IMAGINAÇÃO OU DELIBERAÇÃO?
Uma análise do processo editorial e da responsabilidade institucional diante de ilustrações controversas
Uma coisa é perguntar se determinada figura foi colocada deliberadamente. Outra, bem diferente, é perguntar como uma ilustração foi produzida, examinada e tratada depois que alguém apontou nela uma configuração estranha.
Este artigo não pretende provar, apenas pela aparência de uma figura, a intenção de quem a produziu. O objetivo é mais específico: verificar o que as próprias publicações das Testemunhas de Jeová dizem sobre o processo editorial das ilustrações e perguntar se a explicação “é apenas imaginação” é suficiente para encerrar cada caso concreto sem uma análise adicional.
1. PAREIDOLIA EXISTE — MAS EXPLICA TUDO?
Às vezes, o acaso produz semelhanças. É o que acontece quando vemos figuras em nuvens, troncos de árvores ou formações rochosas como as mostradas abaixo.
- Cabeça de Apache — Ebihens, França. Formação rochosa natural que, vista de determinado ângulo, lembra nitidamente o perfil de um rosto humano olhando para a esquerda. A vegetação no alto da rocha reforça a impressão de cabelo.
- Elephant Rock — Heimaey, Islândia. Formação rochosa vulcânica na ilha de Heimaey, no arquipélago de Vestmannaeyjar. O contorno do penhasco lembra a cabeça de um elefante, com a “tromba” descendo em direção ao mar.
- Cachoeira da Noiva — Cajamarca, Peru. Queda-d’água de cerca de 17 metros cuja água, ao descer pelos sulcos da rocha escura, produz a impressão de uma mulher usando vestido e véu de noiva. A semelhança surge inteiramente da combinação natural entre água, rocha e ângulo de visão.
- Galinha de Pedra — Quixadá, Ceará, Brasil. Conhecida formação rochosa de Quixadá que, vista de determinado ângulo, lembra a silhueta de uma galinha.
A mente humana tende a reconhecer rostos e formas conhecidas em elementos aleatórios da natureza — como nuvens, rochas (a Cabeça de Apache na França ou a Elephant Rock na Islândia) e quedas-d'água. Esse fenômeno psicológico é a pareidolia.
Contudo, aplicar o conceito de pareidolia como uma explicação genérica para todas as ilustrações publicadas ignora uma diferença fundamental: rochas e nuvens não passam por comissões de redação nem por exames de qualidade gráfica.
Enquanto a natureza produz formas ao acaso, o material impresso de uma organização religiosa passa por um fluxo planejado de criação, fotografia, desenho, revisão e aprovação. Portanto, a discussão deixa de ser puramente psicológica e passa a ser de responsabilidade editorial.
2. AFINAL DE CONTAS, AS FIGURAS SÃO IMAGINAÇÃO OU DELIBERAÇÃO?
O caso da chamada “Face de Marte” mostra como a qualidade de uma imagem pode influenciar o que enxergamos. Em 1976, uma fotografia de baixa resolução tirada pela sonda Viking mostrou uma colina na região de Cydonia que parecia um rosto humano. Durante anos, essa aparência chamou atenção. Mais tarde, imagens de melhor qualidade permitiram comparar as fotografias e esclarecer o que realmente estava ali.
Novas evidências foram colocadas diante do público.
No caso de Marte, a percepção inicial pôde ser confrontada com novas evidências e colocada à prova. Mas e quando uma configuração visual semelhante aparece repetidamente nas publicações das Testemunhas de Jeová e continua sendo reapresentada ao longo dos anos? Como esse tipo de caso é tratado quando a própria organização é informada sobre o que os leitores identificaram?
3. NOTE O CONTRASTE
A NASA tratou do caso do rosto em Marte abertamente, publicamente. A NASA não escondeu o assunto: novas fotografias foram divulgadas e permitiram que o público comparasse as imagens antigas com as novas. "Marte" prova que uma instituição questionada pode responder tornando a evidência pública e verificável, e a diferença é que uma o fez e a outra não.
