facebok

GRUPO INDICETJ EX-TJ

Participe também!

 

 

Minha biografia teocrática

 

Sergio Gama Santos

 

Sou da segunda geração de uma família de Testemunhas de Jeová - utilizando-me do jargão organizacional; “nasci na verdade.” Embora tenha crescido nesse ambiente afastei-me na adolescência só retornando já adulto, aos vinte anos de idade. Segui todos os passos organizacionais: estudo, batismo (1994) progresso espiritual, e por fim: Servo Ministerial (1997).

Nunca tive vocação ou a pretensão de ser ancião, contudo, por fazer parte de uma congregação pequena, (45 publicadores) sempre tive diversas responsabilidades organizacionais; discursos públicos, dirigente da escola e do estudo de A Sentinela. Cuidei das contas congregacionais e tudo mais que fosse trabalho burocrático / espiritual.

Devido o constante contato com o programa de “alimento espiritual” sempre acreditei que os ensinos emanados pelo Corpo Governante fossem ensinos provindos de Deus - e jamais duvidei disso - muito embora não seguisse ao pé da letra muitos desses ensinos. (Dentre outras coisas; nunca me isolei totalmente dos “mundanos” nem conseguia enxergar erros em algumas comemorações proibidas pelo Corpo Governante). Porém, achava que por conseguir “vencer” debates religiosos com pessoas de outras religiões e ter a certeza de que dogmas como o da geração de 1914 eram biblicamente corretos eu estava na "ÚNICA religião verdadeira" - A Sentinela, 1/7/90, página 7.

No ano de 2000, contrariando a “admoestação piedosa” de Brooklin, ingressei na universidade. Nunca me incomodei com a desconstrução da verdade que meus professores faziam ali, nem aquelas discussões abalavam minha fé (apesar disso, volta e meia alguém teimava em me dar “conselhos amorosos” quanto ao ensino universitário). De qualquer forma foi a universidade quem primeiro me propiciou uma outra visão a respeito do ensino transmitido pelo escravo fiel. No ano de 2000, a internet ainda engatinhava por aqui na região onde moro, mas já estava a pleno vapor nos laboratórios e biblioteca da universidade que eu cursava. Foi lá que aprendi a acessar a internet e, num desses acessos, por pura curiosidade (até onde me lembro, já havia lido algo de Betel proibindo a utilização da net) resolvi pesquisar sobre as Testemunhas de Jeová. Tudo que consegui foi a transcrição de uma carta de Rutherford para Hitler e um comentário sobre os objetivos da mesma. Como o comentário me pareceu tosco e vexatório não dei muita importância. Ademais, todas as vezes que eu pesquisava sobre Testemunhas de Jeová – acredite – só conseguia sites de TJotas falando desse ou daquele congresso ou dessa ou daquela reunião ou formando comunidades de irmãos para se conhecerem melhor e se agruparem pela rede. Quase não vejo mais essas páginas hoje. Creio que se deva as constantes proibições de Betel contra isso.

Os sites que pesquisei, porém, traziam críticas injustificadas, sem fundamentos. Alguns  beiravam ao ressentimento, à raiva. Por isso, seguindo a linha de pensamento organizacional, resolvi parar de acessar a net quando percebia quaisquer comentários depreciativos.

Creio ser esse o mal de que sofria boa parte das páginas dedicadas às Testemunhas de Jeová; o rancor e o escracho infundado – diferente de hoje quando a maioria dos sites são maduros e coerentes em suas argumentações.

Dessa forma, embora a internet não me desse muito o que pesquisar naquele momento, ela ao menos me fez enxergar novas possibilidades de pesquisa.

Cerca de um ano após eu ter saído da faculdade (2004) comecei a lecionar. Nas horas vagas das aulas, não tendo nada para fazer, ficava no laboratório de informática da escola. Resolvi então, mais uma vez, entabular uma pesquisa sobre as testemunhas de Jeová. Qual foi minha surpresa ao me deparar com sites de pesquisa extremamente bem elaborados. (quando me pedem referências de sites sempre cito quatro que para mim são os essenciais hoje no Brasil (embora alguns deles estejam há um tempão sem atualizações): o INDICETJ.COM, o OBSERVATÓRIO DA TORRE, o TORRE DE VIGIA e o do WILLIAM GADELHA (que nunca consigo lembrar o nome).

Fiquei aturdido com o volume de informações ali apresentado. As matérias eram concisas, muito bem documentadas – inclusive a questão pontual da ONU. Como não tinha net em casa eu salvava as matérias em um pen drive e as passava para meu computador. Fiquei noites inteiras, durante vários meses, quase sem dormir, cruzando informações, comparando o material dos sites com as publicações da sociedade. Essa foi minha rotina durante quase seis meses: aula vaga, pesquisa no laboratório, salvar o material pesquisado em um pen drive, armazenar em meu computador e analisar as informações até altas horas da madrugada.

