (veja na página 154, parágrafo 4) apesar da total falta de evidência bíblica ou científica e de cada vez mais pessoas estarem cientes desta falácia. Não se trata de apenas uma questão pequena envolvendo datas e números, mas trata-se de uma mentira religiosa repetida ao limite, assegurando a perpetuação de uma mentira ainda maior, mas igualmente desprezível.

CAPÍTULO 3 - “O Dia de Jeová – Um Assunto Vital”

Neste capítulo, encontramos a seguinte declaração, na página 29, parágrafo 1:

"ESTÁ próximo o grande dia de Jeová. Está próximo e se apressa muitíssimo." (Sofonias 1:14) Vez após vez, os profetas de Deus alertaram sobre o iminente dia de Jeová. Em geral, eles destacaram como a aproximação desse dia devia influir no cotidiano das pessoas, na sua moral e na sua conduta. Suas proclamações tinham sempre o tom de urgência. Se você tivesse ouvido pessoalmente essas mensagens, como teria reagido?"

Apesar da Torre de Vigia dizer que não está analisando o significado simbólico das Escrituras nesta publicação, ela explica que as predições dos “Profetas Menores” tiveram um cumprimento inicial com a destruição de Jerusalém por Babilônia, depois por Roma, e que ainda terá um cumprimento maior e final, quando então Jeová acertará as contas com todas as nações da terra, na batalha do Armagedom. (página 36, parágrafos 13 e 14)

Naturalmente, a perspectiva de sermos julgados por nossas ações, deve nos mover a viver em harmonia com a vontade de Deus expressa na Bíblia e a viver na expectativa deste julgamento.

De modo que o livro prossegue dizendo:

“...(Mateus 24:21, 29) Isso nos ajuda a determinar quando ocorrerá o dia de Jeová. Será no futuro próximo.” (página 37, parágrafo 15)

 “Se você tiver essa atitude de espera, dará evidências de que está preparado, na expectativa do dia de Jeová. Não estará preocupado com a data em que esse dia virá, ou há quanto tempo o espera.” (página 40, parágrafo 20) (negrito acrescentado)

Ao ler o acima, talvez se imagine  que esta sempre foi a atitude da Torre de Vigia, de não estar preocupada com a data em que este dia virá. O leitor não é informado sobre as declarações bombásticas já publicadas pela Torre de Vigia, de suas inúmeras previsões fracassadas sobre o fim do mundo, tais como as que seguem:

 Inúmeras outras citações poderiam ser feitas, todas elas extraídas das publicações da Torre de Vigia, todas marcando uma data para o Grande Dia de Jeová, para “o fim do atual sistema de coisas”. Terá a Torre de Vigia, nesta e em inúmeras outras situações, adotado uma atitude de espera, em harmonia com as palavras do próprio Cristo que disse em Mateus 24:36: “Acerca daquele dia e daquela hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas unicamente o Pai.”, ou terá agido como falso profeta em harmonia com o que diz Deuteronômio 18:20-22: “‘No entanto, o profeta que presumir de falar em meu nome alguma palavra que não lhe mandei falar ou que falar em nome de outros deuses, tal profeta terá de morrer. E caso digas no teu coração: “Como saberemos qual a palavra que Jeová não falou?” quando o profeta falar em nome de Jeová e a palavra não suceder nem se cumprir, esta é a palavra que Jeová não falou. O profeta proferiu-a presunçosamente. Não deves ficar amedrontado por causa dele.’”, fazendo previsões que influíram de modo adverso na vida de milhares de pessoas que abandonaram negócios, carreiras, estudos, deixaram de casar-se, de ter filhos, mudaram-se para regiões remotas, longe de suas famílias, para divulgar tais expectativas infundadas, adiaram tratamentos de saúde, acreditando que a Torre de Vigia estava de fato sendo usada por Deus para soar o aviso do fim iminente? Convenientemente, tais previsões e a chamada à ação para se fazer soar tal anúncio, foi como de costume apresentada à comunidade de testemunhas, como sendo o “alimento espiritual no tempo apropriado”, vindo de Jeová, que alegadamente tem usado o Corpo Governante como seu “porta-voz”, “canal de comunicação” e “profeta hodierno”.   