No caso das publicações das Testemunhas de Jeová, porém, quando leitores identificaram figuras suspeitas e escreveram à organização, a situação foi diferente. Em vez de esclarecer publicamente cada caso, o Corpo Governante permaneceu em silêncio ou tratou as reclamações de forma reservada.
Em outras palavras, não colocou diante do público quais eram as ilustrações denunciadas: não as mostrou, não as identificou e não forneceu elementos que permitissem ao leitor comum conferir pessoalmente a acusação. Além disso, a organização também orientou seus membros a se desfazerem de publicações antigas. (No MENU veja "ANTES DE DIZER 'NÃO VI NADA'".)
CONSIDERE
JOÃO 3:20, 21
20 Pois quem pratica coisas ruins odeia a luz e não se chega à luz, para que as suas obras não sejam reprovadas.
21 Mas quem faz o que é verdadeiro se chega à luz, para que se veja claramente que as suas obras são feitas em harmonia com a vontade de Deus.”
21 Mas quem faz o que é verdadeiro se chega à luz, para que se veja claramente que as suas obras são feitas em harmonia com a vontade de Deus.”
— Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada — revisão de 2015
O Corpo Governante não mostra ao público as ilustrações que foram denunciadas, para que todos possam vê-las e tirar sua própria conclusão. Não diz: “Esta é a figura que foi criticada. Olhe para ela e decida por si mesmo.”
Isso faz lembrar o princípio de João 3:20, 21: aquilo que é trazido à luz pode ser examinado. Mas, neste caso, as imagens denunciadas continuam fora da discussão pública da organização.
4. O QUE O CORPO GOVERNANTE FEZ DEPOIS DE SER INFORMADO?
Se uma figura passou despercebida na época em que foi feita, uma denúncia daria à organização a chance de examiná-la novamente, explicar o caso e, se fosse necessário, corrigir ou retirar a imagem em edições futuras.
Mas o que acontece quando a figura continua sendo publicada depois de ter sido denunciada?
O caso do rosto em Marte foi esclarecido. O mesmo não aconteceu com as figuras denunciadas nas publicações das Testemunhas de Jeová. Até onde este acervo mostra, nenhuma das figuras denunciadas — sejam rostos, formas humanas ou de animais, gestos, símbolos, sinais, letras, imagens sexuais ou outras figuras percebidas nas ilustrações — foi publicamente esclarecida pela organização.
Ao longo dos anos, algumas dessas mesmas figuras voltaram a aparecer, sem nenhuma alteração. Isso faz surgir uma pergunta: por que essas semelhanças continuam nas ilustrações?
Por exemplo, até o momento, a figura do acervo 001 — O CAOLHA RAIVOSO — já foi republicada cerca de cinco vezes. Pelo que tenho notícia, a última foi em 2011, mesmo depois de essa figura ter sido denunciada no início dos anos 80.
Se uma gravura foi mantida, republicada ou continuou sem explicação mesmo depois das reclamações, isso também precisa ser levado em conta.
Por isso, comparar edições antigas e novas não serve apenas para discutir pareidolia. Serve também para ver como a organização reagiu depois que alguém apontou determinado detalhe.
Nesse ponto, a pergunta já não é somente:
“A FIGURA FOI COLOCADA DE PROPÓSITO?”
A pergunta passa a ser:
“DEPOIS QUE O CORPO GOVERNANTE FOI ALERTADO, O QUE ELE FEZ?”
5. “É PAREIDOLIA” — MAS QUEM DISSE ISSO?
Esses exemplos mostram que não é certo usar uma única explicação para todas as figuras do acervo. Em alguns casos, pode haver pareidolia. Em outros, a discussão envolve letras, gestos, posições do corpo, mudanças feitas nos desenhos ou elementos que aparecem claramente na imagem.