Após meses nessa rotina eu não tinha mais dúvidas do quanto era irrealístico e antibíblico acreditar que Jeová falava comigo através de um grupo de homens localizados lá nos Estados Unidos. Não conto as vezes em que eu ria bastante me perguntando como eu pude acreditar em coisas que, algumas delas, beiravam a argumentação desenvolvida por uma criança. Lembro-me de ter orado bastante em agradecimento a Jeová por ter me aberto os olhos e desprogramado minha mente - e de existirem pessoas tão compromissadas com a verdade a ponto de gastarem tempo, dinheiro e grande esforço para disponibilizar esse material todo que encontramos nesses sites tachados de apóstatas.

Sei que já virou jargão entre os dissidentes falar em controle mental. Mas ele existe, é fato. Toda Testemunha de Jeová é absorvida pelo “rico banquete espiritual”. Dessa forma, ao conseguir refutar uma meia dúzia de ensinos que as religiões - e sua grande maioria de adeptos leigos seja lá em quaisquer quesito bíblico - pregam como corretos, o cristão TJ sente que, de fato, devido à superioridade de suas argumentações, está de posse de uma verdade única e exclusiva – passado por um grupo de homens que detém o monopólio do diálogo com Deus. Esse é e continuará sendo por muito tempo ainda o grande triunfo do Corpo Governante para manter milhões de pessoas submissas à sua vontade.

O fato é que, a partir de minhas pesquisas, parei de sair no serviço de campo. Dei algumas desculpas e entreguei as atividades que eu tinha na organização. Parei de comentar nas reuniões e tomei outras medidas que não me deixasse receber os chamados “privilégios teocráticos”.

Após um tempo nessa, fiquei oscilando entre me manter “frio”, como diz a sociedade, ou se encararia a barra de romper com tudo. Meu maior receio era perder as amizades que eu tinha no salão – coisa que de fato aconteceu – ou de fazerem alguma pressão em minha mãe para ela parar de falar comigo – coisa que deve ter acontecido ou estar acontecendo – embora, felizmente, minha relação com ela e com meu irmão mais novo continue sendo a mesma (ainda não sei como vai ficar com meu irmão mais velho que é ancião, missionário e pior, ungido – e pior ainda: casado com uma mulher extremamente fiel às orientações do escravo).

Pesei tudo isso na balança e resolvi que eu tinha mesmo que deixar de ser testemunha de Jeová. Ponderei tudo e vi que boa parte de minha indecisão se devia mesmo ao meu medo de encarar uma reunião com três anciãos – toda testemunha tem verdadeiro pavor de uma comissão judicativa. Eu me auto-analisava e descobri que isso também estava acontecendo comigo – situação que me era inconcebível: saber que uma coisa estava errada e ter receio de refutá-la por medo de sentar numa cadeira para conversar com três homens, tão homens quanto eu.

No caso de minha comissão esses homens eram um garoto de 24 anos de idade, Fabio Santos, completamente iletrado na bíblia ou mesmo em assuntos congregacionais. Um outro, pioneiro especial de 37 anos, completamente submisso à idéia de um corpo governante de Jeová na terra, Marcos Reis -, o que mais tentou argumentar na minha comissão judicativa. E por fim, José Carlos, um senhor de minha mais sincera estima, mas também, assim como Fabio Santos, o garoto/ancião, iletrado nos assuntos bíblicos e até organizacionais.

Decidi que não havia por que eu ter medo de tomar essa decisão. Acho que essa foi a última barreira do corpo governante que eu de fato me sentia preso – e da qual consegui me libertar. O restante da história está em uma gravação de quatro horas duração (disponível na primeira página do indicetj.com).

A história nos diz que a verdade dos fatos é sempre apresentada pelo lado vencedor e o fraco nunca tem voz nem tem a sua versão dos fatos contada. Foi com esse pensamento em mente que eu resolvi gravar minha comissão judicativa.

Não tive com essa atitude a pretensão de me tornar um iconoclasta. Outras ex-testemunhas de Jeová, (às quais agradeço aqui) que vieram antes de mim o foram e são com muito mais propriedade e capacidade.

Porém, uma vida inteira como testemunha de Jeová não poderia ser jogada desrespeitosamente no limbo nem no estigma da apostasia.

Uma história de uma vida inteira de adoração equivocada tão bem retratadas em cerca de quatro horas de gravação.

 facebok

GRUPO INDICETJ EX-TJ

Participe também!