Importante lembrar que todos os que ousaram discordar de tais previsões, foram taxados de apóstatas, rebeldes, filhos de Satanás, acusados de “tomar o partido do homem que é contra a lei” e expulsos da organização e do convívio de amigos e parentes. Os que relutaram em pregar tais “boas novas”, foram chamados de indolentes e de fracos em sentido espiritual. Aos leitores atuais, nada disso é revelado. Uma Testemunha de Jeová mediana, sequer imagina esse passado doutrinal controverso, pois os membros do movimento são ameaçados com severa disciplina e até mesmo com desassociação, se forem flagrados lendo matéria dissidente, ou mesmo conversando com as indesejáveis e tagarelas ex-testemunhas.

Seguindo na consideração do livro Viva Tendo em Mente o Dia de Jeová, muitas informações questionáveis, mera propaganda organizacional nos saltam aos olhos. Mas considero interessante comentar o uso freqüente de expressões de impacto, de linguagem impositiva, a aplicação de técnicas de persuasão bem elaboradas. Vejamos apenas sete exemplos do uso de tal linguagem (os negritos foram acrescentados):

EXEMPLO 1

Capítulo 5,

parágrafo 15,

página 64

"Você sabe que a pregação das boas novas é vital. (Mateus 24:14; Atos 1:8)"

EXEMPLO 2

Capítulo 5,

parágrafo 16,

páginas 64-5

"Como outro exemplo, considere a nossa obrigação de assistir às reuniões cristãs, cuja importância você reconhece. (Hebreus 10:24, 25)"

EXEMPLO 3

Capítulo 12,

parágrafo 4,

página 154

"E você sabe: o que eles esperavam se tornou fato histórico em 607 AEC."

EXEMPLO 4

Capítulo 12, parágrafo 19,

página 162

"Você sabe que a nação inimiga (Babilônia) que devastou Edom também havia executado a punição de Deus contra seu povo infiel. Em 607 AEC, os babilônios destruíram Jerusalém e levaram os judeus ao exílio"

EXEMPLO 5

Capítulo 14,

parágrafo 3,

página 180

"É certo também que, em lugar daquela nação, Deus escolheu 'o Israel de Deus', uma nação espiritual de 144.000 membros dentre todas as nações.(Gálatas 6:16; Romanos 3:25, 26)"

EXEMPLO 6

Capítulo 14,

parágrafo 4,

página 180

"O cumprimento de profecias bíblicas confirma que em 1914 Jesus Cristo foi  empossado como Rei do Reino celestial de Jeová."

EXEMPLO 7

Capítulo 14,

parágrafos 4, 5,

páginas 180-1

"Veio então o tempo para Jesus identificar um grupo de cristãos que merecia a aprovação divina”

... "Jeová tornou-se “testemunha veloz contra” tal sistema, e você sabe que seu julgamento desfavorável foi justo. (Malaquias 3:5) Mas depois que o Reino de Deus foi estabelecido, havia um grupo de cristãos verdadeiros que servia nos pátios do templo espiritual de Deus e foi leal a ele sob severas provas."

O leitor descuidado é induzido a considerar tais afirmações como se fossem verdades inquestionáveis. Mas o que revelam os fatos? Vejamos:

 

EXEMPLO 1

O exemplo número 1 deixa de esclarecer que para a Torre de Vigia, pregar as boas novas consiste primariamente em empenhar-se no trabalho de casa em casa, de forma padronizada, distribuindo suas publicações sob a direção da congregação local.

Isso fica claro ao notarmos a fotografia nesta mesma página que mostra um casal no “campo”, pregando de casa em casa, naquilo que se tornou uma marca registrada das Testemunhas de Jeová. Naturalmente, a importância de se pregar as boas novas, nas infinitas modalidade que existem, é inquestionável. Mas, quando uma religião engana seus membros afirmando que existem antecedentes bíblicos de certa modalidade específica de pregação e dá a esta modalidade uma importância preponderante, tornando-a praticamente uma regra de lei, algo está terrivelmente errado. A declaração do livro pode ser correta em si mesma, mas torna-se altamente questionável, se considerarmos o que está envolvido nela, segundo a ótica do Corpo Governante.