O INDICETJ também não precisa dizer que toda figura estranha foi feita de propósito. Pode haver acidentes, coincidências ou enganos. Além disso, algumas montagens feitas por outras pessoas são mal preparadas ou pouco confiáveis. Isso acaba prejudicando a análise de casos que realmente precisam ser examinados. Quando essa diferença não é levada em conta, há pessoas que enxergam figuras em tudo, até mesmo em um simples pingo de “i”... Infelizmente, essas montagens acabam fazendo alguns leitores olharem com desconfiança para a questão das figuras estranhas nas publicações. Mas isso não significa que não existam figuras realmente suspeitas nas publicações das Testemunhas de Jeová.
Há defensores do Corpo Governante que usam o acaso para explicar todas as figuras denunciadas. Mas chamar algo de pareidolia não faz desaparecer aquilo que está na imagem. Apenas diz que a pessoa pode estar interpretando aqueles traços de determinada maneira.
Por isso, dizer “é pareidolia” não encerra a questão. Ainda é preciso perguntar: o que está causando essa impressão? O detalhe aparece na imagem original? Foi alterado depois? Aparece novamente em outras edições?
Nas fontes oficiais consultadas pelo INDICETJ, não foi encontrada uma explicação do Corpo Governante dizendo que essas figuras são casos de pareidolia. Por isso, quando alguém diz simplesmente “é pareidolia”, cabe uma pergunta muito simples:
ONDE O CORPO GOVERNANTE DISSE ISSO?
Se existe uma explicação oficial, mostre a publicação, a página e o parágrafo. Sem essa referência, não se pode dizer que “pareidolia” é a explicação oficial da organização para essas denúncias. Antes de aceitar essa resposta, é melhor examinar as provas. Isso está de acordo com o conselho bíblico: “Certifiquem-se de todas as coisas; apeguem-se ao que é bom.” — 1 Tessalonicenses 5:21.
Também não resolve a questão mostrar desenhos de livros, revistas, músicas, filmes ou outras obras seculares. Segundo a própria organização, essas coisas fazem parte do mundo que “jaz no [poder do] iníquo” (1 João 5:19). Por isso, não é estranho encontrar nelas imagens ou formas que possam ser interpretadas de várias maneiras. Além disso, essas fontes não dizem ser o exclusivo “instrumento que Deus usa”, como o Corpo Governante afirma sobre si mesmo. — A Sentinela de 15 de agosto de 1981, página 19.
Mostrar figuras parecidas em outras publicações também não resolve a questão. O que importa é examinar a figura específica e descobrir como ela chegou à versão que foi publicada.
6. MEMBROS DO PRÓPRIO CORPO GOVERNANTE EXAMINAM AS GRAVURAS
Antes de dizer que uma figura estranha foi apenas um erro do ilustrador, veja o que a própria organização disse sobre o processo de publicação:
“Cada artigo, tanto da Sentinela como de Despertai!, e cada página, inclusive as gravuras, são esquadrinhados por membros escolhidos do Corpo Governante, antes de irem para a impressão.” — A Sentinela, 1º de março de 1987, p. 15, §18.
Preste atenção nessa frase. A revista não diz que as gravuras eram apenas vistas rapidamente. Ela usa a palavra “esquadrinhados”. Mas o que isso significa? Segundo o Dicionário Aurélio — Século XXI, “esquadrinhar” é “examinar cuidadosamente; vigiar com cuidado; investigar, pesquisar, perscrutar”. Portanto, não se trata de simplesmente olhar e passar adiante.
E há outro detalhe importante: a revista não disse que esse trabalho era feito apenas por desenhistas ou por funcionários de Betel. Disse que as gravuras eram examinadas por “membros escolhidos do Corpo Governante”. Ou seja, eram membros do próprio Corpo Governante que participavam desse exame — não apenas pessoas escolhidas pelo Corpo Governante.
