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To Verdener (Mundos Separados)
J. Guimarães
Finalmente assisti ao filme. Fiz questão que meu
namorado assistisse comigo, para ter também a opinião de alguém relativamente
neutro, que nunca passou pela Torre de Vigia. Assim eu teria outra percepção
tanto sobre o filme enquanto arte, quanto sobre a temática trabalhada.
Quero antecipar que na minha análise haverá
spoilers, ou seja, revelarei
alguns pontos do filme. Quem não quiser saber, pare aqui e depois de assistir
ao filme leia.
Bem, a cena de batismo da irmã da Sara é bem emblemática. Mostra como a
protagonista está feliz pela inserção da irmã biológica mais nova nessa
comunidade religiosa. Sara é uma TJ padrão: vai ao campo, dirige o estudo com
seus irmãos, etc. Mas ainda no começo do filme há um drama familiar: o pai de
Sara cometeu adultério, e não é perdoado pela esposa, o que resulta em
divórcio, bíblico segundo as TJ's. Os pais perguntam com quem os filhos querem
ficar e, instigados por Sara, resolvem ficar com o pai. Sara chega a passar na
cara da mãe que é um dever perdoar. Mal saberia ela que não teria acesso ao
perdão do pai e de outros TJ's no decorrer do filme...
Sara tem uma amiga, Thea, que diz haver três tipos de jovens
testemunhas-de-jeová: O primeiro quebra todas as regras. O segundo experimenta
as coisas sem falar muito a respeito. O terceiro,
são os nerds: vão a todas as reuniões, bebem chá com seus pais e
nunca fazem nada errado.
Sara diz ser do terceiro tipo, e sua amiga diz que em breve ela será do
segundo. Estão ambas numa festa "mundana", e Sara mentiu para o pai para estar
lá. Quer dizer, disse uma meia-verdade. Não disse exatamente que tipo de festa
era. E foi lá instigada por sua amiga Thea, também testemunha. É lá que ela
conhece Teis, por quem virá a apaixonar-se.
Para mim um dos momentos mais bonitos do filme, em se tratando de fotografia,
é quando Sara perde o trem e é obrigada a dormir na casa de Teis, que mora
distante dela. Sara reluta, mas concorda em dormir na cama, e Teis no chão. O
enquadramento da câmera, com Sara em primeiro plano, cheia de dúvidas e
desejos, e Teis mais ao fundo, no chão, é simples, bonito e emblemático.
Bom, a questão é que o filme vai se desenvolvendo, mostrando a rotina familiar
TJ de Sara, por um lado, e seu envolvimento amoroso, de outro. Situações
constrangedoras também acontecem, como quando Sara e Teis estão numa loja, e
lá ela encontra seu irmão biológico mais velho. Mal se falam, e o mal-estar é
notório. Quem foi TJ mata logo a charada: o irmão de Sara é desassociado, e
ela só fala com ele para não parecer anormal diante de Teis. Mas ele percebe,
e fica estupefato diante de uma religião que submete irmãos a isso. E num dos
momentos altos do filme, começa a questionar que Deus amoroso é esse. Aponta
aleatoriamente para pessoas da loja, mulheres e um bebê, e pergunta se Deus
vai destruí-los caso não se convertam à fé de Sara. Constrangida ela se mantém
firme, e diz que sim, vai. Evidentemente tudo isso, dito de forma tão crua,
por uma pessoa de fora, a quem ela ama, começa a mexer com suas certezas mais
íntimas.
O que ocorre é que, tanto por se envolver emocionalmente, como por analisar e
ver como de fato funciona a organização, Sara vai se distanciando, mas tem
medo de se tornar como o irmão mais velho, um pária social, alguém abjeto
diante dos outros. Afinal, não são só os amigos que Sara vai perder caso deixe
a Torre: a própria família lhe iria virar as costas. É por isso que ela e Teis
pensam estratégias para enganar as pessoas, e não deixar elas perceberem que
já estão morando juntos. Sara conta inclusive com a ajuda da mãe, que lhe
confessa que também tinha suas dúvidas sobre a organização. A maior
preocupação de Sara é não se distanciar de seus irmãos.
Teis até que tentou estudar a Bíblia. Foi a um congresso. Mas simplesmente a
"verdade" não lhe entrava na cabeça. E, justiça seja feita: ele em momento
nenhum exigiu que Sara abandonasse sua fé por causa dele. Mas também nunca
deixou de falar com ela sobre o que pensava.
Os anciãos insistem em procurar Sara e ela passa por duas comissões
judicativas. Na primeira foi ela mesma quem procurou os anciãos, sob
instâncias do pai.
Quando meu namorado viu como funciona uma comissão judicativa, ele soltou uma
exclamação: "Que perversão!". Palavras dele. Ele achou um absurdo o grau de
intimidade das perguntas. E disse até que na confissão católica a confissão
pode ser anônima, e não há todo aquele massacre psicológico. A todo momento
ele me perguntava: "É assim mesmo? Como você se submeteu a isso?"
Finalmente Sara é desassociada, contra a sua vontade. Repito: não que ela
quisesse permanecer na Torre. O que ela não queria era perder o contato com os
irmãos. Sua irmã, que se batizou no começo do filme, reage como a própria Sara
já havia tratado o irmão desassociado: vira-lhe a cara. O caçula (nessa parte
eu me emocionei muito) quer entender por que Jeová vai destruir sua irmã a
partir de agora. E Sara lhe fala: não acredite, é tudo mentira!
Foi triste e real também ver Sara no funeral da amiga, que morreu por rejeitar
transfusões de sangue. Confesso que nesse momento do filme, quando ela chegou
ao Salão do Reino, pensei (na verdade, desejei profundamente) que ela fosse
fazer um discurso e dizer umas verdades. Mas ela simplesmente sentou, ouviu o
discurso, e foi embora, sendo vista como um E.T. por todos os seus
ex-"irmãos". E para piorar, seu pai ainda lhe disse que ela era egoísta por
ter abandonado a Jeová e à família. Sara responde com uma pergunta que para
mim valeu o filme inteiro. Essa eu vou deixar para vocês conferirem.
Bom, muitos não gostaram do filme porque Sara terminou seu relacionamento com
Teis. Outros, porque ela se torna atéia no final, outro ápice do filme, sua
última oração. Eu acho que já valeu muito a pena pelo fato de ela ter se
libertado, e agora, finalmente, poder escolher seus caminhos, sem culpa. Achei
muito positivo isso. Penso que devemos abandonar o pendor hollywoodiano que
temos, de ansiar por "finais felizes". Por mais contraditório que possa
parecer, esse filme segue a máxima de Herbert Viana: "A vida não é filme, você
não entendeu!". Sim, esse filme é baseado em fatos reais, na vida de pessoas
como nós. E não há nada mais de original desde que Aristóteles escreveu na sua
obra Arte Poética, milhares de anos atrás: a arte só é arte quando imita a
vida...
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