O novo livro não esclarece que os textos usados para tentar confirmar tal antecedente bíblico, nada falam de Jesus e seus discípulos indo de porta em porta, de casa em casa pregando, a exemplo do que fazem as Testemunhas de Jeová. A importância dada a esta modalidade de pregação específica é tão evidente, que se um estudante, sem justificativa ou razão aparente, recusar-se a participar da  pregação de casa em casa, será frequentemente considerado imaturo, despreparado e consequentemente inapto ao batismo, mesmo que se prontifique a pregar de modo informal, nas inúmeras outras modalidades de pregação. 

O livro não esclarece ao leitor que no texto de Atos 20:20, a expressão grega ”Kat' oikous” vertida na Tradução do Novo Mundo como "de casa em casa" seria mais apropriadamente traduzida  “em lares particulares” como mostra a própria Tradução do Novo Mundo ao traduzir Atos 5:42, onde aparece a mesma expressão grega e na nota de rodapé de Atos 20:20 da Tradução do Novo Mundo com Referências.

E o leitor não fica sabendo que quando a Torre de Vigia usa o texto de Mateus 10:9-14 e Lucas 10:1-16 para tentar justificar biblicamente sua insistência em seu método peculiar de pregação, ela omite as instruções adicionais de Jesus a seus discípulos, a saber "ficai ali até partirdes", "ficai nessa casa, comendo e bebendo as coisas que vos derem.... Não vos estejais transferindo de casa em casa." Estas palavras quase nunca são discutidas nas publicações da Torre de Vigia porque tornam evidente que Jesus falava não sobre testemunho casa em casa ou porta a porta, mas sobre obter alojamento.

De modo que aquilo que foi anunciado de forma tão positiva, como se fora algo definitivo, a pura expressão da verdade, algo que segundo o Corpo Governante “você sabe”, não resiste a uma análise bíblica séria quando considerado tudo o que está envolvido por trás desta declaração aparentemente correta.

 

EXEMPLO 2

O exemplo 2 é um apelo para que as Testemunha de Jeová, cada dia mais ausentes, mantenham-se assíduas nas suas cinco reuniões semanais, onde são bombardeadas com um fluxo contínuo e repetitivo das mesmas velhas doutrinas, de conceitos e infinitas regras meramente humanas e a um programa muito eficaz de condicionamento mental. Naturalmente o conselho bíblico de se reunir é excelente, mas quando para se fazer isso, deve-se abrir mão de sua própria consciência religiosa e se submeter por horas a fio, dia após dia a uma verdadeira torrente de mentiras e equívocos, o sacrifício é por demais penoso. Mas se você for uma das Testemunhas de Jeová não questione nem se queixe desta rotina de reuniões opressivas e enfadonhas, mesmo que por causa delas, lhe falte tempo até mesmo para dedicar-se adequadamente aos seus filhos. A importância de tais enfadonhos “banquetes espirituais” deve ser algo que “você reconhece”, mesmo que a matéria apresentada hoje seja descartada como ultrapassada amanhã, como sempre foi feito. Mesmo que boa parte da matéria servida em tais “banquetes”, seja matéria que vai muito “além das coisas escritas”. (1 Coríntios 4:6)

 

EXEMPLOS 3 E 4

Os pontos 3 e 4, já consideramos brevemente. Trata-se meramente de se apresentar uma mentira como se fosse “fato histórico”. Deve-se aceitar isso sem questionamentos, a superficialidade da matéria induz a isso. Se está certo ou errado, pouco importa, é assim e pronto. O sábio e amoroso Corpo Governante já decidiu em quê você deve acreditar. Por isso ele declara de forma imperativa: “você sabe” que Jerusalém caiu em 607 AEC. Mas não consulte enciclopédias e não incomode os historiadores, apenas confie na organização.