Isso não prova que cada detalhe denunciado tenha sido colocado de propósito. Mas mostra que o próprio Corpo Governante fazia parte do processo de exame das gravuras.
Por isso, quando aparece uma figura estranha numa publicação, não basta dizer: “foi um acidente” ou “é pareidolia”. Isso não responde a toda a questão.
Então surge uma pergunta: se o próprio Corpo Governante examinava as gravuras antes da impressão, por que sua responsabilidade desapareceria quando uma dessas gravuras é questionada?
Talvez alguém diga que isso era apenas uma prática antiga, mencionada em 1987. Mas, 26 anos depois, A Sentinela voltou a falar sobre o assunto:
“A Comissão de Redação do Corpo Governante supervisiona o processo de pesquisa, redação, revisão, ilustração e tradução de nossas publicações impressas.” — A Sentinela, 15 de abril de 2013, p. 30, §12.
Preste atenção novamente à palavra “ilustração”. A própria organização diz que a Comissão de Redação do Corpo Governante supervisionava essa parte do trabalho. Portanto, não combina com o que a organização diz imaginar que cada artista trabalhava sozinho, fazia o desenho que quisesse e depois o mandava diretamente para a gráfica.
E o JW.ORG foi ainda mais claro ao mostrar como uma capa da Despertai! de 2015 foi preparada. Os desenhistas fizeram propostas, que foram apresentadas à Comissão de Redação do Corpo Governante. A Comissão escolheu o projeto de acordo com “a ideia a ser transmitida pela foto”. O mesmo artigo registra a declaração de um fotógrafo: “Cada detalhe precisa ser bem planejado.”
Isso é importante.
Não estamos falando de um Corpo Governante que recebia a revista pronta, depois que tudo já havia sido decidido. As próprias fontes da organização mostram membros examinando gravuras, uma Comissão supervisionando as ilustrações e, em um caso documentado, avaliando propostas e escolhendo qual ideia visual seria apresentada ao leitor.
Isso prova que cada detalhe estranho denunciado pelo INDICETJ foi colocado de propósito? Não. Seria ir além do que as provas mostram. Mas mostra algo que não pode ser ignorado: o Corpo Governante fazia parte da supervisão do material visual publicado.
Portanto, diante de uma gravura questionável, não basta dizer:
“Talvez o ilustrador tenha feito isso sem querer.”
Mesmo que tenha sido assim, a pergunta continua:
E quem examinou e aprovou o material que chegou à impressão?
Se um detalhe passou despercebido, houve uma falha no exame que a própria organização chamou de “esquadrinhar”. Se foi percebido e mesmo assim permaneceu, surge outra questão. O que não combina com os documentos é fingir que o Corpo Governante não tinha participação no processo.
Quando alguns defensores das Testemunhas citam essa Sentinela e dizem que as imagens questionadas foram apenas acidentes ou casos de pareidolia, surge outra pergunta: como essas configurações passaram pelo próprio “esquadrinhar” que a revista diz ser feito por membros escolhidos do Corpo Governante?
O fato de várias pessoas perceberem a mesma configuração não prova, por si só, que ela foi criada de propósito. Mas também não faz desaparecer o que está na ilustração, nem tira a responsabilidade de quem examinou o material antes da impressão.
7. EXAME METICULOSO — ATÉ COM LENTE DE AUMENTO
A Sentinela, 1.º de outubro de 1992, pp. 30-31 — “Testemunhas de Jeová — A Organização Que Leva o Nome”.
A revista registra o lançamento do vídeo, sua duração de 55 minutos e que ele foi o primeiro produzido pela Sociedade.
“... Gravuras transmitem uma mensagem clara para todas as pessoas.
Sua cor, brilho e nitidez são meticulosamente examinados.”
Este vídeo traz uma prova importante sobre outro ponto: as ilustrações não eram feitas às pressas nem sem controle. A fita mostra como as publicações eram produzidas e deixa claro o cuidado usado na preparação das ilustrações.
A seguir, apresento apenas alguns trechos desse vídeo — e não o vídeo completo — justamente as partes que mostram como as ilustrações eram preparadas e os cuidados que recebiam antes da publicação.
Considerando a minutagem do vídeo completo, mais ou menos aos 7 minutos, o locutor diz sobre cada desenho:
“sua cor, brilho e nitidez são meticulosamente examinados”!
Trecho do vídeo “Testemunhas de Jeová — A Organização Que Leva o Nome”.
Como poderemos ver mais adiante, em torno dos 11 minutos do vídeo original, aparece uma pessoa usando uma lente de aumento para procurar até mesmo pequenas diferenças de tonalidade entre as cores nas ilustrações. Certamente a organização entende o que significa um “meticuloso exame”!
Então surge uma pergunta incômoda: se cor, brilho, nitidez e até pequenas diferenças de tonalidade mereciam esse grau de atenção, é razoável tratar toda configuração estranha posteriormente apontada como algo que ninguém poderia ter percebido? Ainda mais por uma equipe alertada de que havia pessoas vendo coisas inadequadas nas publicações?
Isso não prova, por si só, que cada detalhe denunciado foi colocado de propósito. Mas torna difícil dizer que as ilustrações eram feitas às pressas, sem controle ou sem revisão. A própria organização mostra o contrário.
A própria organização afirma que as gravuras transmitem “poderosas mensagens sem palavras”. Então, quando uma configuração estranha aparece em uma gravura que foi examinada, depois é denunciada e mesmo assim permanece ou é republicada, até que ponto ainda é possível dizer que foi apenas acaso?
O vídeo mostra pessoas examinando as gravuras de perto, inclusive diferenças de tonalidade. Não eram pessoas sem experiência, mas pessoas acostumadas a esse trabalho. Isso é bem diferente da maioria dos leitores, que apenas recebem a publicação e veem a figura pronta.
08 — DA FOTOGRAFIA À ILUSTRAÇÃO: O QUE PODIA SER MUDADO?
Sobre a criação das imagens, o vídeo explica: "Trabalhando a partir de ideias aprovadas, os cenários são montados e fotografados e, depois, desenhados ou pintados por artistas. Membros da família de Betel não raro posam para fotos..."
“Gravuras — poderosas mensagens sem palavras.
Imagens gráficas são usadas para estimular o coração e a mente."
O vídeo mostrou a cena abaixo:
Observe que a ilustração final não mostra, necessariamente, tudo o que aparece na fotografia usada como modelo. Neste caso, podemos ver que a imagem foi modificada quando a fotografia virou um desenho ou pintura. A segunda imagem é a versão oficial publicada no livro O Maior Homem Que Já Viveu, capítulo 95.
Veja algumas diferenças:
- O menino: na fotografia, ele olha para a frente. Já na ilustração publicada, ele olha para a esquerda e aparece com um dedo perto dos lábios.
- A menina: na fotografia, uma de suas mãos está perto da boca. No desenho publicado, porém, as duas mãos aparecem sobre as pernas do homem.
Assim, essas diferenças não aconteceram apenas por causa da posição registrada pela câmera. Elas foram feitas quando a fotografia foi transformada em ilustração.
Isso não quer dizer que todos os detalhes de uma gravura tenham um significado especial. O ponto é outro: durante a produção da ilustração, alguns elementos podiam ser acrescentados, retirados, mudados de lugar ou modificados antes da publicação.
Há ainda outro detalhe importante. As ilustrações eram feitas em tamanho grande. Isso permitia que fossem examinadas com mais cuidado antes de serem reduzidas para a impressão.
Por isso, fica mais difícil afirmar que uma formação estranha na imagem não poderia ter sido percebida antes da publicação.
Veja agora outro exemplo.
Na primeira imagem, aparecem membros de Betel posando para a fotografia que foi usada como modelo. Na segunda, vemos a ilustração publicada no livro O Maior Homem Que Já Viveu, capítulo 53.