"Mas não consulte enciclopédias e não incomode os historiadores, apenas confie na organização."

 

EXEMPLO 5

O ensinamento apresentado no exemplo 5, onde se afirma que o cumprimento de profecias bíblicas “confirma” a entronização de Cristo como Rei em 1914 EC, é igualmente questionável. Vamos analisar brevemente apenas uma de tais profecias em questão. Jesus disse sobre os sinais de sua vinda e da terminação do sistema de coisas: “Porque nação se levantará contra nação e reino contra reino, e haverá escassez de víveres e terremotos num lugar após outro.” Mateus 24:7. A Torre de vigia explica que tendo o reino de Cristo sido estabelecido nos céus em 1914 EC, a humanidade experimenta a partir de então um aumento significativo no número de guerras. Afirma que o mundo perdeu a paz irremediavelmente, com o advento da Primeira Guerra Mundial, que segundo a Despertai! de 22 de março de 1993, página 6, ceifou 14 milhões de vidas (9 milhões de soldados e 5 milhões de civis).

Posteriormente, a Torre de Vigia afirma na edição inglesa de A Sentinela de 15 de outubro de 1975, página 633, que “(A Primeira Guerra Mundial) foi muito maior do que todas as guerras anteriores, até mesmo 'sete vezes maior do que todas as principais guerras durante os 2.400 anos precedentes combinadas.') - (veja também a edição inglesa de A Sentinela de 15 de abril de 1982, página 8.) Esta informação é correta? (Veja o box ao lado)

Infelizmente, foge ao conhecimento da maioria dos leitores da Watch Tower, que a obra A History of the Modern World Since 1815 página 632, de Palmer & Colton, relata que a Rebelião de Taiping (1850-1864), foi uma guerra civil chinesa do século XIX, que ceifou de 20 a 30 milhões de vidas. Este fato histórico é reconhecido pela própria Torre de Vigia, que se contradiz totalmente, no seu número de Despertai! 22 de março de 1982, na página 7, em inglês, quando diz que o número de vítimas da Rebelião de Taiping no século XIX, foi de "possivelmente 40 milhões". Ora, isto é mais de duas vezes o número de mortos diretamente pela I Guerra Mundial!

Pela Sentinela 15/4/76, página 241, em português, parece que a afirmação da Sentinela 15/10/75, em inglês, é, na realidade, uma citação adotada (de bom-grado) de outra fonte. Pena que não colocaram a palavra "combinadas" - embora a idéia esteja implícita. Confira:

"Segundo certo estudo, a Primeira Guerra Mundial foi relatadamente sete vezes maior do que todas as 901 guerras grandes nos 2.400 anos precedentes. — Colliers, 29 de setembro de 1945."

A "equivalência" de A Sentinela 15/4/82 talvez esteja na Sentinela 15/10/82, página 8. Embora não diga "sete vezes maior do que todas as guerras anteriores", usa-se a expressão "todas as grandes guerras juntas". Note:

"A Primeira Guerra Mundial, travada de 1914 a 1918, foi muito maior do que todas as grandes guerras juntas durante os 2.400 anos que precederam a 1914."

A conceituada The New Encyclopedia Britannica (Macropaedia, Vol. 4, 15.ª edição 1980, página 361), também diz sobre a Rebelião de Taiping: "Uma estimativa contemporânea de 20.000.000 a 30.000.000 de vítimas é certamente muito inferior ao número real."

O historiador sueco Gunnar Hägglöf diz no seu livro China as I saw it (Kina som jag säg det, Estocolmo, 1978) na página 62: que "a Rebelião de Taiping, que em meados do século dezenove abalou o Estado Chinês até aos seus alicerces, custou mais de 40 milhões de vidas e marcou de fato o princípio do fim do império Chinês."

Ora, se apenas uma guerra anterior a 1914 EC matou entre 20 e 40 milhões de pessoas, como se sustenta a citação da Torre de Vigia de que na Primeira Grande Guerra morreram sete vezes mais pessoas do que nas principais guerras dos 2.400 anos anteriores, juntas?