Novamente, a versão final não é uma cópia exata da fotografia. O artista mudou alguns elementos antes da publicação.
Esses exemplos mostram algo simples, mas importante:
A FOTOGRAFIA SERVIA DE BASE.
A ILUSTRAÇÃO FINAL ERA FEITA PELO ARTISTA.
Por isso, quando vemos um detalhe na ilustração publicada, não podemos presumir que ele veio automaticamente da fotografia. É preciso observar o que foi mantido, o que foi retirado e o que foi acrescentado ou mudado durante a produção da imagem.
9. NUVENS SÃO DESENHADAS AO ACASO. ILUSTRAÇÕES TAMBÉM?
Formas nas nuvens feitas ao acaso ou por um desenhista?
As forças da natureza, como as nuvens, podem criar formas por acaso. Até aí, nenhuma surpresa. Uma nuvem não precisa de desenhista, de modelo, de revisão nem de aprovação antes de aparecer no céu.
Mas será que podemos dizer o mesmo das ilustrações das publicações das Testemunhas de Jeová? Uma ilustração também aparece sozinha, por acaso, depois que ninguém a desenhou?
É por isso que exemplos de nuvens, árvores, pedras ou galáxias não encerram essa discussão.
Porque não há boatos caluniosos sobre nuvens. Ninguém se revoltou contra Jeová ao notar certa figura estranha num tronco de árvore. Ninguém se tornou ateu por ver formações inadequadas nas pedras. Não se formou nenhuma comissão de anciãos por alguém ter visto uma face numa rosquinha queimada ou nos azulejos do banheiro.
Tampouco há anjos, querubins ou serafins especialmente designados por Jeová para "esquadrinhar" ou "meticulosamente examinar" toda a criação e impedir que formas naturais façam alguém imaginar figuras estranhas.
Algumas das configurações denunciadas, porém, apresentam formas muito definidas e detalhes específicos. Dizer que tudo isso surgiu por acaso seria como jogar latas de tinta para o alto e esperar que, por coincidência, aparecesse um desenho organizado dentro de uma ilustração planejada, produzida e examinada antes da publicação.
Então temos duas situações muito diferentes:
- De um lado, uma forma que aparece espontaneamente na natureza.
- Do outro, uma imagem criada por pessoas para representar uma determinada cena.
Dizer que as duas coisas são iguais apenas porque podemos encontrar “formas” em ambas é simplificar demais a questão. Seria como dizer que uma fotografia de uma casa e uma casa construída com tijolos são a mesma coisa porque ambas têm paredes. Podem até parecer semelhantes em algum aspecto. Mas uma delas simplesmente estava ali; a outra precisou ser construída. É justamente essa diferença que os exemplos de nuvens, pedras, árvores e galáxias deixam de lado.
10. “BASTA DIZER: É PAREIDOLIA”?
"Absurdo! O Corpo Governante nunca permitiria algo danoso em suas ilustrações que louvam a Deus."
― escreveu-me apressadamente uma Testemunha, sem verificar o acervo.
Comentário: Ah, é mesmo? Então os gestos místicos que aparecem em mais de uma dezena de ilustrações e continuam até hoje seriam benéficos? Devemos acreditar que esses gestos “louvam a Deus”? Desculpe, mas não consigo concordar que — bem na capa de A Sentinela de 15 de março de 1997 —, Lázaro esteja louvando a Deus com um gesto que lembra um usado no satanismo e que aparece repetidamente entre os jovens do mundo... — FIGURA 105 — OS CHIFRES DO DIABO LOUVAM A DEUS?.
Ora, há justificativa para republicarem algo malévolo apenas porque se diz que este apareceu por acaso? Ué?! Se é assim, então, liberou geral, é?
Uma face sinistra pode ser publicada e republicada desde que se alegue que é apenas projeção, imaginação? Cada ilustrador está liberado para criar qualquer rosto desde que se afirme depois que é pareidolia e, então, tudo se resolverá instantaneamente, num passe de mágica? Sinais diabólicos podem ser publicados e republicados desde que se diga tão somente que surgiram acidentalmente ou devido a problemas na chapa de impressão e assim por diante?
Nesse caso, seria muito conveniente. O ilustrador poderia criar praticamente qualquer rosto, qualquer forma ou qualquer detalhe. Depois, bastaria alguém aparecer e dizer: “É apenas pareidolia.” Pronto. Problema resolvido.
Não seria mais necessário perguntar como aquela forma apareceu, por que ela está ali, se houve alguma alteração durante a produção da ilustração ou se o detalhe poderia ter sido percebido antes da publicação.
A palavra “pareidolia” passaria a funcionar como uma verdadeira varinha de condão.
Apareceu uma face estranha? “É pareidolia!”
Há uma forma que parece deliberadamente colocada na imagem? “É pareidolia!”
O detalhe chama a atenção de várias pessoas? “É pareidolia!”
A imagem foi publicada e depois republicada? “Continua sendo pareidolia!”
E, com essas duas palavras mágicas, aparentemente nenhuma outra pergunta seria necessária!
Pareidolia não é uma borracha que apaga detalhes. E muito menos uma varinha de condão que transforma qualquer problema em “acidente” no momento em que alguém aponta para ele.
Mas então fica a pergunta: por que algumas configurações consideradas estranhas não foram explicadas ou modificadas depois de denunciadas? Se até alguns defensores do Corpo Governante reconhecem que certas imagens parecem estranhas, por que encerrar o assunto simplesmente dizendo “é pareidolia”? E, se eram apenas pareidolias indesejadas, por que algumas dessas mesmas figuras continuaram aparecendo ou foram republicadas depois das denúncias?
Pode publicar pareidolia e pronto? Eu, hein...
11. A QUESTÃO NÃO TERMINA NA IMPRESSÃO
Quando olhamos o que as próprias publicações dizem, fica claro: as ilustrações não eram feitas de qualquer jeito. Primeiro, as ideias eram aprovadas. Depois, as cenas eram montadas e fotografadas. Os artistas faziam os desenhos e, antes da impressão, as páginas e as gravuras eram examinadas.
Isso não prova que toda figura estranha foi feita de propósito. Mas também não permite dizer que tudo é apenas imaginação ou pareidolia.
Se as gravuras eram examinadas com tanto cuidado, é difícil acreditar que ninguém tenha percebido pelo menos algumas das figuras mais evidentes que foram denunciadas. Por isso, não basta dizer: “Foi por acaso.” O processo mostrado pelas próprias publicações não era um processo sem cuidado ou sem controle.
E há casos ainda mais difíceis de explicar: uma figura é denunciada, a organização fica sabendo e, mesmo assim, ela continua aparecendo ou volta a ser publicada. Isso também precisa ser levado em conta.
Portanto, dizer “é só imaginação” não explica tudo o que vimos neste artigo. Mas também não seria certo dizer que toda figura estranha foi feita de propósito. O que temos são motivos suficientes para continuar investigando.
E há um ponto ainda mais importante: o Corpo Governante fazia parte da supervisão do material publicado. Essa responsabilidade não terminava quando a revista era impressa.
Quando pessoas viram certas imagens, escreveram para a organização e avisaram a liderança, a situação mudou. A pergunta deixou de ser apenas:
“FOI COLOCADO DE PROPÓSITO?”
E passou a ser:
“O QUE A LIDERANÇA FEZ DEPOIS QUE SOUBE?”
É essa segunda pergunta — o que o Corpo Governante fez depois das reclamações — que será examinada a seguir.
Continue sua pesquisa no MENU com o artigo A QUESTÃO PRINCIPAL.
Envie sua opinião, dúvida ou comentário:
indicetj@yahoo.com.br