Como a maioria das Testemunhas de Jeová não estuda história, e pesquisar além das publicações da Torre de Vigia é algo fortemente desencorajado, tal argumento falho é aceito passivamente, perpetuando o engano e a ignorância.

De modo que o Corpo Governante, após arrazoar sobre tal base imprecisa, dá como certo que a segunda vinda de Cristo se deu em 1914 EC, mas de forma invisível, aliás, visível apenas para os seus próprios membros, apesar das palavras do próprio Cristo, explicando quão claramente observável a todos será sua vinda, em Mateus 24:25–27: “Eis que eu vos avisei de antemão. Portanto, se vos disserem: ‘Eis que ele está no deserto!’, não saiais; ‘eis que ele está nos aposentos interiores!’, não o acrediteis. Pois, assim como o relâmpago sai das regiões orientais e brilha sobre as regiões ocidentais, assim será a presença do Filho do homem.”

O mesmo método de análise pode ser feito às outras profecias, que segundo o Corpo Governante, “confirmam” a doutrina de 1914 EC. A mesma manipulação de informações distorcidas, a mesma “desonestidade intelectual“, pois não posso conceber nem por um minuto que os escritores da Torre de Vigia sejam simplesmente negligentes em sua pesquisa histórica.

 

EXEMPLOS 6 E 7

Os exemplos 6 e 7, usam as convincentes expressões “é certo” e “você sabe”, ao  tocar no ponto mais sensível e mais caro para a Organização: sua alegada escolha como os únicos representantes de Jeová e Cristo na terra, e a rejeição de todas as outras religiões do mundo. A partir de 1922, o segundo presidente da Sociedade, J. F. Rutherford, passou a ensinar que "em 1918, ou perto desta data, o Senhor Jesus veio ao seu templo (espiritual)", e, em resultado desta visita de inspeção, designou em 1919 o “Escravo Fiel e Discreto” como seu legítimo representante na terra, por ser o único grupo religioso no mundo que após este período de purificação, apegava-se à verdade bíblica, servindo a seus irmãos alimento espiritual não adulterado. O livro Aproximou-se o Reino de Deus de Mil Anos (1975), páginas 350 e 351, parágrafo 40 diz:

“A questão era servir alimento, a espécie correta de alimento no tempo apropriado. Tinha de ser sobre isso que o retornado amo precisava fazer uma decisão... Não só constituiu a regularidade em servir o alimento espiritual um problema, mas também se devia considerar a qualidade do próprio alimento. Neste respeito, o grupo de cristãos odiados e perseguidos, que sempre procuravam ser escravos fiéis de Jesus Cristo, enfrentou a prova.”

O leitor do novo livro não é informado no entanto, que nesta época, as publicações da Torre de Vigia ensinavam coisas estranhas, como piramidologia, as já citadas previsões do fim do mundo e um enorme conjunto de doutrinas que foram uma a uma sendo descartadas como falsas e sem nenhum valor nutritivo. Estava tal grupo de fato, apegando-se à imutável verdade bíblica e alimentando seus irmãos com o “alimento espiritual no tempo apropriado” ou estava tão envolto em passageiras doutrinas humanas como as demais religiões de então?

Naturalmente, não foi possível a ninguém de fora do Corpo Governante testemunhar tal designação, tal escolha feita por Cristo, visto ela ter se dado convenientemente de forma invisível. Não é fantástico?

Não me parece ser por mero acaso, que o uso de tais expressões ocorram, pelo menos nos pontos em que as percebi, em conexão com doutrinas controversas, especulativas, que não podem ser encontradas nas páginas da Bíblia salvo com muita imaginação, e que precisam ser inculcadas vez após vez na mente das testemunhas como se fossem doutrinas bíblicas, não dando espaço para inquietações e questionamentos, principalmente acerca da alegada autoridade da Torre de Vigia e seu astuto Corpo Governante, autoridade esta, ancorada em uma cronologia caduca e enganosa.

Resta-nos, porém, um alento: A repetição incessante de uma mentira, jamais a transformará em verdade!